terça-feira, dezembro 27, 2011

À K.

AMAR UMA VEZ E SEMPRE
Nelson Rodrigues


❝Kátia Vevel, Rio - A rigor, a sua tragédia não existe: ou só existe de uma maneira muito relativa. O mais importante, o fundamental, você tem: ama e é amado. E se quer obter um mínimo de felicidade, parta, sempre, do seguinte princípio: o verdadeiro amor não pode ser integralmente feliz. Você sabe qual é o grande erro da maioria absoluta das mulheres? Ei-lo: - achar que o fato de amar implica, obrigatoriamente, a felicidade. Quem ama, pensa que vai ser felicíssimo; e estranha qualquer espécie de sofrimento. Ora, a vida ensina, justamente, que duas criaturas que se amam, sofrem, fatalmente. Não por culpa de um ou de outro; mas em conseqüência do próprio sentimento. É exato que os amores têm seus êxtases deslumbrantes, momentos perfeitos, musicais etc. etc. mas eu disse "momentos" e não 24 horas de cada dia.
Quando uma mulher apaixonada se queixa, eu tenho vontade de fazer-lhe esta pergunta: "não lhe basta amar? Você quer, ainda por cima, ser feliz?". Pois o destino quando concede a graça inefável do amor, subtrai uma série de outras coisas. Antes de mais nada, o sossego. Quem ama, não tem sossego, perdeu-o, para sempre. A intensidade de qualquer amor é, por si mesma, trágica. Você, minha doce amiga, escreve: "tenho ciúme de tudo e de todos". E isso já implica num sofrimento incessante e atroz. Mas, acontece uma coisa com os sofrimentos do amor: eles se tornam um hábito, se fazem necessários e, no fim de certo tempo, se incorporam à nossa vida, participam dela, de maneira integral. Sofrer pela criatura amada - permita que lhe diga - não é um mal, é quase um bem. Você conhece tristezas mais lindas, mais inspiradoras, do que as tristezas do amor? Não, não há minha querida amiga. Uma pessoa sensata diria: "são tristezas", ao que eu replicaria: "Mas de amor!". E tristezas desta natureza valem qualquer alegria.Vejamos, porém, concretamente, o seu caso. Você, há tempos, teve uma lesão pulmonar. Não sei se a chamada "peste branca" espanta alguém. A mim, não. Nem doença de espécie alguma. Se há amor, qualquer espécie de enfermidade, ainda as mais atrozes, torna mais doce e mais fortes os vínculos que unem duas criaturas. E mais vale uma lesão pulmonar do que uma lesão de caráter, uma lesão de alma. As únicas doenças que realmente, me assustam são as morais. Durante o seu tratamento, você ficou em uma tal prostração que, digamos, se desinteressou da vida. Foi um mal, cara amiga. Se lhe faltava saúde, sobrava-lhe, no entanto, uma série de outros dons, para merecer a vida e dignificá-la. Mais tarde, quando você ficou boa, encontrou-se acidentalmente, com aquele que seria o seu bem amado. Um olhar, um brevíssimo flirt e este resultado maravilhoso: um amor recíproco e definitivo. Mas sucede que havia uma outra se interpondo entre vocês dois. Uma outra que não fazia o seu bem-amado feliz; que não o compreendia; que não tentava um esforço pela sua felicidade. Ele tinha companhia e era solitário. Ora, não há pior solidão do que estar mal acompanhado. Mais vale o deserto do Saara. Assim, ele encontrou, em você, toda a ânsia, toda a sede de amar. E você o retribuiu, apaixonadamente. Então, começou o que você chama o seu martírio. Você sofria e isso o espantava. Se você tivesse experiência de vida, saberia que o sofrimento, maior ou menor, é inseparável do amor. Impossível amar sem sofrer. E quando não há motivos concretos, a pessoa os inventa. O amoroso, ou amorosa, é, por excelência, fabricante de fantasmas, fabricante de possibilidades sinistras. Chega-se a sofrer por hipóteses as mais remotas, as mais inverossímeis, as mais absurdas. Imaginemos o marido de uma senhora honestíssima. Ele se põe a pensar: - "e se ela, um dia, me trair?". É isto que eu chamo sofrer por hipótese. Você sofreria, Kátia, se a situação fosse outra, e outras as circunstâncias. Contente-se com momentos de felicidade, não queira ser feliz as 24 horas do dia. Não sonhe com uma felicidade que não é compatível com a nossa condição humana.Você me perguntou se deve contar a criatura amada o seu ciúme. Acho que não. E explicarei por quê. Na minha opinião, a grande sabedoria, em amor, consiste em ter o ciúme e escondê-lo, ou , então, dar ao ciúme uma exteriorização muito pouco agressiva, muito pouco truculenta. Ouça, Kátia: não acredite que o seu bem-amado a traia. Mesmo que ele quisesse, não o conseguiria. Ninguém gosta de duas pessoas ao mesmo tempo. Assim como ele é o único homem para você, você é, para ele, a única mulher na face da Terra.❞

A REGRA É SER DOCE, NÃO GRUDENTO


No começo, o tempo que ele permanecera fora de casa, causava algum desconforto à ela. Mas, hoje, percebo que o tempo em que ele está dentro de casa a deixa sufocada. O problema é esse. A distância que se cria das pessoas que amamos, força-as à criar um mundo onde nós não existimos. – Lá vai ela superar a dor e sobreviver a vida onde ele não vive. E aceitar que a verdade é esta: “Ele não faz parte da minha história.”.
Não sei explicar onde eles soltaram o laço que arrumaram com tanto carinho quando se casaram. Achei por muito que o casamento foi o culpado. Talvez se tivessem vivido este tempo todo em casas separadas o amor houvera durado... Bobagem. Nós bem sabemos que amor a distância também não dura.
É certo que amor é aceitar. Por isso, digo que não se deve impor barreiras para segurar quem amamos. Devemos deixá-los livres para que façam suas escolhas e, então, as escolhas sejam verdadeiras. Porque o ser humano só é honesto quando ele age por ele mesmo. Somos egoístas. Não há como negar isto.
A regra é deixar que as coisas aconteçam. Eu sei que isso dói e nos faz perder a cabeça, mas perder a cabeça não resolverá nada. É hora de construir um sorriso no rosto e andar descalço, menina. Olhar aos lados e ver que a vida pode nos revelar surpresas inimagináveis. Porque o inimaginável, sim, é real e bonito. Aquilo que podemos sonhar é sempre um sonho, sempre uma mentira, sempre uma fantasia torta.
Quando ele habita esta casa, ela quase perde a hora. Mas já não é se atrasar para demorar mais um pouco na cama com o amor da sua vida. Perder a hora é só metáfora. Ela não o quer mais, embora ainda o ame. O amor é assim, fica em nós, mesmo que o desejo se vá com o vento.
O vento é um mistério meio salgado. Às vezes, ele leva. Às vezes, ele traz. E, às vezes, ele não se move. É feito o mar conduzindo suas ondas. Temos que ficar atentos para que as ondas não levem nossos biquínis e temos que ficar atentos para que as ondas não nos levem. O vento é assim, ele também pode nos afogar.
É então que se faz doçuras, arruma-se o jardim, encantamos aquilo que nos encanta, e, deixa-se as portas abertas. Ele pode ir embora, mas se gostar do que viu, ele volta. – Entende? – É tratar bem, mas não é prender. Prisões não seguram ninguém.
Mas ele a tratou mal. O ponto significante da história é esta. Ele deixou as flores do jardim sem água e o beija-flor não quis voltar.
Casaram-se e ele viveu para o trabalho. Dia e noite no escritório e a esposa sozinha em casa. O tempo correu e ele conheceu pessoas que o levaram para os bares das esquinas após o expediente, enquanto ela o esperava até o jantar esfriar. Ele a amara, mas – ninguém entende bem o motivo – a abandonou. O abandono em que você permanece ao lado todos os dias é ainda pior do que aquele em que você vai embora e leva todas as lembranças. É como se a pessoa que você ama não importasse mais, é como se o amor tivesse acabado, é como se o filme tivesse chego ao fim e ninguém desligou o DVD.
É um fim que não acontece e insistimos para que volte ao começo. São músicas pela metade. Vidas que não acabam, histórias de livros em páginas brancas, canetas sem tinta. Amores mal-resolvidos.
O ser humano que cria o objetivo de que a vida é um caminho solitário, perde o encanto. Não se pode ser feliz sozinho, já diz a canção. Porém, quando amamos e a pessoa amada já não nos quer, nós fechamos os olhos e colocamos na cabeça – a qualquer custo que – o ser humano nasceu só e assim morrerá. E, então, criamos a idéia de que a liberdade é o quarto solitário e não as portas destrancadas. Confundimos tudo. Perdemos a razão e ainda nos achamos donos dela. Somos tristes, infelizes, tolos e insones. Não temos mais sonhos e a vida pode fazer as escolhas que ela quiser. Impotentes, nos achamos corajosos para suportar o que vier, mas a verdade é que temos medo de buscar a nossa felicidade.
A história dos dois é algo que ninguém poderá consertar. Ele deixou que ela também o ignorasse. O amor nunca poderá ser maior que a ignorância, o desprezo, o não querer. Porque o amor não pode chegar à este ponto; se chegar, é caminho sem volta. Eles só poderão construir outro amor com outras pessoas, ou, fazer bonito este amor em outra vida. Mas como só se vive uma vez...
É. Isto é um ponto final.

sábado, dezembro 24, 2011

N.

HAPPY CHRISTMAS
John Lennon


So this is Christmas...
And what have you done?
Another year over.
And new one just begun.

And so this is Christmas...
I hope you have fun.
The near and the dear one.
The older and the young.

A very Merry Christmas,
And a happy new year.
Let's hope it's a good one,
Without any fear.

And so this is Christmas.
(war is over...)
For weak and for strong .
(...if you want it)
The rich and the poor one.
The world is so wrong...

And so Happy Christmas,
For black and for white.
For the yellow and red one.
Let's stop all the fight...

A very Merry Christmas,
And a happy new year.
Lets hope it's a good one,
Without any fear...

And so this is Christmas...
And what have we done?

War is over,
If you want it.

POR 25 DE DEZEMBRO


Então é Natal... Peru, pisca-pisca, meia na janela, pinheiro enfeitado, presépio, presentes em volta da árvore... Natal. Aquele clima de festa em que todos abrem um sorriso e desejam o melhor natal do mundo ao próximo. Clima em que as pessoas se tornam solidárias e vão às casas das pessoas mais pobres distribuir presentes. Clima em que a família se reúne para ir à missa e, depois, celebram a ceia. Clima de união, perdão, prosperidade. Natal.
Não. Não, meus queridos. O Natal não serve para isso. Isso se deve fazer o ano inteiro: perdoar, sorrir, lembrar do irmão que mora longe, ter palavra amiga, lembrar das pessoas carentes, dos sonhos perdidos, da renovação da alma, da felicidade simples que se encontra no abraço de alguém especial. Isso é coisa que se faz o ano todo, não somente nos dias 24 e 25 de Dezembro.
No Natal nós celebramos o nascimento do homem que deu a vida por nossos pecados. É quando lembramos que não há amor maior do que o amor do Deus que nos deu a vida. É tempo de, bem simples, tempo de semear uma sementinha de esperança em nossos corações.
Natal é esperança. Esperança quer dizer: esperar com confiança, esperar com paciência, esperar com fé. É a época de agradecer tudo o que Ele e as outras pessoas têm feito por nós. Época de rever as nossas ações e pedir, no nascimento de Jesus Cristo, para que nós possamos renascer.
Pois o que foi o nascimento de Jesus Cristo? Foi a esperança de um povo. O homem que chegou com palavras e milagres e transformou vidas. – Natal é a época de acreditar. Fortificar sua fé e reconhecer que somente Deus poderá nos salvar.

Então, hoje, meus queridos. Plante uma sementinha de fé e esperança em seu coração e semeia-a durante todos os dias do próximo ano.
Feliz Natal e Boas Festas!

sexta-feira, dezembro 23, 2011

F.


Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida...
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida...❞

— Cora Coralina

QUE EU MORRA DE AMOR-ES


O céu bonito da pequena cidade estava escondido pelas nuvens negras que as tempestades dessa época trazem. Os gritos das crianças que eram filhas das amigas de minha mãe me deixavam impaciente. Abri a porta do quarto, desci as escadas, evitei a sala de visitas e fui direto a varanda. Sentei no balanço e fiquei trazendo as lembranças do passado. Pensei em músicas, momentos, canções e histórias. E foi sentada na varanda que escutei o barulho do carro do amado e, ali, eu soubera – era só disso que eu precisara. Deixar tudo e ir embora com ele. Esquecer planos, sonhos, família e casa, abandonar essa vida, sair brincando de mágica e cantar amores.
Só era possível viver de uma maneira: com ele. Eu necessitara de sua existência mais do que a minha própria. Eu invadia sua vida e implorava para que ele nunca saísse da minha. Eu o amara, com a força única que só o amor pode nos dar, o amor bonito.
Nós éramos os vidros embaçados, as canções dos Beatles, os suspiros e risadas. Éramos conversas e abraços, olhares e respiração, beijos e sono. Éramos como a água que quebra o aquário quando desrespeitávamos as regras. Éramos como o fogo que queima o papel de carta quando um encostava-se ao corpo do outro. Éramos automáticos, explosão, sem limites, sem conseguir evitar. Éramos o auge da paixão, do toque, dos lençóis bagunçados, do chuveiro ligado, da falta de apetite, da intensidade, telefones desligados, e paz de estarmos juntos. Éramos a vida fazendo de conta que tudo era possível quando ele estava ao meu lado. Não haveria medo, nem desordem. Esqueça os erros de ortografia, o cansaço, os brindes de final de ano... nós éramos a nossa própria salvação.
Separados, éramos como bonecos de neve, sem vida e decorados por fora. Mentíamos felicidade, procurávamos manter-nos de pé em nosso corpo derretendo, escondíamos a falta de vontade com cachecóis no pescoço e tínhamos olhos vazios como botões. Separados, era ele e era eu, sem nós. Era ele brigando com a vida e suas seriedades, era eu sonhando que tudo daria certo e andando sem rumo. Era ele escutando música para se libertar da dor que a solidão traz, era eu desenhando palavras para disfarçar a saudade e o que não se realiza.
Juntos, éramos um dando força ao outro. Um compartilhando pensamentos com outro. Falávamos sobre filmes, músicas, pessoas, tempos de faculdade, doenças e paz mundial. Discutíamos sobre a fé, os prazeres, as diferenças. E concordávamos que, algumas coisas, ninguém poderia entender, decifrar, sentir, – algumas coisas apenas acontecem.
E aconteceu conosco o que acontece com quem precisa de muito balde d’água fria na cabeça. Nós amamos. E há realidade destrutiva maior que o amor? O amor é que nos mostra quais pontes devemos atravessar, quais caminhos seguir, quais destinos fáceis devemos recusar. O amor é a dificuldade divina, o processo em que se deixa um pouco do “eu” para viver um pouco do “você”. É o desafio de obstáculos longos, de feridas abertas, de cicatrizes que se tornam magia risonha. O amor é a brincadeira de roda, pique-esconde, passa anel, morto-vivo e palhaço de circo. É algodão-doce, arroz-doce, pé-de-moleque, maria-mole, sorvete de chocolate com cobertura de morango. Amor é tempos fáceis com intervalos difíceis, é dúvida, é correria, é passar tudo e valer à pena. Amor é o que nos impulsiona à largar o orgulho e segurar nos braços a pessoa que faz nossos corações dizerem: “Seja o meu motivo.”. Amor é toda vez que ele me olha e eu tenho certeza de que a minha vida foi feita para ser filmada por aquele olhar. É lindo. É! Amor é lindo.
O calendário que aponta as datas, o celular que desperta na hora, a falta de preocupação com o mundo. O cabelo sem corte, o lixeiro vazio, cinzas de um cigarro. Amor é a rotina que se completa e que não enjoa. Que se repete e parece novo. É eu e ele. Amor é eu e ele. Somos nós.
É quando desligamos a televisão, ficamos no escuro e só importa a voz. Quando o silêncio ainda é bonito porque ele está ali. Ali, comigo, no meu corpo, na minha história, no meu mundo. Fazendo parte de mim, do que eu visto, do que eu espero que seja o meu futuro.
Somos nós voltando para casa com vontade de pegar a estrada para outro lugar. Gritando os vidros abertos de que o mundo está errado. Sim. Eu fui feita para ele, no molde perfeito, e isso nunca acabará.
Pois são naqueles olhos que minha vida acontece e, com ele, eu posso morrer em paz. Posso sonhar feito açúcar e descer ao final do oceano com apenas um pedido: Que eu viva de amor.
E que vivendo de amor eu possa sorrir dos que pensam que a vida está no concreto, liga e desliga, compra e vende. A vida está no que no que não acontece, no que fica aqui dentro, no que a imaginação guarda. A vida está em nós. Nós que vivemos de amor e que, de amor, vivemos morrendo.

quinta-feira, dezembro 22, 2011

A.


❝Matutei durante muito tempo, tentando descobrir alguma forma de enxergar a alma das pessoas. Foi então, que resolvi pedir a ajuda de um velho amigo, que com anos de experiência e muita sabedoria soube responder-me de forma grandiosa: “Para que tanto pensar? A beleza da alma das pessoas, reflete o brilho dos olhos de cada uma delas.” Bingo. Andava pela rua, olhava nos olhos de cada um, imaginando que, cada um possui uma história diferente. Cada pessoa é única. Que não existe ninguém no mundo igual a ela. Nem com o mesmo nariz. Nem com o mesmo número de marquinhas pelo corpo. Nem sequer, com a alma parecida. Descobri que é pecado dizer que alguém é especial quando pode ser chamado de único. Sem igual. Singular.❞

— R. Vicente

quarta-feira, dezembro 21, 2011

AS PEDRAS E OS MUROS

Concordei. E o que mais eu poderia fazer? Levantei a mão e apontei àquela que estava exposta no meio da praça. “Apedrejem-na! Apedrejem-na!”. Aos poucos, quase sem voz, eu arriscava repeti-los. Mas a minha única vontade era pedir: “Parem! Parem! Do crime que ela cometeu, eu peco todos os dias.”


E agora? O que fazer de minha vida? Eu pequei. Fiz tudo errado. Eu merecera estar ao lado daquela moça e ser apedrejada por meus erros. O perdão parece-me apenas uma palavra sem significado, as pessoas não têm obrigação de dá-lo à mim. Embora, no momento, ninguém enxergue meus vendavais.
Onde irão parar as pegadas dos passos falsos que estamos dando? Olho para trás e não vejo nada... Mas em algum momento alguém perceberá a falta de rastro e irão me perseguir. Paranóia. Paranóia. Eu sei. Ninguém saberá o que matei e o que feri. É só a minha consciência... E terá pagamento maior do que viver com a cobrança de corrigir? Terá julgamento maior do que o da minha própria consciência? Não. Não há. Estou presa no remorso de mim mesma, e o que fazer?, não sei.
Quando o caos chegou, ninguém pôde me salvar de mim. Os muros que criei para esconder os meus pecados não podem segurar o que sou e o que me tornei. E o que me tornei? Estou presa dentro das paredes que construí. Não haverá algum livro que diz sobre as pontes que não fiz? Sim. Há. Sou sozinha. Somos apenas eu e a solidão.
A roupa suja, o café frio, o vaso quebrado e a casa vazia, são chamativos para andar pela cidade. Andar pela cidade faz-me encontrar as pessoas que julgariam minhas colunas eretas. “Sou cabisbaixa”, penso — “não precisam erguer os ombros para mim”. Sinto-me só no meio dessas pessoas e sufocada em minha solidão. Por onde ando? O que perdi? Onde está a minha alma? Eu já não me lembro se tive alguma...
De repente, a multidão. E lá está a mesma pecadora que eu. Os pecados diferentes, sim. Mas o mesmo destino. Os dedos mirando, as pedras, a fogueira, o fim... As correntes em seus braços davam-lhe a certeza de quem não escaparia. E os olhos aflitos pareciam pedir que alguém intercedesse por ela. Eu saberia sentir o que ela estava pensando: “ — Vocês também erram, por favor, dêem-me uma chance.”. Mas eles não dariam.
Apenas se, e só se, alguém atrevesse a intervir por ela. Era uma chance. Porém quem faria? Eu. Eu deveria. Eu gritaria não porque ela gritaria por mim em papéis invertidos, mas porque eu gritaria pelos meus pecados. Os muros que construi para me livrar das pedras não salvariam o meu teto de vidro. Eu teria de mudar aquela história.
Somente eu poderia me salvar. E ela era eu. Era eu, eu futuro. Eu quando minha boca perdesse a costura que fiz e os lábios gritassem que sou pecadora. Na história, foi Jesus, mas Cristo eles escutariam... Eu não. Não sou Ele, não sou Filha D’Ele. Pois quem sou eu para achar que a multidão não deveria julgá-la? Eu era o futuro.
E quem poderia deixar o futuro morrer? As mãos eram minhas e nelas estavam o que estava por vir. Precisara arregaçar as mangas e fazer algo por aquela errante e pela minha consciência. Mas o que fazer? Eles não irão me escutar... Os gritos deixam ensurdecidos os ouvidos dessas pessoas que a julgam. Preciso de algo que possam ver. — O que veriam?

Palavras, que calem os surdos e escutem os cegos. Eu escreveria palavras.

Voltei correndo sem me preocupar se os passos poderiam me trair. Quem sabe cair, quem sabe pular, quem sabe perder um olho. Dane-se. Eu coloquei toda a velocidade de minhas pernas em prática e atravessei meu muro, minha proteção, quebrei meus cadeados e lá estava o que eu queria: Um espelho e um batom vermelho.
Escrevi sobre o espelho. O batom lembrava-me sangue. E, assim, vermelho era minha cor preferida. Voltei a correr, agora, com rumo à grande praça. Os passos pareciam mais confiantes, poderia agora enxergar o menino brincando com carrinho de maneira na esquina e o velho com sua barraquinha de refrescos...
Cheguei. Passei pela multidão. Esbarra n’um, desculpa aqui, esbarra n’outro, desculpa lá. Parei frente a moça, sorri, virei as costas e avistei os que a julgavam. Alguns me analisavam curiosos, outros não se importavam comigo. Olhei todos, um a um, e subi sobre o banco onde sentavam os casais de namorados todas as quartas-feiras. Refleti o espelho sobre a multidão, que se enxergou num espelho onde estava escrito: “eu também errei”.
Vermelho de sangue, “eu também errei” e a face de cada um lá refletido. Vermelho de sangue, a mensagem perfeita, “eu também errei”. E a multidão se via presa, presa em seu próprio caos, em seus próprios murros. Alguns paravam e refletiam, outros só queriam continuar. Porque esse é o nosso mundo: já não importa o certo e errado, importa o que as pessoas querem. O que [algumas] pessoas desejam. E elas queriam morte. Queriam a moça apedrejada e queimada, e, agora, eu no mesmo fim. E assim se fez.
O mundo apedrejou meus erros, queimou meu corpo, e não libertou minha alma. Não há preço que se pague pelo que se faz. Queimaram os pecados e serão queimados por eles. Porque as almas que não querem paz, vão ao inferno com suas guerras. Então, não há muros ou proteção que guarde o mal da sua própria solidão. Ninguém poderá lhe salvar de si mesmo. Não há como fugir, como parar, nem como deixar. Depois daqui, a alma, existirá.


Dica de música: De Você - Pitty (Anacrônico)

terça-feira, dezembro 20, 2011

U.

SUA MENINA
Arnaldo Antunes



❝Você trata muito mal sua menina.
Um dia ela vai puxar o carro,
De sua barba mal feita, seu catarro.
Um dia ela vai encher o saco.

Você trata muito mal sua princesa,
Um dia ela vai virar a mesa.
Seu olhar só vê o seu umbigo,
Um dia ela vai ficar comigo.

Você olha para ela com desprezo,
Como um déspota destrata uma empregada.
Das grades do orgulho onde está preso,
Você maltrata a sua namorada.

Seu terno engomado, seu perfume,
Seu tédio, seu remédio digestivo.
Seu eterno pesadelo de ciúme,
Um dia desses ela vai te dar motivo.

E ficar comigo,
E ficar comigo.
E ficar comigo sim.

Vai ficar comigo,
Vai ficar comigo.
Vai ficar comigo só.

Você trata muito mal sua pequena,
Um dia ela vai sair de cena.
E o remorso vai te torturar sem pena,
Quando a vir ao meu lado no cinema.

Você trata muito mal o seu amor,
Não rega com carinho a sua flor.
Depois de ver o que você já fez,
Com certeza ela vai sumir de vez.

Vai sumir comigo,
Vai fugir comigo,
Vai sumir comigo sim.

E ficar comigo,
E ficar comigo,
E ficar comigo só.

Só ficar comigo,
Vai ficar comigo,
Vai ficar comigo sim.

Vai ficar comigo,
Ficar só comigo,
E você vai ficar só.❞

PERSEVERANÇA


Não se pode crer num destino certo quando a vida é cheia de voltas e pequenos detalhes. "Vim à essa vida para chorar" e mesmo assim sorriu? – Como é que é essa história? – Você chora agora, sorri depois, chora de novo, sorri outra vez. E não há nada escrito em linhas certas, tortas ou que alguma cartomante vá prever. Horóscopo, numerologia e espelhos falantes não irão contar o que acontecerá daqui pra frente. Cai na real! Acorda pra vida! Essa coisa do "seja o que for" é para quem tem medo de viver. A vida é determinada de acordo com as suas escolhas. Se você disser "sim, eu vou" você tem que se dar pra isso. Se você disser "não, não posso" você tem que estar ciente do que está perdendo.
Cuidado com as palavras, rapaz. Outrora elas te traem e você ficará numa encruzilhada. Cuidado também com as mentiras. Não só as mentiras que tu contas ou que te contam. Cuida as mentiras que tu faz à si mesmo. Não fique se enganando, tentando ser e sentir outra coisa, fazendo de conta que está bem. Isso causa dor.
Porque se as oportunidades de ontem tivessem sido me dadas hoje, eu as tinha agarrado com braços firmes. Mas foram dadas ontem e ontem não volta. Por isso, e por muito mais – acredite – por muito mais, tens que pensar em tudo que deixas pra lá. Porque as mesmas oportunidades raramente acontecem outra vez. E o mundo é daqueles que se entregam com coragem, que estão fortes na esperança de que irá dar certo, que conservam alegria dentro do coração e fortificam a boa vontade na vida dos seus próximos.
Felicidade completa existe. Mas para isso é preciso estar preparado pros momentos ruins, por isso, coração limpo e fé em Deus. Não adianta procurar ajuda com Deus ou com o melhor amigo quando tudo explode e fica mal. Não. Tens que ir atrás do amor e da confiança nos momentos bons. Porque quando as tempestades chegarem tu estará preparado – e não digo que, preparado sabendo o que irá ser – mas, preparado com esperança e conforto, que são as mãos amigas durante os importunos.
Não venha com esses lamentos porque desconfiam das tuas mudanças e tentativas, foi tu mesmo que destes os motivos para que te reprimam. Pare de se fazer de vítima dos teus próprios erros. A vida tomou o caminho que você escolheu. Ninguém é responsável por isso. Ninguém, além de você.
Pára. Tira uns dias. Tu estás fazendo tudo errado. E não irás precisar de sorte para consertar os erros... Não. A vida não é feita de sorte. Tu irás precisar de perseverança. Nada de desistir no primeiro “não”, nem no segundo, nem no terceiro. Pois, lembre-se, quem fechou as portas foi você.
Conquistar a confiança de alguém com quem se errou muito é o mesmo que tentar colar os pedaços de um espelho quebrado. Podemos nos machucar com os pedaços pontudos, mas não poderemos desistir. Quando todos os pedaços estiverem colados, haverá rachaduras, e, estas poderão se partir com qualquer chacoalhada. Então, se você não for, novamente, um homem que desejou os sete anos de azar... Quem sabe, depois de um tempo, se pode comprar um espelho novo que toma o lugar do que está em pedaços. Pois assim é a vida, rapaz: efêmera e rápida para que aconteçam os desastres, mas demorada e sofrida para que se arrume a bagunça.

Entenda: A vida é só um teste. 
Aprende a andar atento.


— Novembro de 2009

F.


❝Sinto necessidade de escrever, o quê, não saberia dizer.❞

— Mistério a Bordo, Para Viver um Grande Amor, Vinicius de Moraes

LAST NIGHT


Acordei. O verbo “acordar” possui alguma relação com “mudar de vida”? Deve haver algo, porque vejo pessoas que, um belo dia percebem que está tudo errado e resolvem mudar tudo, depois indagam: “Acordei.”. Mas... não. Eu escutei o barulho do despertador, abri os olhos e levantei da cama. A noite passada pudera ser a melhor noite de minha vida e eu ainda não escutara pássaros durante o caminho que percorro até o trabalho. É que não importa quanto seja bom, aquilo passa e a vida continua. – E, eu, eu não sou como aquelas pessoas que ficam prolongando felicidade e tristeza. Eu pulo alto ou choro muito, mas somente no momento. Não sei ficar revivendo os fatos.
Eu sei apenas criar esperanças. Criar esperança é involuntário. Quando queremos algo é da natureza do ser humano sonhar que vai terminar tudo do jeitinho que nos fará feliz. Então, a gente planeja tudo. Faz barba, cabelo, compra roupa nova, corta relações, troca de carro, arruma a casa, e, no fim, parece que não valeu à pena fazer o que se fez. Embora muitas vezes, saia de um jeito totalmente diferente do esperado e, alegre-se, não poderia ter sido melhor.
Porque a vida não é para ser da maneira que nós queremos que ela seja. Principalmente quando nós estamos falando de duas vidas. Quando duas pessoas se encontram e se apaixonam uma pela outra. Céus! Como à partir daí tudo dá errado! (...)
É impossível saber as reações de outra pessoa. Saber o que ela sente? Não, esquece, você nunca saberá. Também não saberá quando ela mente, o que ela pensa, nem o motivo certo das lágrimas. Só sabe quem sente, quem faz, quem age. Nós só sabemos aquilo que corre por nossas veias e, mesmo assim, ainda nos perdemos no que sentimos. Então – esqueça! Nada de ficar tentando saber o que aconteceu, nada de compreender porque ele errou, nada de entender os motivos, abandonos, choros, raivas, traições. Acabou, aconteceu, já era, continua!
O importante é não ficar parado. A lógica da vida é seguir em frente. Se você senta na cadeira para puxar lembranças e sentir saudade do ex-amor... Bem, você pára, mas o relógio não. É tempo perdido, entendeu? Per-di-do.
Não é fácil impor pontos finais naquilo que se sente, mas quem disse em terminar com isso? Eu falo em não deixar que isso te afete. Porque doer, vai doer. Mas você não poderá – deixar – isso corroendo. Tem que tentar, tem que continuar, tem que ir vivendo na ausência do ser amado e fazer uma nova vida.
É bíblico isso, sabia? Não deixes que a tristeza tome teu coração, a alegria é o combustível da alma. O homem triste, irado, invejoso, magoado e que carrega remorso, tem os dias contados. Tem vida menor do que aquele que não se deixa abater, que está permitindo o perdão, a gratidão, a gentileza e cultiva a alegria em seu interior. – Não reviver os fatos é o conselho.
Nada é definitivo, nada é permanente, nada é para sempre. Nós somos frágeis como o tempo. Nosso corpo acaba, por que os momentos não acabariam? – Não se prenda na dor, rapaz.
Vai preenchendo a vida de boa vontade. Trabalha, estuda, escuta música e faz amor. Vive! Cuida para não magoar o teu próximo, aprende à não martirizar os acontecimentos, não deixa a tristeza ser maior que os seus motivos para sorrir.
É isso que eu penso enquanto espero o metrô chegar até a estação. “Eu deveria falar isso para as pessoas, mas não sou boa nisso.”. É então que eu pego a caneta e vou anotando, assim como músico faz música durante a palestra, e escreve na nota de um real o dó, ré, mi para não esquecer a melodia. Vou guardando minhas resenhas num caderno, não crio nenhum plano para essas palavras, às vezes só espero que alguém leia e que aquilo ajude. Às vezes, só espero que o que escrevo possa me ajudar.
Porque sou eu quem mais precisa de ajuda. E sou eu que busco nas palavras o meu apoio. É então que me fecho e não quero conversar com ninguém, só preciso de uma caneta e um papel, e contar o que eu sei.
O que eu sei é que o telefone está tocando, e, sabe quem está do outro lado da linha? Quem fez da minha noite passada a melhor de todas. Meu coração acelera, minha voz cala, meu corpo sente arrepios e – sim – só existe uma coisa que pode me fazer parar de escrever: a voz de quem eu amo.

segunda-feira, dezembro 19, 2011

DEIXÁ-LO


Meu coração pede socorro com a voz fraca de quem cansou. Eu não entendo mais as voltas que se deram. Eu não sei onde tudo termina. E não sei o motivo do teu silêncio. Se me conheces, se já me amou, se valeu por algum minuto... – Por que não pára e me conta a verdade? Por favor, fala a verdade pra quem te amou.

Preciso dizer que eu não quero, mas é melhor que tu te vás. Porque tu já me machucaste demais. Meu coração não é mais batidas aceleradas. Ele é a esperança de alguma batida que venha em ritmo de gratidão. Ele é o caos que já terminou, a comida que já esfriou, ele é a solidão de quatro paredes. Tu estás fazendo tudo errado, outra vez. E eu falo como se não soubesse que assim seria. Eu soubera. Tu não mudarás. Tu irás ser sempre o mesmo. Eu é que preciso deixá-lo. Deixar de querê-lo, deixar de senti-lo, deixar de amá-lo. Eu quis tanto que tudo desse certo. Eu quis e fingi tanto para as outras pessoas que eu não me importaria. Eu quis ser forte. Eu quis não ter que escrever estas palavras. Quis virar livro de auto ajuda, fazer histórias de amor, me enganar por aí, escrever e fugir das geladeiras da vida. Eu quis, queria, quero amor.

Embora já não seja qualquer tipo de amor. Eu sinto falta de todos os tipos de amores. Eu ando sozinha... Sozinha de casa, sozinha de amigos, sozinha de namorado, sozinha de mim. Sozinha de mim é o pior de todos. Eu ando – sozinha – de mim. Onde estou não sei. Onde vou não sei. O que quero é muito. O que não quero acontece. Vida, vida, vida – pra onde é que tu me levas? Por que é que não me carregas? Por que é que ainda estou aqui?

Eu preciso ir embora daqui e ninguém mais enxerga o quanto tudo não deu certo. É meio lógico o meu desconforto. E ninguém se preocupa com a minha falta de voz. Querem me empurrar pra um lugar que vai terminar com a minha fé. E o que eu faço? Eu tenho medo de qualquer tentativa de enfrente, em frente, tente ou prossiga. Eu abomino as mortes que virão. E, se perguntarem, por que eu pareço triste, a resposta é fácil: Ela sabe que precisa ir embora.

sábado, dezembro 10, 2011

E.


❝ (...) na história de amor, que é a história do mundo. Ela o olhara com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles.❞

— Separação, em Para Viver um Grande Amor, Vinicius de Moraes

MEUS EXAGEROS, MOÇO...


Chegou correndo e deu a cara na porta fechada, trancada, sete chaves, duas trancas e um cadeado. – Pra quê tudo isso?, se perguntou. Tomou dois passos para trás e fitou as janelas, foi até elas, as tocou, tentou encontrar algo que pudesse abri-las. Nada. Nenhuma brecha, nenhum caminho, nenhuma maneira. – Pra quê tudo isso?, insistiu.

– Ah, para não lhe deixar voltar, moço. Tive que trancar todas as portas e janelas, manter seguro o meu coraçãozinho, fazer minha moradia e, quando possível, prometo ir embora. – Talvez ainda não seja hoje, mas irá me esquecer. Talvez não se dê conta disso, mas você não me ama mais. – Eu percebo na sua ausência o quanto seu amor já não é meu. E ainda na sua ausência, sei o quanto desejo que o meu amor não lhe pertença mais. Então, repito, eu tive que trancar todas as portas e janelas. Manter apertadinho e doce o meu coração, me proteger dos teus erros e ficar quietinha esperando alguém que encontre a chave. Porque eu joguei fora a chave, moço... Está jogada em algum terreno, perto de algumas flores, em baixo de alguma árvore de frutas vermelhas. Onde alguém vai passar pela árvore, ver o fruto caindo, ir correndo até o fruto e achar a chave. Ah, moço, a chave... Eu quis tanto e tanto que você tivesse-a guardado. Mas você não quis e eu não tenho mais forças para cuidar do nosso quase-amor. Eu não tenho mais fé em você, nem sei mais quem você é, por onde andas, com quem andas, como vai ser, o que você quer. Não sei. Você sumiu e eu não tenho mais vontade de lhe procurar. Você foi dando pequenos passos e andou quilômetros longe. Hoje eu tô aqui, sempre sentada, sempre de canetas em mãos, mas sempre cansada. Cansada desses mimimis de nós dois, cansada dessa história que a gente fez, cansada desse “nunca vai poder ser”. Eu não quero mais, moço. Não quero mais brincar com isso. Nem continuar tentando, nem fazer de conta que um dia vai, nem ser sua. Nada. Eu não quero mais nada de você, moço. E embora o peito ainda dê algumas pitadinhas de dores cruéis, eu coloco mais sal na comida, encho um copo d’água e sobrevivo. Sem drama. Moço, quando ficou todo aquele tempo longe de mim, a única coisa que me ensinou foi: – eu posso viver sem ele. Eu posso sorrir mais sem ele, eu posso viver mais sem ele, eu posso dar de costas para os lamentos e jogar na sorte um outro alguém. Eu posso me doar por aí, eu posso amar outros lugares, eu posso escrever sem vontade e sem motivo. Eu posso, dane-se o resto, eu posso. – Se eu quero? – Ah, moço. Querer estar longe, eu ainda não quero não... Mas eu devo querer. Então, repito, tive que trancar todas as portas e janelas, jogar a chave fora, tapar os ouvidos, e esperar que a fruta caia, alguém encontre o segredo e venha correndo. Porque eu posso, moço. Eu aprendi o silêncio da casa que protege e a segurança do deixar pra lá.

– Pra quê tudo isso?

Ah, porque “os poucos” sempre foram teus.

quarta-feira, dezembro 07, 2011

MAS SE VOCÊ NÃO ESTÁ LÁ...


Vi sua partida assim como vejo a água que cai da torneira direto para o ralo. Sem volta. A sensação era de uma nevasca intensa dentro de mim. O corpo perdia o calor, os olhos perdiam a visão, as lágrimas ocupavam seu espaço no rosto, o nariz respirava por obrigação, a cabeça titubeava e a mente parecia vagar. Ele nunca entenderia que cada passo que dava em frente era a minha vida que ele levara. Sem ele, eu estaria morta. Morta de sonhos, morta de esperança, morta de amor, morta de vontade de continuar. Morte de quem morre e pára de existir. Morte de quem não escuta mais os latidos dos cães, nem o barulho que faz o vento quando as árvores tocam o telhado. Morta de quem ainda respira, mas – Deus nos perdoe – preferira não respirar.
O mundo sem ele não tivera graça. Os sonhos que se fazem em meio a solidão são sonhos sem vida. A rotina acalma tudo, inclusive a vaidade. O sol que nasce parece não ter beleza, o sol que vai embora traz a lembrança de quem nos deixou. Cada estrela que brilha no céu conta alguma história; a minha estrela – neste momento – parou de brilhar.
As pessoas queriam me dar conselhos. Eu sentia na voz de algumas delas um leve toque de quem implora por algo. Imploravam para que eu o esquecesse, o deixasse, seguisse a vida que era minha. E eu nunca entendera como elas teimavam em repetir que aquela era a – minha – vida, mas insistiam em se intrometer nela. Minha vida, ah, que bobagem!
A vida não nos pertence. Ela acontece, você querendo que ela aconteça ou não. A vida toma caminhos, coloca pessoas, tira pessoas, fecha portas, abre portas, e nada é da maneira que você sonha. Sempre falta algo, sempre sai algo diferente do planejado, pode até ser melhor às vezes, mas nunca é como você espera.
Eu ouvira os dizeres das pessoas com a educação de quem não quer brigas, mas jogara fora as palavras como quem não quisera escutar. Qualquer palavra era em vão. Eu teria um único desejo naqueles momentos: entrar em baixo das cobertas e dormir para sempre.
Porque acreditei, fielmente, que para sempre ele estaria ali. E quando fosse embora iria ir dizendo: a gente se encontra daqui a pouco. No entanto, ele tomou o caminho, bateu a porta, pegou o carro e não voltou mais. Amar é um sentimento definitivo. Não se pode sair amando todo mundo. Quando se promete amor, com apenas três palavras, você promete uma vida em entrelinhas. Você dissipa a parte ruim da vida daquela pessoa e ela passa a sorrir apenas com a sua chegada.
Não importa o que aconteceu há um quarto de hora, o que importa é o que poderá acontecer nos próximos segundos. A decisão era deixá-lo triste após me aborrecer com a sua falta. E, deixei-o. Então, como não se pode prever e a vida anda com os passos dela. A chuva estava forte, o carro deslizou, saiu da pista, e... Não haveria o pedido de desculpas que eu esperara de sua boca, nem a minha última declaração de amor. De repente, o tempo se torna pouco. Menos de vinte e quatro horas para se despedir de um corpo que não tinha a vida pela qual me apaixonei. O mundo parecia ser preto e branco e nada me convencia de que aquilo não era só um pesadelo.
Eu fiquei tentando acordar daquele sonho ruim durante alguns anos. Eu só percebi que não era um pesadelo quando se completavam dez anos e a foto do tumulo começou a desaparecer.
Morrer é, com certeza, a pior forma de deixar alguém.
Eu assumi um luto que não tem previsão de fim. Sei que muitas pessoas esperam o final desta carta com um “eu aprendi que...”, mas a única coisa que aprendi foi a dor da tua ida, foi a espera da minha vez, foi a esperança vã do teu contato.
O fim é a parte da história que sempre me despertou tormentas. Os finais felizes não me surpreendem, os finais tristes não me animam, e os finais incompletos representam a vida. O fim não definitivo é o que me faz crer que não acabou aqui. Tem mais por vir... Tem que ter. – Porque eu ainda me lembro que você disse que quando eu estivesse mais calma, nós iríamos conversar.
Depois dessa vida, só há vida, se tiver você.

quarta-feira, novembro 30, 2011

G.


❝Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto – uivaram os lobos e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir.❞

— Trecho do conto Os desastres de Sofia, Felicidade Clandestina, Clarice Lispector

O RELÓGIO DIGITAL APITA 01:24 a.m. E O CADERNO DIZ: ESQUECE, ME ESCREVE.

E, no travesseiro, saem as dúvidas que percorrem a cabeça...


A palavra refletir leva o significado de “v.t.d. Fazer retroceder; repercutir; espelhar; v.t.i. transmitir; raciocinar” em meu Dicionário. Dicionário talvez tenha se tornado o meu melhor amigo. Ele leva os significados e os segredos das palavras... Se você procurar amor, por exemplo, ele trará “s.m. Afeto a pessoas ou coisas”. – E há algo mais sábio que isso? – O amor é o afeto que se tem àquela fotografia ou àquelas pessoas daquela fotografia...
O Dicionário contém um mundo dentro dele que, me causa alguma inveja (inveja: s.f. pesar pelo bem alheio, sentimento de cobiça).
Você, por acaso, já pensou se nós seguíssemos a risca um dicionário? As palavras ditas com verdade, – diretas, certeiras e sem enganos. Já pensou quantas lágrimas de moças seriam poupadas se os rapazes soubessem que cavalheiro, ainda consta em nossos dicionários, são pessoas de sentimentos elevados e educação esmerada; e não têm nada a ver com cafajeste (s.m. homem de ínfima condição). – E se as pessoas diferenciassem sexo (s.m. Diferença constituída entre macho e fêmea; órgãos genitais) e amor? – Sexo não é nada poético, amor não é qualquer coisa. Deveria ser lei: Amor você poderá fazer sem sexo, mas sexo sem amor não é permitido. – Já pensou? Conhecer a intimidade de alguém que você não sabe se gosta de sorvete de morango ou chocolate? O que contar para a pessoa que, você mal conhece, após o sexo? Eu imagino: “E aí, gostou do meu desempenho por cima? Eu chamo de Ataque à Torre de Babel...”. Que graça tem se amanhã eu não irei lembrar? Não. Sexo sem amor não é legal. [...]
Mas você já parou para pensar em amor sem sexo? Eu me lembro de meu primeiro namorado, que eu não sabia o que era, mas dizia amá-lo... Já pensou em como as coisas acabam? Acaba escola, acaba relacionamento, acaba amizade, acaba filme, acaba novela, acaba chuva, acaba linha, acaba tinta de caneta, acaba tempo... Como o fim pode ser definitivo ou temporário? Ainda posso reencontrar meu primeiro namorado...
Já parou para pensar por que eu escrevo? Eu já. – Não sei. São mais de uma da manhã e minha mente não dorme. Já parou para pensar por que disseram aquilo? Por que aconteceu daquela maneira? – Quantas portas você já fechou? Figuradamente? Literalmente? – Quanto é a metade de? Inteiro do? Um? Dois? Três? Ele? Quando? Ela? Será? Não... Sim... Talvez.
Já parou para pensar por que o tempo não volta? Por que você perdeu aquilo? Como ganhou isto? De onde veio aquela pessoa? Por que você? Justo com você? Por que não do jeito que você sonhou? Sonhar: v. intr. Associação incoerente de ideias que se formam durante o sono; entregar-se a fantasia e devaneios; v.t.d. imaginar;.
Eu ainda tenho a alma de criança que sonha. Espero preservar isto. Não quero morrer só, estressada, de infarto ou falta de tempo. Eu quero sonhar como voa a pipa, como fala o padre, como manda o conto, como apita o apito, como soa o assovio, como canta a voz, como se escuta a música... Eu quero sonhar.
Eu convido você a refletir: O que você quer? Quando acaba? Vai passar? Haverá outra chance? Qual a diferença entre? Por que eu não posso fazer da minha vida um pequeno dicionário? – Carregar mundos. Entregar os significados do bem e do mal. Ser o melhor amigo de alguém. – O motivo de algo. – Uma busca, uma pesquisa, um encontro.

EU SINTO FALTA DA TUA SOLIDÃO


Era alguma das opções: eu sentira a tua falta ou tentara senti-la, numa tentativa vã de rejeitar as voltas que minha vida queria dar... Quanto tu voltaste, eu não haveria de ter lhe esquecido, mas já não saberia mais o que sentira por ti. Dane-se! Joguei tudo para o alto e lhe abri os braços na esperança de voltar a viver minha velha vida. E assim perdi o rumo outra vez. O que foi não volta, se voltar – volta em dobro. E, na tua ausência, eu descobri que não estava preparada para o dobro da história. Eu almejara futuros e fizera planos, mas não soubera quem eu era. Eu precisei descobrir quem está dentro de mim para saber o que iria me fazer feliz. – Eu não sinto a tua falta, eu sinto a falta da tua solidão. – Quando foste embora, a minha vida tornou-se perfeita. As pessoas olhavam e ficavam felizes porque o homem mais perfeito estava apaixonado por mim. Mas eu não estava feliz por mim mesma. Eu era acostumada com a vida de amar o cara errado, e, de repente, o cara certo chegou e obrigou que eu o amasse. Demorou a cair a ficha e notar que o jogo tomou um fim. Mas, hoje, eu já sei: – eu ainda lhe amo, as coisas não mudaram entre nós. E é justamente o ponto: quem eu sou, gostaria que elas tivessem mudado.
Eu sinto a falta da tua solidão, porque é doloroso viver ao lado do cara certo que possui um sorriso lindo no rosto durante as vinte e quatro horas do dia. Há dias em que estou pela metade e eu preciso de alguém que partilhe algum silêncio comigo. E há dias em que as pessoas estão quebradas ao meio e eu preciso ficar só. Quando tudo é confusão eu preciso da esperança que eu possa criar em meu próprio coração. Não sou o tipo que gosta de esperanças já feitas, acabadas, e palavras de consolo. Por palavras, já tenho as minhas. Eu preciso de alguém que viva os meus tormentos, e, ao mesmo tempo, alguém que segure a minha mão.
Quando fui internada, eu fechara os olhos e pensara na saudade que havia ficado em meu peito. E, quando abrira os olhos, eu enxergava ele dizendo que sempre estaria ao meu lado. Tu nunca estivera ao meu lado nos momentos difíceis e, eu sei que, eu nunca estivera ao seu em seus momentos. Tu não sabes um terço dos acontecimentos da minha vida... E, não importa o quanto o meu coração palpite por ti, tu nunca farás parte da minha história. Tu és uma fantasia, um caso, algo que nunca se realizou. Um amor sem pontos certos e sem testemunhas. És o meu pivô de relacionamento e nunca será mais nada além disso.
Tu – meu amado – sabe viver os meus espaços e tormentos. Enquanto – ele – segura a minha mão. Ele, é o cara certo. Tu, o cara que não foi feito para mim. E eu preciso dos dois, por enquanto.

sexta-feira, novembro 25, 2011

G.


❝É olhando para dentro que respondemos aquela pergunta do comercial de tevê. Então, o que faz você feliz? Responda esta simplória questão e aí sim, ganhe um passaporte para amar. Amar direito.❞

— Gabito Nunes

HÁ CANSAÇO. HÁ AMOR?

Quando o verbo "querer" anula o dever, ter e poder.


Eu precisara correr daquilo que houvera cansado meus pulmões. Mas como deixar ir aquilo que, embora não devesse, fizera parte de mim? Enchia-me de perguntas e inventara maneiras para me esconder do pecado. Enquanto andara com passos longos e ligeiros naquele lugar desconhecido. Olhara as árvores da floresta, mas meus olhos não captavam bem a sua paz. Eu estava cheia de infernos por dentro e não pudera ver a calmaria que vem de fora. Procurara saídas e não enxergara as coisas óbvias: – Eu teria que deixá-lo.
O “ter” e o “dever” são os verbos assassinos. Enquanto o “querer” é o verbo que nos faz ir. – Devo, tenho de, mas não quero. – E o verbo “poder” é aquele que nos mostra a capacidade dos três verbos. – Eu tenho de, eu devo que, eu posso deixá-lo ir, mas eu não quero.
Amá-lo foi a minha benfeitoria. Foi a minha jogada de cartas sem engano. Eu soubera o que eu estaria prestes a fazer e, mesmo assim, doei meu coração a ele. Eu só não soubera que ele, que me fez perder o juízo, conseguiria fazer com que eu perdesse o meu coração também.
Eu odiara a maneira com que deixara de responder minhas cartas, como saía com os amigos e esquecera-se de me ligar, como chegara tarde e como pedira desculpas. Eu odiara a vida que, dia após dia, eu teria feito com ele. Porque fui fraca, porque deixei ir, porque para mim eu deveria esquecer os jogos de conquistas e ser entregue como sempre fui. Achei que a pessoa verdadeira iria gostar de mim da maneira que eu era e ignorei as vezes em que o figurino me mandaria dizer “não, não posso, não vá, não desculpo”.
E talvez, talvez, talvez fosse mesmo assim que as coisas funcionam: As pessoas só amam quando têm medo de perder. E ele nunca tivera medo de que eu fosse embora. Porque eu deixara claro que ficaria. Eu nunca demonstrara minhas dúvidas e fraquezas quando se passava em minha cabeça a vontade de ir. Eu mentira sobre os meus caminhos e certezas, depois culpava-me pelo que não fiz.
Mas cedo ou tarde eu teria de tomar uma decisão. Porque de uma coisa eu sempre soubera, eu não ficaria ali para sempre. Eu arrumara as minhas malas e saíra para caminhar na floresta perto de casa. Refletir o que viria depois de fazer o que teria de ser feito. Pensei em comprar sapatos novos, conhecer novos homens, nada de casos antigos e ex-namorados, eu abandonaria ele e todo o passado. Eu queria recomeçar a vida como se ela nunca tivesse sido vivida. Era apagar um passado que não se apagara. O “se pudesse” prevalecendo antes do queima memórias e o “seja o que Deus quiser” pronunciado com cansaço.
O que era estranho é que eu andara mais carinhosa com ele desde que me convencera do que deveria fazer. – Como poderia? – Dei-lhe certezas do meu amor, mas irei abandoná-lo. – Ah! Nós mulheres demasiadamente confusas que encontramos meninos vestidos em corpos de homens e perdemos a razão... Ah! Nós mulheres loucas, sem nenhuma razão, que queremos viver... Ah! Nós mulheres que sentimos tanto que já não sabemos mais o que sentimos... Ah! Que pena que me dá ao ver os homens que se metem com a gente.
Porém, pena dele, me faltara. Eu tivera tristeza por todos os planos que fiz nunca tiverem sido e nunca serão. Eu tivera tristeza porque sei o quanto ele precisará de mim e eu não estarei por perto. Eu tivera tristeza porque ele me achará uma mentirosa e, não saberá, que a culpa é dele. Eu tivera tristeza porque ele sentirá culpa por seus erros errados, e não pelos erros que me motivaram ir em frente. Eu tivera tristeza porque o abandonaria sem muitas explicações e nunca mais pronunciaria seu nome, nem escreveria cartas, nem perguntaria dele para alguém.
Eu tivera tristeza porque soubera a vida que ele levara e queria que ele fosse feliz. Eu tivera tristeza, porque não me sinto mais triste ao deixá-lo. – Pasmem! – Depois de milhares de palavras escritas para ele e por ele, eu o deixaria sem sentir dor alguma. – Então o que lhe incomoda tanto? – O que me incomoda é o vazio que fica.
Pois eu já havia de ter sido tão cheia! Já fui tão irradiante de amor, já vi o passarinho verde, já abracei a árvore e dei Bom Dia ao motorista do ônibus. Já fui tão satisfeita com a noite anterior, já dei presentes por puro prazer e sem datas comemorativas, já rezei por, fiz por, deixei de por, e sorri verdadeiramente por aquilo. Já amei.
Mas eu não queria mais amar alguém cheio de defeitos. Alguém que nunca passaria daquilo em minha vida. Porque ele era apenas alguém especial e nada mais. Havia distâncias entre nós provocadas por nossos egos. E eu não soubera como, e tivera certeza de que ele não queria acabar com aquilo que nos separara. – Então, ele seria sempre aquele amor quase platônico. Ele não poderia dar o amor que eu merecera. E não passaria daquilo em minha vida. – "Então, se é só isso, se seria somente isso, para quê prolongar essa história? Já deu o que tinha que dar...", repetira sem parar em minha cabeça.
Eu teria de. Eu deveria que. Eu o deixaria para que eu pudesse encontrar o amor que me faria realmente feliz. O novo amor que eu amaria sem medidas e ele me amaria da mesma maneira; que eu confiaria nos passos dele e ele teria fé nos meus; que eu acordaria ao lado dele, passaria o domingo inteiro mimando-lhe, e no final do dia sentiria saudade minutos antes de deixá-lo voltar para casa. Eu iria depender daquele novo amor para minha sobrevivência, embora pudesse sobreviver sem. E o novo amor iria viver ao meu lado, cansado de apenas sobreviver... Iríamos ser aquilo que se chama “dois em um”.
Quando decidida, voltei para casa, e ao abrir a porta, havia uma carta no chão. Remetente? Ele. O conteúdo: “Eu odiei o filme que você me indicou. E odeio quando você indica esses filmes... Mas tudo bem. As qualidades nos atraem, mas são os defeitos que fazem com que possamos amar. Afinal, nós só amamos quem possui os mesmos defeitos que nós. – E eu sempre indico filmes que você odeia... Enfim, te amo.”.
Como ele faz isso?, pensei. – Eu amo um idiota que sempre quer ir embora, e eu sempre quero ir também. Eu amo um idiota que adora solidão, e eu adoro estar sozinha para desenhar minhas palavras. Eu amo um idiota que adora outras mulheres, e eu adoro outros homens. Eu amo um idiota que vive longe de mim e eu tento viver longe o máximo que posso. Eu amo um idiota que possui os mesmos defeitos que eu. – Embora eu tenha alguns mais e ele também, no fundo, são as mesmas falhas.
E como nós poderíamos amar quem não erra como erramos? E como nós poderíamos deixar aquele cheio de erva doce que nos dá alergia no nariz e nos faz suspirar saudades quando não tem? E como eu podería não amar aquele ser tão irritante quanto comercial de televisão? Como deixá-lo ir, se eu tenho certeza que, a vida o colocará no meu caminho outra vez? Como me afastar mais? Por que tantas perguntas? Por que ainda estou parada em pé com a porta aberta? – Ah, droga. Eu quero outro tipo de amor.

sexta-feira, novembro 11, 2011

G.


❝Queria perguntar em voz alta, mas a voz não saía, por mais esforços que fizesse, por mais que seus braços furassem o vazio e seu corpo amarrotasse as cobertas sem encontrar posição. Febre, tenho febre, pensou. E as palavras eram algo sólido, uma certeza onde poderia segurar-se. Tenho febre, repetiu sem voz. Passou novamente a mão pela testa, sentiu-a estranha. Quente, seca, fria, úmida. Havia inúmeras gotinhas sobre ela, gotinhas minúsculas que sua mão ia destruindo aos poucos. Levou a ponta dos dedos até os lábios. Sentiu um gosto salgado. De suor, lágrima, medo. Levantou o corpo na cama— não, medo não. Sacudiu a cabeça, as gotas rolavam pelo rosto sem que ele soubesse se seriam de suor ou de lágrimas. Das faces desciam pelo pescoço, molhavam o peito, o ventre, as coxas, os pés, escorregavam para dentro e fora dele. Estavam nele, junto com ele— eram ele próprio. O medo. Medo não medo não medo não, resistiu. Pois se sentisse medo, pensou vagamente, não poderia contar sequer consigo próprio. E eu só tenho a mim, eu só tenho a mim, repetiu, voltando a cair sobre a cama. Não posso sentir medo, não devo sentir medo, não quero sentir medo.❞

— Limite Branco, Caio Fernando Abreu, 1967

BALÃO DE AR

Tocara o instrumento sem parar, como se a música fosse-lhe uma obrigação. E talvez era. Talvez fosse. Teria que tocar por ela mesma, para ela mesma, com ela mesma. Como alguém que faz um trato consigo e promete que nunca irá desistir. – Ela tocara e a música levara a sua dor. – Eu poderia escutar seus olhos que desapareciam em lágrimas, cantando: “Leva ele de mim, leva ele de mim, leva ele de mim...”.


A minha sorte foi que eu nunca soube tratá-la como uma amiga. Tratei-a como se trata um cachorro: dei carinho, comida, água, mas mantive-me longe a ponto de mostrar-lhe o seu lugar. Eu não queria que ela soubesse quem fui. Saber o que eu me tornaria é um mistério até para mim, mas saber o que eu fui era, senão, um castigo. Ensaiei várias vezes: “Eu fui alguém que lhe faria sofrer, menina.”. Mas deixei que o silêncio falasse por mim. E o silêncio sempre fala da maneira errada, porque pelo não, todos interpretam o “não dizer” como querem. – Droga. – Mania errada de fazer as coisas, em vez de deixar claro o que sinto, deixo vago. E me arrependo.
Mas, a menina, vestira suas meias coloridas, amarrara os cabelos e pegara o ônibus até a escola todos os dias. Seus doze anos eram nítidos na maneira desengonçada de andar. Mas o olhar fixo revelara a grande mulher que se tornaria um dia. – É uma loucura, pensei todas as vezes que fui buscá-la na escola. – Eu, totalmente desregrada e sem nenhum objetivo, cuidar de uma menininha chata. Como poderia? Eu nem gostara do nome que os pais haviam escolhido à ela.
No dia do velório, diante do caixão, fazendo toda a cerimônia que os familiares deveriam fazer aos falecidos. Só consegui fazer uma coisa pela menina: dei-lhe um lenço, sem perceber que, assim como eu, a menina não chorara. Quando o notei, percebi que tínhamos mais em comum do que imaginara. Ela era tão forte quanto eu. Daquelas meninas que batiam o pé e as portas, para obrigar que atendessem seus pedidos, mas que – ao contrariada – seguira em frente sem molhar um centímetro sequer do pequeno rosto de boneca.
Tocara piano, costumara ler bons livros, não tinha muitos amigos e adorara arte. Certa vez me pediu emprestado um livro sobre Arte Moderna. Quando questionei-a o motivo, ela respondeu-me que adorara o quadro de Tarsila do Amaral que eu tinha exposto em minha sala. [...] Ora menininha travessa! Que tinha muito o que crescer, mas que eu sempre vira coragem em seus olhos. Via nela um futuro tão belo e que ninguém mais veria. Via nela a esperança que me faltara e o amor que sempre sonhei partilhar. Ela era doce até bebendo um copo d’água.
A vi crescer e cuidei dela como minha mãe teria cuidado. Perdi meu pai aos seis anos, aos oito minha mãe casou-se com o pai da pequena menina, e aos doze dela, a pequena menina, perdeu os dois. Eu, – afastada de minha mãe, criada pela avó paterna que não aceitara o novo casamento da viúva, e com grande ressentimento por minha mãe sempre deixar transparecer que eu era mais bem cuidada pela avó do que por ela. Como se não ligasse, embora me amasse. – Nunca senti nada de ruim perante a menina. Só preferira que fosse cuidada pela avó também, mas a avó dela era doente, coitada. – Então, não havendo mais quem, a guarda passou-se para a irmã mais velha que, quase abandonou a menina no orfanato. Mas decidiu conter os vícios e não deixar que a menina se tornasse quem eu fui.
Afastar-me dela era dar a chance de que ela copiasse minha história. Então, resolvi vigiá-la, cuidá-la, protegê-la, como se ela fosse um balão de festa que eu não poderia deixar estourar. Eu era aquela criança bobinha, aprendendo aos poucos, que balões de ar são frágeis.
Mas a fragilidade da menina mostrou-me minha fúria na decepção com seu primeiro amor. Aos dezesseis, com um menino mais velho, que tive vontade de arrancar-lhe as orelhas. – Como ele teria feito aquilo com minha menininha chata? – Eu deveria tê-la protegido mais. Mas com essa minha história de pequena solitária, liberalista, e compreensiva; deixei que ferissem minha pobre menininha. – Mas não me mantive calada.
Sim. Eu fui até a casa do menino e dei-lhe a surra que tanto mereceu. Lembrei-me do meu primeiro amor, quando quebrei um guarda-sol em sua cabeça porque ele olhara outra na praia. Mas eu tinha em mãos um pedaço de madeira mais pesado que um guarda-sol e tinha apenas que fazê-lo sofrer, sem matá-lo. Não que, também, tivesse matado meu ex-namorado; quer dizer, matei-o sim. Óh! Matei-o várias vezes só que de amor. Até que ele descobriu que sua vida não era ali e foi-se embora para outro país, deixando-me só com um guarda-sol guardado atrás da porta do quarto, e as fotografias de lembrança... Enfim, dei-lhe a sura, e fui embora boa e bonita.
Ao chegar em casa, percebida do estrago que poderia ter feito à vida da menina, preparei meus pedidos de desculpas e explicações de quase-mãe arrependida que amara um filho. Quando, pega de surpresa, descobri que a amara. E escutei o som do piano vindo do quarto. Ela cantara a música que papai havia composto para mim. Meu pai, pianista, que ensinou-me tocar e colocou-me na escola de ballet. O único homem que realmente fazia-me falta. – Perguntei-lhe onde ela ouvira aquela música e ela dissera: “Faz alguns dias que roubei das suas coisas.”. – Ah! Enchi-me de raiva por alguns segundos, depois lembrei que amara aquela menininha maluca e perdoei-a num instante.
Porque, quando amamos, o perdão é instantâneo. As falhas são muitas, o medo de perder é grande, aceitamos mentiras, e, ainda cuidamos dos nossos balões de ar. [...]
E assim soltei minhas primeiras lágrimas de amor. Escutando o piano, sonhando esperança na música e pedindo para que ela ficasse ali. – Fica, menina, fica; porque na minha vida, tudo se vai...

sexta-feira, novembro 04, 2011

E.


❝E é então que esqueço de tudo e vou olhar nos olhos de minha bem-amada como se nunca tivesse visto antes. É ela, Deus do céu, é ela! Como a encontrei, não sei. Como chegou até aqui, não vi. Mas é ela, eu sei que é ela porque há um rastro de luz quando ela passa; e quando ela me abre os braços eu me crucifico neles banhado em lágrimas de ternura; e sei que mataria friamente quem quer que lhe causasse dano; e gostaria que morrêssemos juntos e fôssemos enterrados de mãos dadas, e nossos olhos indecomponíveis ficassem para sempre abertos mirando muito além das estrelas.❞

— O amor por entre o verde em Para Viver um Grande Amor, Vinicius de Moraes

CARTA À CAIO

– Você nunca teve vontade de fazer as coisas de maneira certa?
– Tive. Tenho, na verdade.
– Então... por que não faz?


São Jorge Portenlle, 29 de Abril de 2009.

"Querido Caio,
em resposta às perguntas de sua carta. Tenho esta única opinião: "sejas feliz".

Olha, rapaz. Não se preocupe comigo. Eu aprendi a viver sem você. Na verdade, – eu sempre soube. – Tu foste sempre ausente. – Eu nunca lhe tive em minha vida. E não levo como um drama saber que tens um outro amor... Nunca foste meu. Eu sempre tive que lhe dividir com algo: várias mulheres, amigos, vícios, ex-namorada. – Quando tu foste embora, eu senti a mesma falta que sentia enquanto estavas aqui.
Não sinto ciúmes do seu novo amor. E, por favor, não tente mentir. Eu conheço as falhas da tua voz, os olhos perdidos em segundos, a mão que ausenta o contato... conheço os sinais das tuas mentiras. Sei que estás com ela. – E apenas me preocupo...
Rapaz, se tu gostas dela... Agarra! Proteja ela, escute ela, cuide dela. Peça-a em namoro, leve-a para jantar, andem de mãos dadas. Trate-a bem. Tu não vês o quanto perdes ao se privar disso? Amar de verdade faz bem! Tratar bem quem nós gostamos, pode ser difícil, mas nos traz grandes recompensas.
Tu não sentes falta de mensagens de Bom Dia ao acordar? De chegar em casa e ter comidinha pronta? Da ajuda para lavar roupa? Da falta do chá da mãe que é suprida pelos cuidados da namorada enquanto estás doente? – Não sentes falta de um convívio não doloroso e sem complicações? – Não tens vontade de amar sem medidas e ter aquela felicidade simples, e, ao mesmo tempo, tão bonita?
[...]
Pare com essa mania de se esconder da vida, de querer fazer tudo errado, de fazer de conta... – Escuta a voz dessa menina. – Abre os braços para uma vida nova e doce. Faz certo, dessa vez, – não faça ela passar o que eu passei.
Não minta, não fuja, não confunda; não seja covarde. Não faça mal à ela. Não seja injusto com quem canta à você. Não brinque, rapaz.
Não brinque, pois a vida não poderá lhe pagar com a mesma moeda. Acredito que, ao partirmos um coração, a vida trata de nos deixar desempregados. Sabe? A gente entra em depressão com nossa própria vida. Perde emprego, amigos; bebemos mais; largamos faculdades... – Ficamos mal, sem saber porque a vida nos castiga. – Porque só ficaremos bem quando tratarmos [todos] bem, até os que não respondem às nossas gentilezas. – São os espelhos da vida, rapaz. Cuidado!
Ter cuidado é tudo que eu tenho feito. Abro olhos, dou-me novas chances, fecho janelas. Eu tomo cuidado. Eu miro a flecha naquilo que me faz bem e escuto as palavras certas. Eu tenho pouco tempo... Não poderei errar outra vez.
Não sejas tolo, rapaz. É impossível ser feliz sozinho. Trate-a bem. – Alcança o telefone, disca o número, liga para o teu novo amor. Chame-a para sair. – Comece uma nova vida, mas, dessa vez, que seja verdadeiro.

Que seja verdadeiro,
repito todas as noites antes de dormir.

Que seja verdadeiro,
Que seja verdadeiro,
Que seja verdadeiro.

Meu Deus!
Que seja verdadeiro, por favor!

Com amor,
Alguém Que Não Lhe Quer Mais.".

quinta-feira, novembro 03, 2011

G.


❝Bolha de sabão estourou-se na partição da ópera. Fragilmente dissipou-se no ar. Transpareceu como lentes convergentes. Imagem bela. Cores do arco-íris. Singela no caos. O teatro lotado. A criança reparando bem no palco. A bolhinha morreu. Oxigênio, gás carbônico, vapor de água e restos de bolha. A atmosfera sofre mais uma perda. Ninguém ao menos reparou. Em exceção à criança. Parada, desejando talvez que as moléculas de sabão se recompusessem e formasse nova. Agora estava em tédio. Toda aquela gente com roupa de gala, ouvindo música que não dizia nada. E com a bolhinha, muito mais importante, ninguém se importou. De tão pequenina, não chamava lá muita atenção… por isso o menininho gostava. Era dele, o que ninguém reparava.❞

— S. Andrade

À AMIGA

– O que você procura em alguém?
– Odeio homens medrosos.
– Mas o que procura?
– Odeio homens medrosos, embora sempre me apaixone por um. O medo me tira do sério e deve ser isso: Eu estou procurando infernos dentro das pessoas.


Todas as vezes que explico às pessoas o que se passa e o que se deve fazer com as decepções, dentro de mim nasce um arrependimento de quem mente. Como é que nós sempre nos propomos a aconselhar às pessoas quando, dentro de nós, falta-nos paz e está tudo errado? É que de fora tudo parece mais fácil. O segredo talvez seja não se envolver. Mas quem não se envolve também não sente. Sabe? Eu acho que, tudo, exatamente tudo, que você irá fazer, irá lhe causar algumas dores, mas deixar de fazer causa alguns vazios. [...]
Só é verdadeiro aquilo que é simples. O complicado é uma mentira que nós queremos acreditar. É claro que, eu já disse que, tudo irá nos trazer sofrimento, mas o verdadeiro simplifica muitas coisas como: Ele não te ligou, não porque a avó estava doente, mas porque não quis. Ele foi embora não porque lhe ama demais e precisa lhe deixar livre, mas porque preferiu seguir a vida dele sem você. Ele não lhe traiu pensando que você não se importaria, ele simplesmente não pensou em você.
Quem ama corre atrás, quem deseja inventa desculpas. Quem ama vai fazer tudo para não lhe ver chorar, para escutar suas dores, para pedir que você fique; quem deseja vai ir embora sem chorar, vai formar suas dores, vai pedir para que você o entenda.
As pessoas mudam, a vida toma rumos diferentes e tudo tem seu tempo. Cada acontecimento na sua vida aconteceu por um motivo. Sei que hora ou outra ele se vai e você o esquece, vira passado. Mas você não pode fechar os olhos e passar a mão na cabeça de tudo que ele faz, você precisa aprender a diferença: – existem apenas duas coisas no mundo, uma delas é o amor, e a outra é o resto. Com qual você fica? – Quer ser amor ou quer ser resto?
Não se acha pessoas especiais em qualquer esquina. Eu sei disso. Mas você já pensou em quantas esquinas você ainda vai passar? E quantas pessoas especiais você está deixando de ver? Pois quem deve ver a pessoa especial que ele abandona nessa esquina é ele! É ele quem perde. – Você não vê o quanto és linda?
A lógica da vida é seguir em frente. Eu sei o quanto o amor é lindo, mas é lindo com quem ama você. Não deixe que qualquer pessoa tire seu sorriso do rosto. Porque é preciso estar sorrindo para encontrar alguém que se apaixone pelo seu sorriso. – Lembre-se: Só é verdadeiro aquilo que é simples.

* * *
❝Se você se afastou de alguém, e esse alguém não correu atrás. Fique tranquilo. Você fez a escolha certa.❞ [C.F.A.]

terça-feira, novembro 01, 2011

E.


❝Venho por meio desta, te pedir que não voltes. Não espere que o meu amor te escancare um sorriso da próxima vez que bateres à minha porta. Esqueça o nosso plano de fuga deste mundo tristonho, as nossas tardes naquela cachoeira com margaridas por todos os lados, as nossas pinturas em tela aos domingos. Esqueça que um dia eu disse que seria tua por esta vida e quantas mais estivessem por vim. Abandona a ideia de deitar-te comigo debaixo daquele cobertor que já carrega o nosso cheiro e a nossa história. Se quiseres, esqueça até a ferida que abriste em meu peito ao partires deixando apenas um bilhete informando-me que um dia voltará. Esqueça-me, rapaz. Esqueça tudo. Só te lembra de nunca mais voltar.❞

— L. Novaes

THE WOLF AND THE OWL

O velho tinha barba grisalha e olhos negros. A pele era desgastada pelo sol e castigada pelos anos. Mas seus trajes brancos eram tão límpidos quanto às roupas do chefe bancário. Ele me olhara. Com seus olhos atentos e sábios, o velho me olhara. Me deixara envergonhada, com medo, e sem reação. Pois do mesmo modo que me olhara curioso; dentro de mim, levantavam-se curiosidades sobre as rugas de seu rosto. – Qual é a sua história, velho Cappela?



Cappela, era um homem que levara nas costas seus setenta e dois anos de idade. 72, sempre me foi um número de sorte. Depois de questionar-me, muitas vezes, por que Cappela só apareceu em minha vida neste momento, cheguei a conclusão que, aos setenta e dois de sorte era o momento em que Cappela deveria me encontrar.
Suas crenças sobre fé em Deus faziam-me duvidar das minhas crenças sobre a vida. Muitas vezes, tive medo de não poder comandar minha vida, então vieram as palavras de Cappela:
– A vida é sua. Deus a deu para ti e tu tem a chance de vivê-la. As escolhas são tuas, tudo que entra e sai desta vida é por sua conta. Deus não poderá intervir em muitas coisas. Ele poderá lhe confortar, proteger e iluminar. Mas as decisões e ações serão sempre tuas. O acerto com ele é no final desta.
Assim eu perdera o medo de que os meus sonhos não se realizassem e comecei a pedir forças, para que Deus não me abandonasse, e, principalmente, não deixasse que eu O abandonasse.
A primeira vez que Cappela dirigiu a palavra à meus ouvidos, fez-me duvidar da lucidez que eu havia lido em seus olhos. Só após um tempo foi que eu entendi que, Cappela se comunica assim com quem ele pode enxergar luz dentro da alma. Sempre me achei pequena, e todas as vezes que ele tentara mostrar-me a alma, eu achei que fosse mentira. E achei que fosse louco.
– Há uma grande dor aí dentro.
”Há uma grande dor aí dentro”, ele repetira em todos os finais de nossas primeiras conversas. Eu sentira como se aquele velho soubesse de algo, e percebera o quanto queria me despertar enigmas. Era como se em cada palavra ele escondesse um: “vai, descobre, corre atrás.”.
Como deveria ser, o tempo passou. E, aos poucos, cada pergunta ganhou resposta. Cada palavra do velho Cappela ganhou compreensão dentro de mim. E eu quis muito que ele aceitasse meu pedido de chamá-lo e tratá-lo como um pai.
Cappela, foi um homem incrivelmente sábio. Nós morávamos em uma pequena cidade que, as pessoas mais pobres, o tratavam como rei. O que deixara as pessoas mais ricas com certa raiva. Cappela era um velho com suas verdades, quais ele falara sobre, na hora em que lhe apetecesse; daquela maneira: “doa a quem doer”. Conquistou muitas pessoas e muitos inimigos.
Mas ele era um médico. Possuía um consultório. Porém, não era qualquer médico. Ele era um médico da vida. Recebera seus pacientes numa salinha pequena, com uma mesa acompanhada de três cadeiras, e, uma cama onde os pacientes se deitavam. Os pacientes contavam sobre suas vidas e dores, e, o Sábio Coringão, como alguns o chamavam, dava-lhes conselhos e força para que continuassem. – Um terapeuta sem faculdade.
Certo dia, assisti a uma consulta. Ele entregara um liquido para o paciente beber, o paciente deitara na cama, e dormira. Antes disso, Cappela explicara ao paciente que, voltar ao passado não é uma brincadeira. Deveria se ter muito cuidado, porque assim como nós podemos voltar ao passado, o passado poderia vir à nós.
Achei tudo muito estranho. Não era acostumada às tradições e conhecimentos de Cappela. Após a consulta, sentei em uma das cadeiras e perguntei o que havia acontecido. Foi quando ele me explicou que, ao beber aquele liquido a pessoa voltaria ao passado. Mas não o passado de [anos] que se foram, e, sim, o passado de [vidas] que não deveriam voltar.
Foi quando, depois de muito tempo sem dizer, ele repetiu que havia uma grande dor dentro de mim. E que eu só poderia entender meus tormentos quando compreendesse o meu passado.
Fui para casa, pensei, e me perguntei várias vezes até me convencer: “Por que não?”.
N’outro dia, fui até o consultório e pedi para tomar o liquido. Cappela me lembrou o quão era perigoso reviver o passado, e que deveria refletir melhor. Mas eu estava decidida. Eu queria acabar com o meu sofrimento.

Tomei. Deitei. Dormi.

Acordei. Eu enxergara tudo; porém, era noite. Em um pequeno deslize, me desequilibrei e quase caí. Eu estava em cima de um galho de árvore. Foi quando olhei para meus pés e vi patas. Olhei para meus braços e vi asas. Tentei falar, escutei sons estranhos. – Eu era um pássaro. – Subitamente surgiu um sentimento de dúvida. Eu era um pássaro. Mas que pássaro era eu? – “Quem sou eu?”.
Naquele devaneio me desequilibrei novamente e caí da árvore. Tentei bater as asas, mas não sabia como. Caí no chão e esperei o dia clarear. Fechara os olhos como quem espera sono, e como em vida, o sono não veio. Concluí que essa era a única coisa que não mudara – eu nunca tenho sono.
Vi animais passarem, escutei o barulho do vento nas árvores, fitei o céu durante toda a noite e as estrelas brilhavam. As estrelas brilhavam e a lua estava cheia, achei estranho. Nunca havia visto lua cheia com céu estrelado. Escutei uivados. E logo o dia amanheceu. O nascer do sol foi lindo. Ainda que não soubesse como, minha pele ficou arrepiada com aquela beleza.
De manhã, tentei me equilibrar com as patas até conseguir andar. Imaginei os outros animais debochando do pássaro que tentara andar quando poderia voar. Logo comecei a mexer as asas até conseguir me mover. Passou-se um dia, dois dias, três dias, e, no quarto dia consegui ganhar os céus. Só aí comecei a me sentir um pássaro. E foi fácil sair por aí, sem medo de nada, vendo tudo do alto.
Quando sentava em um galho, e avistava algum inseto, de instinto eu o comera. Uma noite, um roedor passou correndo por mim, e eu corri atrás dele sem pensar, o engoli. Depois vomitei seus ossos. – Foi quando entendi que não importa a sua espécie, você obedece a seus instintos.
O desejo de saber quem eu era aumentava. Numa tarde, estava sentada num galho quando escutei, ao longe, o barulho de patas batendo forte no chão. Fiquei atenta ao som e, de repente, um lobo se aproximou. No começo, senti medo. Mas os olhos doces que me fitavam me deram alguma segurança. Logo percebi que eu conhecera aquele lobo.
O lobo perguntou-me se senti a sua falta. Sim. Os animais conversam entre eles, mas não é português, inglês ou francês. É uma linguagem que só os animais entendem. E eu não sei como, mas foi fácil me comunicar com aquele animal de quatro patas e pêlos sujos.
Disse-lhe que senti a falta, mas que não soubera mais quem era ele. Que, de certo modo, eu não soubera mais quem eu era. Que tudo estava me assustando, tomavam-se rumos diferentes, e eu não sabia acompanhá-los. Minhas costas, se é que ainda possuía costas, congelavam ao pensar no que viria.
O lobo me estranhou. Mas com algumas palavras me acalmou. Quando tudo pareceu mais simples, perguntei à ele quem eu era. E ele disse: “Não sei quem és. Sei apenas quem sou.”. De súbito, perguntei quem era ele. E ele respondeu: “Sou quem te ama.”.
Aquilo tudo me deixara com poucas reações e cabeça distante. Os animais amam como as pessoas. O amor deve ser mesmo aquilo que move o mundo. Talvez, se nós acreditássemos mais na força do amor, o mundo seria um lugar melhor para se viver.
Com o meu silêncio, o lobo se esquivou, e ensaiou um ir embora correndo. Mas voei até ele e o impedi. Pedi para que ficasse, disse que eu não soubera quem era ele, mas algo dentro de mim dizia que eu precisava dele ao meu lado. O lobo, então, olhou-me com olhos calmos e cheios de misericórdia, e afagou minhas penas. Levei aquilo como um gesto de quem desculpa.
Voltei ao meu galho e ele se deitou em baixo da sombra de minha árvore. Conversamos sobre a floresta e sobre a vida. Em alguns momentos, senti vontade de sorrir, porque eu duvidara da vida dos animais. Mas, a fé daquele lobo, tomava-me por inteira. Quando tudo ficou em silêncio, disse-lhe que se eu pudesse me ver, talvez eu saberia quem sou.
O lobo levantou-se em ato súbito e disse para que eu voasse até o Rio Callandria, e assistisse o meu reflexo. Embora dentro de mim eu tivesse certeza que saberia voar até lá. Pedi para que ele me levasse.
O lobo correu depressa, e eu o segui voando. No meio do caminho, aconteceram brincadeiras. Tão desastrado quanto eu, o lobo sujo, perdera a sintonia das patas e despencara ao chão algumas três ou quatro vezes. Sorri envergonhada dos desastres daquele animal.
Quando chegamos ao Rio Callandria, pedi para que ele me deixasse sozinha. Às vezes, é preciso distanciar-se e manter-se só, para saber quem somos e quem queremos ser.
O lobo se foi, e a cada passo, meu coração apertava. Mas eu deveria ser forte. Fui até a beira do rio e olhei o meu reflexo. – Eu era uma coruja. – O animal que senta no ombro da deusa da sabedoria, Atena. Que avisa a morte às casas que visita. A águia da noite. Aquela que traz segredos ocultos à quem sabe enxergar seus olhos. – A Coruja.
Voltei para trás perdida em pensamentos. Uma coruja? Logo eu que odiara aquele animal em vida, e, que, morrera de medo das corujas que cantavam? Logo eu seria uma delas em outra vida. Irônica vida! Se alguém pudesse entender os caminhos que nossas vidas tomam, eu poderia esquecer Deus e tomá-lo nas costas. Mas isso não é possível. Os caminhos da vida são demasiadamente incompreensíveis. – Embora, muitas vezes, eu pudesse confundir Cappela com um reflexo perfeito do Pai de todas as vidas.

Dormi.

Acordei. Ao abrir os olhos levei grande susto. Da floresta imensa em verde eu me transportara à uma salinha de paredes cor salmão. Estava no consultório do velho. Senti frio, medo e tentei bater os braços como se ainda possuísse asas. Então escutei o barulho da risada de Cappela e percebi que ele estava me espiando.
– Um pássaro? – perguntou ele.
– Uma coruja.
– Seus olhos furiosos lembram os olhos de uma.
– Cappela, havia um lobo. E eu conhecera aquele lobo.
Contei à ele que o lobo me olhara da mesma forma que Hugo. Disse-lhe que eu não soubera como, mas havia me comunicado com o animal, que eu entendera suas palavras da mesma forma que entendera Hugo. E que a ligação que eu sentira entre nós, era a mesma que eu sentira ao dar às mãos à meu bem-amado.
Hugo, era o homem que seria o homem de minha vida. Nós nos conhecemos há alguns anos. Nos amamos. Mas não conseguimos ficar juntos. – Quando as pessoas optam por liberdade, devem desistir do amor. E foi isso que nós dois sempre fizemos: – desistir.
Cappela me explicou que os lobos são animais ágeis e que significam proteção. Que são corajosos para lutar pelo que desejam, e por isso, as presas grandes. E que os lobos se apaixonam apenas uma vez na vida, por uma única parceira, após isso, se a parceira morrer, eles ficam sozinhos para sempre.
– Os grandes afetos das outras vidas, podem continuar. O amor nunca acaba. É claro que, hoje aqui e ali, vocês podem não terminar juntos, como muitos outros, que, transportaram amor de uma vida à outra e o amor não resistiu. Mas uma coisa é certa, querida Clarice. O que lhe atormenta é o final da história.
Os finais sempre me atormentaram, pensei em responder à Cappela. Mas dei de costas e saí. Prefiro o silêncio muitas vezes. – Pensei em ir atrás de Hugo e contar-lhe tudo o que havia acontecido. Mas estávamos separados fazia tanto tempo que achei que não seria bom para mim revê-lo. – Ah! Esse é o problema dos solitários... Nós nos amamos tanto que sempre pensamos no que é melhor para nós, esquecemos do que é melhor para o amor, e insistimos na idéia de que somos sozinhos.
Fiquei andando pelo Jardim Central de Alélica e o som das árvores pareciam conversar comigo. Eu tinha que voltar lá e ver o final da história entre o lobo e a coruja. Como seria possível? Dois animais totalmente diferentes se apaixonarem? Desafiando as leis da natureza e da ciência, se é que essas leis são mesmo verdadeiras. Começo a acreditar que a única coisa impossível é aquilo que não acontece nos sonhos.
Passaram-se duas semanas. E a minha vida continuara a andar da mesma maneira de sempre. Acordar, ir trabalhar, voltar para casa e dormir. Estas eram as únicas coisas que eu fizera. E, mesmo assim, fizera com muito gosto. Mas a imagem daquele lobo não deixara minha mente em paz. Eu tinha que voltar lá e contar-lhe que nós nos veríamos outra vez. Eu tinha que voltar lá e pedir para que ele cuidasse do meu coração de pássaro, porque quando se tornasse homem, ele não faria isso. (...)
Numa sexta-feira pela manhã, fui até o consultório e pedi à Cappela para beber do mesmo liquido.
– Você pode, mas eu não indicaria. Não tevês somente uma vida. O homem é a última passagem, fostes muitas coisas antes daqui, não há como beber e voltar a mesma vida duas vezes. São respostas para o hoje, suas perguntas não são as mesmas de ontem. A mente do ser humano é um perigo constante.
– Eu sei quais são minhas perguntas. E quero tentar.
Quase mostrei as presas de lobo que eu não tive para que ele me entregasse o liquido. Bebi. Deitei. Dormi.

Acordei. Minhas patas estavam fracas, minha cabeça latejava e minha boca estava seca. Tentara, mas não conseguira emitir nenhum som. Olhei aos lados e eu estava deitada no chão. No céu um pássaro marrom voara sobre mim. Quando escutei sua voz, eu soube, eu não era uma Coruja. Respirei. Olhei meu corpo, e entendi, – eu era o lobo. Meus olhos se fecharam. A Coruja pedira para que eu não fosse, mas eu fui. Não haveria mais nada a se fazer.

Acordei. E a mesma zonzaria d’outra vez atacou minha cabeça. Voltei ao normal com o barulho da caneta que Cappela batia na mesa. Ele não precisou perguntar nada, seus olhos curiosos perguntaram por ele.
– Eu não era Coruja. Nunca fui Coruja.
– Era lobo.
– Como sabe?
– Sei apenas que precisara ser Coruja para entender quem era Hugo. Hugo que vive à procura de saber quem é ele. Precisara sentir as curiosidades de saber sobre a vida e a liberdade de voar por aí, para entender a cabeça de Hugo. Precisara olhar seus próprios olhos e sentir o encanto que Hugo sente, e a dor que invade seu peito quando ele tem que lhe mandar ir embora. Pois é fardo de outras vidas que vocês carregam. Apaixonaram-se em outra vida, e nunca conseguiram ficar juntos, mas entenda, Clarice; Essa é a última chance de vocês dois. Depois daqui, o acerto é com Deus. Vocês precisam se encontrar de uma vez ou colocar um fim nessa história.
– Já colocamos fim.
– Só é final quando se deixa de sentir.
– Nunca vou deixar de sentir.
– Quando você se machuca com um vidro quebrado dói. Não dói?
– Dói.
– Mas, depois de um tempo, a ferida se fecha e há cura. Então a dor some. Se os machucados param de sentir, o amor também pára.
– Então não é amor.
– O que é amor?
– Não sei.
– É isso. Coruja e Lobo nunca poderiam ficar juntos. A Coruja não se alimenta de Lobo e o Lobo não deve se alimentar da Coruja. Todas as espécies podem amar. Mas somente o homem e a mulher podem escolher o que fazer com esse amor. Você sabe que o Lobo nunca se apaixonou por outro animal? E a Coruja, não podendo ficar com ele, ficou sozinha em seu ninho. Enquanto o Lobo corre, a Coruja voa. Enquanto o Lobo demonstra segurança e coragem, a Coruja demonstra sabedoria e reflexão. Porém, os dois amam a noite e a lua cheia. E os dois caçam. É preciso que saibam descobrir o que é o amor.
– Só que, eu, o Lobo, morreu.
– Então não o deixe morrer outra vez.
– O que eu devo fazer?
– O que um Lobo faria?
– Lobos cantam para lua.
– Então faça a Coruja lhe escutar.