domingo, outubro 15, 2017

15 dias de 10 meses



"(...)
Eu quero ver um dia
Nascer sorrindo 
E toda a gente 
Sorrir com o dia 
Com alegria 
Do sol do mar 
Criança brincando 
Mulher a cantar 

Eu quero ver um dia 
Todos trabalhar 
E ao fim do dia 
Ter onde voltar 
E ter amor.
Eu quero ver a paz 
Tristeza nunca mais 
Eu quero tanto um dia 
O pobre ver sem frio 
E o rico com coração.

Eu quero ver um dia 
Numa só canção 
O pobre e rico 
Andando mão e mão 
Que nada falte 
Que nada sobre 
O pão do rico 
E o pão do pobre."

MARCHA PARA UM DIA DE SOL
Chico Buarque

OS DIAS QUENTES CHEGARAM

A caminhada solitária dos destinos parece-me tão desigual. Enquanto uns nascem em berços de ouro, outros sequer berços têm. Os pequenos homens não têm consciência da imensidão que é a sua morada. “Um mundo inteiro”, pensei. Um mundo extraordinário!




Mais um verão chegara com o nascer do sol. Há alguns dias já era possível notar os sinais de sua chegada e a sensação ainda era a mesma: grandioso! O verão é um período grandioso!

Sensação de coração quentinho e abraço apertado. Parece que a nova estação devolve todas as cores que foram levadas pelo inverno e torna os sorrisos mais fáceis, como um passe de mágica. Respirei fundo. O ar que imergia em meus pulmões era leve outra vez e tive certeza: é verão.

Peguei o elevador e lembrei que ninguém deve entrar em elevadores no primeiro dia de verão: - as pessoas reclamam. Cada andar ultrapassado é uma nova reclamação até que finalmente elas reclamam dos dias quentes, como se elas esperassem temperaturas negativas no início da estação. Por sorte, era verão e eu estava de bom humor.

Eu havia acordado mais cedo e por isso resolvi ir para o trabalho caminhando, o que fez com que eu olhasse repetitivamente para os meus pés e sorrisse: eu estava usando sandálias de cores alegres. Fui despertando sorrisos, daqueles sorrisos de fechar os olhinhos, até que meus olhos fitaram um senhor deitado perto do coletor de lixos. Os sorrisos terminaram e eu entendi que o que era verão para mim, continuara a ser inverno para ele.

Enquanto eu vestira roupas divertidas, aquele senhor vestira um moletom velho e sujo de cores frígidas. O seu olhar era triste e, de longe, era possível notar que o seu coração estava gélido, como se os dias quentes não tivessem o aquecido. Eram mundos tão distintos e que ocupavam uma mesma rua. Me aproximei e perguntei se ele precisara de algo, pergunta a qual não obtive respostas.

Continuei andando até o trabalho e, naquele dia, nenhuma história pareceu interessante o bastante para escrevê-la, porque eu estava ocupada com a história daquele senhor. No final do dia, voltei pelo mesmo caminho, mas não o encontrei. Eu nunca o encontrei novamente. Estação após estação, o senhor nunca mais cruzara o meu caminho.

Os encontros e desencontros da vida são bonitos e causam espanto. Mesmo num curto espaço de tempo, aquele senhor me confrontou e eu compreendi que uma das sensações mais desafiadoras que a vida nos impõe, é se sentir merecedor.

Você pode se sentir merecedor de toda a sua trajetória? Então, por que eu carrego a sensação de que algumas pessoas merecem mais do que nós?

Uma criança não pode ser menos merecedora de um prato de comida do que um governante que ocupa um cargo poderoso. Não é merecimento quando o tema é fome ou miséria. Nem sempre a vida se trata de mérito.

Os pequenos homens que ocupam este mundo imenso resolveram desenhar linhas invisíveis dividindo-o em pedaços, os quais eles nomearam de “países”. Guerras foram traçadas, culturas foram exterminadas, almas que mereciam destinos lindos terminaram sua vivência sem nem ao menos a terem vivido, sem nem ao menos conhecerem o verão.

Todas as coisas boas que não mereço e, mesmo assim, as recebo, devem ser compartilhadas. Resta-me a gratidão por mais uma estação e o desejo de compartilhar os meus verões com as pessoas ao meu redor. Por isso, meu doce amigo, eu gostaria de lhe questionar: O que você tem feito com os presentes que o destino lhe concedeu?

Não seja o destinatário final do seu presente.

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terça-feira, julho 25, 2017

25 dias de 07 meses


"(...)
Are you ready for this action 
Does it give you satisfaction 
Are you hip to what I'm sayin' 
If you are then let's start swayin' 
The answer better be yes, yes
That pleases me."

DO I MOVE YOU
Nina Simone

TROUXE A ALIANÇA?

O amor cativou as nossas vidas durante anos. Vivenciamos experiências de ingênua doçura e enfrentamos o ardor do cotidiano. Nós construímos uma relação forte o bastante para derrubar todas as barreiras que as tempestades do dia-a-dia trouxeram. Enamorados, amados. Nós fizemos bonito o nosso amor.



Quantas pessoas podem encher a boca e dizer que viveram um amor extraordinário? Um amor daqueles amores que têm trilha sonora, filme favorito e troca de segredos. Casais que enchem taças de vinho, colocam uma boa música para tocar e dançam enquanto aguardam a comida que eles cozinharam. Namorados que dividem boas gargalhadas e companheiros que compartilham as tristezas diárias dessa vida tão urgente. Quantas? Quantas pessoas podem encher as suas bocas e garantir uma relação assim?

Companheiros que compreendem as fraquezas do outro e tentam encorajá-lo sem, contudo, passar-lhe a mão sobre a cabeça. Ah! A doce e fria arte de contar a verdade! Eis aqui um desafio aos enamorados: sentar e confidenciar tudo o que se passa dentro de nós. Apontar que o outro está errando sobre o seu projeto profissional, desabafar que se chateou quando o outro esqueceu de telefonar, suportar a raiva do outro e contar aquilo que você sabe que ele não gostará de escutar. Relacionamentos maduros exigem o derradeiro diálogo da franqueza.

Diálogos, aliás, eu tenho insistido que é uma das formas mais consistentes de se manter um relacionamento saudável. Conversar, conversar e conversar. Os casais precisam trocar informações sobre o dia que passaram, os acontecimentos no trabalho e os seus planos para o futuro. Querido leitor, anote: se você quer manter um relacionamento harmonioso com o seu bem-amado, vocês precisarão conversar.

E não só conversar, é necessário declarar-se! Declarem-se! Recitem poemas, mandem flores, ofereçam músicas, façam surpresas, dediquem-se a alegrar a vida de seus companheiros. Exteriorizar o que sentimos é fundamental para que o outro se sinta amado. Nesse ponto, gostaria de lembrar algo: existem muitos relacionamentos por aí que não são bonitos, mornos e sem afeto tornaram-se vítimas do comodismo. Por isso, faça bonito o seu amor. Faça bonito!

Lute por aquele amor que ainda lhe arranca suspiros. Mereça-o como nenhum outro mereceu. E o cultive. Falo isso porque as pessoas, muitas delas, após conquistarem o que tanto almejaram, param por ali. O amor vai se esvairando... perde-se no cotidiano... aconchega-se na rotina... e todo o romantismo torna-se história para contar aos netos.

Por falar em netos, aproximando-se do assunto que tanto atormenta os jovens, gostaria de lhe perguntar sobre o futuro. Há um momento, um desses momentos em que nós passamos dias a refletir, em que os enamorados se questionam. Tem uma fase da relação que nós já atravessamos o namoro e nos conhecemos infinitamente bem, faltando apenas o próximo passo.

"Não podemos voltar atrás e não podemos continuar como estamos. Nós não nos apresentaremos como namorados para sempre". Eles começam a pensar em filhos, adotam um animal de estimação, planejam comprar um terreno e construir uma casinha... A hora de escolher viver o resto da vida com o seu bem-amado ou respirar fundo e seguir sem ele.

Porque, depois de um tempo, a maturidade faz com que as pessoas necessitem de mais do que apenas uma relação. Nós almejamos dividir cada espacinho de nossas vidas com o outro, agora e para sempre, e queremos a promessa do outro de que isso irá acontecer. Mais que isso, nós queremos as alianças.

Casamento, seja ele assinado em cartório ou não, é um ato de extrema seriedade. Conta bancária conjunta, construir família, andar de mãos dadas e ir ao supermercado juntos... Por toda a nossa vida. – Por isso, meu amor, espero que você deite a sua cabeça sobre o seu travesseiro que ainda tem o meu perfume e respire. Você tem certeza que eu sou a mulher que você escolheu para passar o resto dos seus dias?

O amor, meu rapaz, nem sempre é o suficiente.

Pois já fazem tantos anos...
Tantas primaveras...
Tantos sabores e dissabores...

Chegou a hora de perguntar: Você aceita se casar comigo?

quarta-feira, junho 07, 2017

07 dias de 06 meses


"(...)
Pai,
afasta
de 
mim
este
cálice."

CÁLICE
Chico Buarque

COLOCA NA SUA CONTA

A vida é uma longa caminhada com destino certo e, mesmo assim, nós a desperdiçamos com bobagens. É necessário parar e recordar as suas prioridades. O que é importante para você? Quem é importante para você? Estamos ocupando os nossos dias com afazeres que nem sempre realçam o amor que sentimos pelo outro. Estamos correndo um longo caminho pelo prêmio errado. Acredite: na chegada, não há prêmios de primeiro, segundo e terceiro lugar, você não está competindo com outras pessoas. O que resta é uma sutil sensação de saber se você fez todas as coisas que gostaria e deveria ter feito ou, a nem tão sutil assim, sensação de que poderia ter feito mais. E, nesse momento, não há alguém em que você possa colocar a culpa.



Estamos acostumados a aliviar a nossa culpa. Colocamos a culpa no destino, em Deus, nas outras pessoas, nos acidentes, nos nossos próprios ressentimentos. Há sempre um motivo que justifique as nossas faltas, as nossas atitudes grosseiras e as nossas dores, quando, na verdade, ninguém é mais responsável pelo o que nos acontece do que nós mesmos.

Por muito tempo, cultivei a mágoa por alguém que tanto me decepcionou. Hoje sei que essa dor que cuidei para viver dentro de mim, é minha responsabilidade. Posso não ser responsável pela atitude do outro, mas sou totalmente responsável pelos sentimentos que me habitam.

A solidão é um dos maiores exemplos de como nós costumamos culpar as outras pessoas pelos nossos próprios sentimentos. Não podemos obrigar que alguém fique ao nosso lado, tampouco podemos comprar as pessoas para que sejamos rodeados de amigos. E, quando estamos em nossa própria companhia, não é culpa do outro o sentimento de estar só.

Como o outro vai apreciar a minha companhia se eu não a aprecio? Se quando estou só, me sinto incompleto como se não me bastasse? Nós não estamos sós porque nossas famílias nos abandonaram ou porque nossos bem-amados optaram por outros relacionamentos, nós estamos sós porque é cômodo se esconder atrás da solidão.

O dia-a-dia exige ações e, todas as vezes que nós somos omissos, também somos responsáveis. Por mais que não tenhamos feito algo, é nossa responsabilidade permitir que sentimentos ruins se desenvolvam. Nós somos responsáveis pelas palavras não ditas, pelas intervenções não realizadas, pelos abraços não entregues e pelos abraços que nós não aceitamos receber.

Você compreende de que quando se depara com alguém agredindo outra pessoa e você não faz nada para impedir essa agressão, você também é responsável por ela? Não basta não realizar a ação, todas as suas omissões lhe direcionam para o caminho da culpa.

Como aquele momento em que você gostaria de ter exteriorizado o seu sentimento e não o fez, como aquele dia em que você poderia ter ajudado alguém e ficou inerte, ou como aquela vez em que você deixou alguém narrar expressões preconceituosas... o mal vivenciado pelo mundo é reflexo de todo o bem que deixamos de fazer.

Não importa se você acredita em segundas chances, reencarnações ou se crê que a vida é uma só, é necessário ocupar-se de viver essa vida como se fosse a única e fazer dela a melhor experiência de todas. Para começar, encarregue-se de amenizar a culpa que você empregou no outro, pois provavelmente quem deve carrega-la é você mesmo.