quinta-feira, junho 02, 2011

O ANJOMONSTRO.

“Calma, Don Juan. Não posso fazer nada a respeito. Acalme-se e entenda: Sou romântica. Para mim, viver é isto: Não há amor sem vida, Nem há vida sem amor.”

Seus pés eram gélidos. Sua boca cheirava erva doce. Seu cabelo tinha a maciez de uma pétala de rosa; Enquanto suas mãos eram ásperas feito madeira. Vestia-se sempre de roupas escuras. Tinha barba mal-feita, cabelo despenteado, e uma voz afinadamente grossa e encantadora. Então, mesmo com seu jeito sombrio – lembrava-me um anjo. A combinação perfeita.
Pedia-me sempre cinco minutos de atraso para que ele pudesse me abraçar em baixo das cobertas. Cobria-me de mimos. Era cavalheiro o bastante para acender o meu cigarro. Cobrava-me imperfeições, tinha horror ao politicamente correto. E durante o dia sempre usava óculos escuros; de certo, faltava-lhe colírio. Se é que vocês me entendem.
Chegamos a dividir a escova de dente várias e várias vezes. Comia, dormia e lia, somente nas horas que lhe apetecia. Não trabalhava, não estudava, vivia de música e arte. Vivia de noite. A noite era sua companheira e eu tinha de dividi-lo com ela. Com a noite e com as outras mulheres. Vadio, mulherengo, boêmio e lindo. Olhava-me, encarava-me os olhos e deixava-me totalmente tonta e tímida. Tinha olhos que pareciam ser de cobra. E rogava-me medo daquela fúria, daqueles disfarces, daquele anjo disfarçado em monstro. Daquele monstro disfarçado em anjo.
Era uma incógnita, um mistério. Um cálculo matemático [in]finito. Não tinha resoluções, nenhum resultado. Não havia como desvendar seus segredos. Chamei-o de Don Juan.
Don Juan, que amei como só se ama uma vez. Que devorava-me o corpo e o coração. Que habitava meu mundo. Que me enlouquecia, me deslumbrava, me entorpecia; e depois ia-se embora... Meu caso de tempo perdido. Meu adoçante de café. Meus orgasmos mais intensos. O meu queima-roupa e lava-pé.
Don Juan tinha uma caixinha de sonhos. Onde ele escrevia seus pequenos almejos em papeizinhos e jogava-os lá dentro. Trancava a caixa às sete chaves. Algo lhe despertava medo de sonhar. Talvez ele sonhasse muito alto e soubesse que nunca realizaria nada. Talvez ele já tivesse sofrido grandes desilusões. Ou talvez, todos os seus sonhos eram fruto das estradas que percorreu. Pois viajou por mares e lagos, vinis e lugares, buracos e negritos, minas e armadilhas, estrelas e florestas; Percorreu o mundo e vários mundos, atingia graus indecifráveis de reflexões, tomava doces e sabia seus mapas. Don Juan, mentia para si mesmo e acreditava.
E todo o meu encanto nunca foi regado por sua beleza. Conquistava-me pela sua forma bonita de olhar-me, de querer-me e, sobretudo, por tentar entender-me e parecer não conseguir. Além do mais, tinha algo nele que me encorajava a viver: Sua mania de desafiar.
Levava-me às nuvens. Despertava-me a alma mais pura e negra em aventuras desleais. Fazia-me suspirar e respirar euforicamente seu amor e sua história. Jogava-me sobre a mesa de passar roupa e amava-me sem esforços, sem vergonhas, e sem resenhas. Não tinha limites; Nem controles. Não tinha regras. Não tinha família. E falava inúmeras línguas. Don Juan, não tinha nome.
Como pude amar alguém que possuía um pseudonome? Que eu nunca soube quem era de verdade. Que eu desconhecia. Que toda e qualquer atitude era sempre uma surpresa... Pois sei a resposta. Don Juan, foi projeto dado-me para aprender: O amor, nada mais é que, amor. Para o amor não existe pretensões, não são contadas as qualidades, nem são exigidos juramentos de verdade e nada mais que a verdade. Ama-se, – simplesmente.
O anjo-monstro que me despertou a vida e a morte. Que me apresentou sabores inanimados. Que parecia abordar um saber empirista. Que nasceu para destacar-se sem dizer uma só palavra. – Foi este, foi meu monstro em corpo de anjo, que me deu as mãos para o amor.
Amor tão sublime. Tão triste. Tão imaturo. Amor de criança. Amor de Don Juan. Don Juan, que morreu.
Na mais tecida e bordada de suas aventuras. Morreu em sonhos e favores. Don Juan se foi. Bateu com a cabeça numa pedra e quicou as mulas. Sexo já não lhe faz falta. Amor é desconhecimento. Nuvens brotam da terra e o céu tem flores. Don Juan se foi, morreu com suas mentiras, apagou nossas verdades. Foi assassinado num beco sem saída, por mulheres famintas de amor. Mulheres que tinham sede de vingança. Desvirginadas que perderam o controle e suas castas. Que foram iludidas. Que não souberam aceitar a vida que foi posta ao anjo: ser monstro.
O corpo foi estrangulado, esfaqueado, depois decapitado. E houveram partes queimadas que, honestamente, não quero citá-las. No jornal correu boatos que os peritos acusaram as assassinas de fazer sexo com o defunto. (...) Mataram meu anjo.
Sentei desconsolada ao lado do túmulo. Despi-me da alegria que ele sempre me trouxe. Chorei mais que os pingos de chuva que caíram naquele cemitério. Eu era a única viúva daquele monstro. Porque somente eu amei-o sem rancor. Implorei à aquele Deus que, minha falecida madrasta rogava, para que trouxesse-o de volta. E nada.
Depois de anos de mentira. A verdade foi a própria morte. Sem metáforas. Don Juan estava morto.
Que crime! Que pecado! Que loucura vinda da luxúria! Dez virgens, um soldado morto, e uma doce viúva tristonha.
Nenhuma droga poderia dar-me prazer. A loucura já me habitava e eu queria poder ver seu espírito. Agora, eu era uma viúva sem aliança que freqüenta um Centro Espírita. Que vergonha! Eu que mal tinha religião, que mal sabia a cor da fé, que nunca fui atrás de milagre algum... Estava desesperada por um sinal de Deus. Um sinal onde ele me dissesse: Seu amor está bem. Embora eu soubesse que, pelo que os homens julgam, Don Juan iria direto ao inferno.
Louca. Desvairada. Eu queria-o de volta. Foram anos de busca. Até que um dia recebi uma carta. O carteiro era um velho baixinho que usava óculos e atendia por nome de “Chico”. Na hora não acreditei. O remetente era “Anjomonstro”. Achei que fosse trote, mas abri a carta em velocidade de loucura. Era dele. Don Juan escreveu-me depois de morto. E em três palavras acalmou minha loucura. As três palavras mais lindas e dignas do amor. Aquelas que qualquer outro apaixonado, em meu lugar, queria ouvir ou receber por carta. Aquelas três palavras indignas dos loucos e dos pobres de espírito. Aquelas três palavras bem-ditas e benditas. Sim. Eram elas. As três palavras:
“Morra você também.”