sábado, março 26, 2011

É dado outro nome.

Como de costume, cheguei já era madrugada. A porta da casa encontrava-se aberta: “Esqueci de trancá-la outra vez!”, pensei. Característica minha, bem minha, própria minha: distraída, – inventaram a distração depois que nasci. Entrei em casa. Tranquei a porta. Fui até o banheiro, lavei o rosto, tirei as roupas, andei até a cama: despenquei. Exausta, – é assim que me sinto todas as noites ao deitar-me. Peço mais do que posso pedir à mim mesma, e ainda acho que não é o bastante. Dia e noite trabalhando, estudando, lendo. Sem ter tempo à mim. Por descuido, ou por promessa. Ou, quem sabe, eu me provoque isto: manter a mente ocupada faz-me pensar menos.
Então era só isto que eu precisava: ocupação dos pensamentos. O fato de pensar naquilo que não queria, era pelo tempo que me sobrava... Se tudo era tão simples, eu cá não estaria.
Mas o telefone toca. Surpreendentemente, ele toca. E tem um toque irritante, uma música que odeio, e nem fui eu que a coloquei ali. Pois de tão irritante, dou-me ao trabalho de levantar-me para atendê-lo. “Ê-lo”, isto mesmo: atendê-lo. Era ele. As mãos não sentiam vontade de tocar no telemóvel, na cabeça não se passava pensamento algum, – mas o coração batia forte, tão forte que os olhos sentiam vontade de chorar. Paralisei.
Fiquei olhando o telemóvel até a música irritante parar de tocar. E quando parou, o coração foi apertado por uma angustia repentina. Sentei-me na cama. Suspirei. E eu já soubera tudo o que iria acontecer daquele momento em diante.
O telemóvel tocaria outra vez, eu o atenderia tão depressa que, sentiria minha voz falhar. Conversaríamos um pouco, falaríamos que estávamos com saudades, marcaríamos um horário e um local para nos encontrarmos, e ele se atrasaria. Mas quando chegasse, olharia em meus olhos, –, tão profundamente que eu esqueceria o atraso e qualquer outra raiva que havia de ter me feito passar. Ele, então, começaria a sua ladainha de palavras doces. Eu iria manter-me calada, mas iria acreditar, – e iria gravar cada detalhe de suas palavras, como se fossem juramentos; E cada detalhe se tornaria uma esperança involuntária em meu coração: “vai voltar a ser como era”. Pois não voltaria. No dia seguinte eu iria sentir uma vontade insaciável de encontrá-lo, mas não iria atrás. Esperaria algum sinal, qualquer sinal que, não viria. Nenhuma ligação, nenhum encontro casual, nada. A noite passada foi apenas mais uma. Eu, – era apenas mais uma; E todas as vezes em que me senti especial, deveria saber que outras mulheres também se sentiram assim.
Perdida em meus devaneios. Fui acordada com o maldito toque do telemóvel. Suspirei, e “como eu suspiro fundo nesses momentos”, pensei. – Respiro o máximo de ar possível, seguro por alguns segundos, depois solto. – Levantei-me, peguei o telemóvel, atendi com um desinteresse forçado. “Alô”, disse ele. E meu coração já não pertencia mais a meu corpo, ganhava vida própria, saltava descontroladamente por todo o quarto.
Ele falava. E eu, – perdida, concordava. Não queria falar, mas queria falar com ele, – e há uma grande diferença nisto. Foi quando, de repente, ele começou a falar sobre nós dois e, eu, desliguei o telemóvel. Não! Não desliguei a ligação, desliguei o aparelho.
Enfiei-me em baixo das cobertas e dormi o resto da noite. Sem me importar com o livro que tinha de terminar a leitura, nem com a televisão que eu deixara ligada na sala... Não. Nada disso. Eu só queria dormir.
E o sonho foi mais um mistério para mim: ele, sempre presente em meus sonhos, cantava meu nome com voz de amor. E, sonhando, eu tive certeza: era só disto que eu precisava.

O orgulho nos mata, mata tanto, fere tanto, parte-nos ao meio. Não quero acreditar que falta amor, quero acreditar que sobra orgulho. Que é isto que nos separa: o orgulho, – é a distância entre nossos corações. Que não fomos feitos um para o outro, e justamente por isso, é que nos amamos. E amamos verdadeiramente. “Verdade” é a palavra que toma minha vida desde que me senti sozinha. Mentiras destroem tudo; – Mentiras têm o poder de demolir casas e barrancos, de arrancar pedaços e queimar papéis. E sinto a mentira sobre mim quando penso em você, confesso.

Mas a noite fala comigo. E meu sonho é mais um sonho lindo. – Querido, eu queria entender como pude me apaixonar por alguém que não mora na mesma rua que a minha. Destinos paralelos. Caminhos intocáveis, e que se atraem.
Se todo o amor que você construiu aqui dentro de mim, não é o suficiente para dar-me teu endereço, – não posso entender o amor, ou entender que tipo de amor você deseja. Porque o amor não é assim. “Amor é mais que amar”.

*  *  *

(...) E acordo cantando. Com o sorriso estampado em meu rosto. Não pela noite passada. Mas porque toda manhã é um novo dia, e algo dentro de mim cobra-me meu bem estar, minha própria paz. Chama-se: “recomeço”.