terça-feira, agosto 30, 2011

E.

"Eles se amam, todo mundo sabe mas ninguém acredita. Não conseguem ficar juntos. Simples. Complexo. Quase impossivel. Ele continua vivendo sua vidinha idealizada e ela continua idealizando sua vidinha. Alguns dizem que isso jamais daria certo. Outros dizem que foram feitos um para o outro. Eles preferem não dizer nada. Preferem meias palavras e milhares de coisas não ditas. Ela quer atitudes, ele quer ela. Todas as noites ela pensa nele, e todas as manhãs ele pensa nela. E assim vão vivendo até quando a vontade de estar com o outro for maior do que os outros. Enquanto o mundo vive lá fora, dentro de cada um tem um pedaço do outro. E mesmo sorrindo por ai, cada um sabe a falta que o outro faz.
Nunca mais se viram, nunca mais se tocaram e nunca mais serão os mesmos. É fácil porque os dias passam rápido demais, é dificil porque o sentimento fica, vai ficando e permanece dentro deles. E todos os dias eles se perguntam o que fazer. E imaginam os abraços, as noites com dores nas costas esquecidas pelo primeiro sorriso do outro. E que no momento certo se reencontram e que nada, nada seja por acaso."

(Caio Fernando Abreu)

SEJA BEM VINDA, BEATRIZ.

Enquanto a chuva caía, eu terminava o meu cigarro e me prendia em devaneios. Tantas idéias, tantas opiniões, tantas histórias. E nenhuma conclusão. Eu me cansara delas. Agora eu deixara de ser os dois pontos e viraria uma reticência. Nada de aposto, nada de explicações, deixei de lado o adverbial explicativo. Ali, eu viraria uma redação sem pé nem cabeça. Cansada. Exausta. Entregando os pontos. Eu desistira daquilo que eu nem saberia o que era.
Eu tinha caneta por perto, mas resolvi escrever com as lembranças. Nada de tinta, nada de papel, eu não gravaria nada. Apenas fecharia os olhos e fingiria escrever. – Escrever no intimo é a melhor forma de não demonstrar fragilidade. – E aquela altura, eu já estaria frágil demais.
Você deverá se perguntar o motivo da dor. A resposta é: não é dor, é vazio. Conforme o sofrimento vai se arrastando, tu começas a achar que nasceu para sofrer. Eu comecei a perceber que eu talvez não merecesse ser feliz. Então, eu encheria as outras pessoas de felicidade e esperança com palavras, mas o meu momento nunca chegaria. No fundo, eu seria um falso profeta. Uma borboleta sem asas. Um anjo com chifres. Nada com nada. Eu era uma mentira.
Era mais um de meus personagens dos contos ou mais um desenho que eu colorira. Eu não tinha propósitos. Perdera meus sonhos e planos. Não saberia mais o que fazer de minha vida. E era doloroso ver como a vida de todos ao meu redor ganhava um rumo, menos a minha. Eu sentira inveja até do gari que limpara a rua feliz com o salário no fim do mês. – Eu não era feliz. – Me faltara algo. Me faltara um impulso ou vontade de viver. Eu estava abandonando a vida e meu coração viraria uma pedra.
Não. Eu já não o amava mais. Não há como amar uma pessoa e se encontrar em minha situação. Despropositada. Às vezes, eu não amara nem a mim mesma. – Mas, agora, eu teria que encontrar amor.
O silêncio da casa era interrompido com a televisão do vizinho. Nunca me incomodara o volume alto, pois sentira pena do velho surdo. Às vezes eu tinha certo desejo de que aquele senhor fosse algo meu. Um pai, um avô, ou só amigo. Me sentira sozinha o bastante para demonstrar afeto até pelo pagodeiro da esquina que tinha as mãos engorduradas do churrasquinho de gato.
Mulheres como eu sentem-se sensíveis demais. “Mulheres como eu”, merda! Eu não era uma mulher. E eu ainda não tivera coragem de saber se poderia me encontrar neste grupo. – O exame ganhava lugar na mesinha da sala. – Eu o olhava enquanto acendia outro cigarro, provavelmente o último, e começava novos devaneios.
O que fazer? Por onde começar? Eu nem o amara para que fosse meu. E nem amara quem me deixou com ele dentro de mim. – Como seguir em frente? – Como sustentar aquilo? Era muita responsabilidade para meus dezessete anos. E eu não saberia como contar para os familiares a grande notícia.
Pensara em me matar. Não queria matar aquilo que estava dentro de mim. Eu era incapaz de matar uma formiga. Então, embora eu não soubesse o que era e se era, eu não o mataria. Mas poderia me matar. Eu poderia morrer por acidente. Me jogar na frente dum carro – ônibus, mais garantido – ou até um caminhão na BR 082. – Morte cruel, dolorosa, rápida. Ou não. – Mas eu não era suicida. E nem tivera talento para isto. O amor próprio continuara em mim, ainda que pequeno.
Embora eu não ligasse muito para minha vida e saúde, eu me amava. Embora não houvesse um plano ou grande esforço para que minha vida fosse a melhor do mundo ou, pelo menos, a vida que eu queria ter; Eu me amava. – E agora teria medo do futuro que me aguardava.
Foi quando uma voz sussurrou em meu ouvido: “Coragem!”. – Como é que é?, pensei. – Eu estaria louca neste momento, mas a voz insistira: “Coragem!”. E assim seguiu: “Coragem, anda, abre, uma hora você terá que enfrentar. Vamos virar gente grande...”. Suspirei aliviada. Achei que fosse Deus brigando comigo pelas mirabulosas idéias de morte, mas era minha consciência pesando. Eu não era aquela sequidão fria e escura. Eu já fui uma menina esperançosa e linda um dia. Então era hora de bater a cara na metamorfose e se preparar para tornar-me mulher.
Peguei o exame. As mãos tremiam. A barriga estava dura. Abri de supetão o papel branco com emblema da clinica que havia escolhido. Respirei. Fechei os olhos. Pedi para que Deus ou destino, ou quem existisse ali e que pudesse me ajudar. E olhei, confirmei, que droga! – Eu estava grávida.
“Mamãe” – conseguira ouvir a criança me chamando. Oh! Que coisa ruim dentro de mim! – Uma criança é sempre um milagre, é sempre uma felicidade, é sempre Deus falando com a gente. Mas a responsabilidade de outro ser em suas mãos era desesperador. Eu não conseguiria sozinha. E, eu era mãe solteira.
Subi as escadas, me olhei no espelho e disse: “Mãe solteira adolescente, prazer”. Este é meu novo nome.

Hora de arrumar as malas, mudar de vida, crescer e proteger o que há dentro de mim. Que seja a criança mais linda do mundo. – Aguardem cartas, cartões postais e fotos. Eu ainda me recupero da surpresa, mas dizem que dentro de mim cresce a minha força. – “Beatriz” será o nome dela.

segunda-feira, agosto 29, 2011

À.

EVERYBODY HURTS
R.E.M.
Composição: Bill Berry.
(Automatic for the People, 1992)

When your day is long,
And the night, the night is yours alone.
When you're sure you've had enough of this life,
Hang on.

Don't let yourself go,
'Cause everybody cries.
And everybody hurts, sometimes.

Sometimes everything is wrong,
Now it's time to sing along.
When your day is night alone,
Hold on, hold on.
If you feel like letting go...
Hold on.
If you think you've had too much of this life,
To hang on...

'Cause everybody hurts.
Take comfort in your friends.
Everybody hurts...
Don't throw your hand, oh no!
Don't throw your hand.
If you feel like you're alone...
No, no, no, you're not alone.

If you're on your own in this life,
The days and nights are long.
When you think you've had too much of this life,
To hang on...

Well, everybody hurts.
Sometimes, everybody cries.
And everybody hurts, sometimes.
But everybody hurts, sometimes.
So hold on.

Hold on.
Everybody hurts.
You're not alone.

IF YOU ARE LIVING.

Terra dos Sonhos, 28/14/20.019.

"Aqui não tem data, aqui não tem cor. Aqui só existe e faz sentido o que você quer."

– Não quero isto. Não vou lhe fazer mal...
– Eu sei que não age de má fé. – Mas até as boas intenções, quando não pensadas, podem se tornar más intenções. – Você deveria ter pensado em como seria depois, depois do impulso, da boa fé.

Ora, desculpe-me as grosserias e o mau jeito. Eu quero, mas não posso ficar falando tudo o que sinto. Ainda há algo que prende as minhas palavras todas as vezes que olho em teus olhos. Desculpe a novela mexicana e, desculpe, por não adoçar o café. Eu sou mesmo um drama. E foi mesmo doloroso tudo que passei. Mas, valeu. Valeu à pena, a galinha, e a refeição. Não sei se já estou satisfeita, mas já digeri as mentiras e todas as lições.
Arthur, faça-me o favor de não abrir os teus sentimentos. Feche-os. Eu ainda tenho pra mim que eles são meus. Não quero que os dê para outra tão cedo. E, se der, disfarce.
Abrigue as lacunas de dor em qualquer local longe do teu coração. Não fique remoendo os erros, nem as dores. Deixe para trás todas as angústias. Libere o teu espírito das cinzas e siga em frente. Siga em frente. O ponto importante é seguir. A direção se arruma conforme o número de passos. O segredo é caminhar. Caminhar com fé, e não com a ponta dos dedos dos pés.
Se a dor vier, chute-a. Se o cavalo lhe derrubar, monte em cima dele outra vez e mostre lá quem manda. Você não sabe ainda, mas você nasceu para vencer. Conquiste os sete mares e os quatro continentes. Deixe o vento lhe levar por este mundo e descubra os deveres de cada um dos povos. Você tem memória boa, vai saber o que fazer com as tuas regras e lições.
Ocupe-se em ser livre, mas não esqueça que todo ser humano deve ter um limite. Desgrude-se do mal e dos vícios. Faça você mandar em você. Faça você mandar em sua história. Faça você o seu caminho. – Se tu te prendes em desejos, não alcança as tuas vontades. – Vença os obstáculos. Eu quero ver-lhe subir o primeiro lugar do pódio.
Se eu não estiver ao teu lado, Arthur. Saiba que eu torci para que isto acontecesse. – Isto. Esta conquista. Qualquer conquista. – Sabe do que eu falo? Eu falo que, Cada momento em que um sorriso se abre, é uma vitória. Cada vez que se fecha os olhos e o coração está tranqüilo, é uma vitória. Cada vez que se olha para o lado e há alguém para segurar-lhe a mão, é uma vitória. – Amor é uma vitória. Ganhe! – Mas ninguém vive só de amor. Lute!
A guerra humana é uma luta sem fim. Se há fim, é morte. – Se o fim existir, iremos morrer. – O ser humano morre várias vezes dentro de si. Morre de amor, de dor, de loucura, de culpa e de ansiedade. Morra quantas vezes achar necessário. – Eu vejo a vida lhe preparando tempestades. Os importunos vão lhe sufocar algumas vezes. Eu sei que vai doer durante o fracasso, e sei que doerá mais ainda quando o mesmo fracasso acontecer duas vezes, três vezes, quatro vezes... Isto irá acontecer. Morra! Mas levante-se do túmulo de cabeça erguida. Comece outra vez. Insista. – Você é uma boa pessoa.
Você é responsável por tudo que entra e sai da sua vida. Determine tudo àquilo que deverá ficar nela. – Se o mundo lhe mandar parar, diga que você tem muito o que continuar por aqui. – Se a vida contrariar suas idéias, repense suas atitudes. E se você precisar se afastar de tudo por um tempo, afaste-se. Mas não demore até que tudo mude.
Tudo bem, a mudança a necessária. Mas não deixe a vida decidir por você. – Você deverá ser dono da sua história, lembra? Pois faça.
Escreva o capítulo do dia seguinte em seu diário, não fique escrevendo só o que aconteceu ontem. Ainda não é a hora de viver só por viver. Você não pode desanimar. – Continue...
Você não estará sozinho, enquanto me permitir estar por perto. Isto posso lhe garantir. – Mas, se por ventura, eu for embora. Eu posso cantar por aí que lhe restam grandes amigos e uma boa família.
No fundo, é só disso que você precisará para seguir em frente: de gente que lhe ama de verdade. Quem lhe amará mais do que seu pai, mãe e irmão? Vai lá! Eles lhe acolherão em momentos de frio e lhe enxergarão mesmo que tudo esteja escuro.
E quando a música tocar, dance. Mas se os ouvidos parecem surdos... é hora de limpar a alma. Outra vez.

Vamos lá, Arthur.
Eu sei que você consegue.
Eu ainda confio em você.

Us all to be Arthur.

sexta-feira, agosto 26, 2011

À.

“Era ela, era eu. Éramos nós. Metade dela, metade d’eu. Era o nosso amor. Nos completávamos. Nos pertencíamos. Até que ela desistiu. E eu deixei ela desistir. Quem erra mais? Quem vai ou quem deixa ir? Quem vai ou quem espera que o tempo resolva? O tempo não resolve nada, o tempo só tira aquilo que antes era importante do centro das atenções. E o destino não irá fazer nada. O destino não a trará de volta. Ele já me deu o amor dela e o meu, o resto é comigo mesmo. Ou com ela. E já que ela se foi, que eu a deixei ir... – O nosso tempo acabou. – Que tempo? Onde há tempo? Relógios são só uma invenção.
Eu nunca fui desses que se satisfazem com o pouco que a vida me dá. E se fui, não quero ser. Por que estou aceitando este silêncio como resposta? – Será que o amor nos faz medrosos assim mesmo? – Hó, não! Não moço. Quem é medroso, perverso, e cego é o Senhor. O amor é só um sentimento.”

(A.M.D.M.)

CARTA DE CAETANO.

29 de Julho.

Algumas horas antes da morte de Sophia.

“Eu não posso esperar que tudo caia dos céus. Não consigo deixar nas mãos do destino. Essa história do “deixa estar” me da a sensação de que eu não comando a minha vida. E todos nós sabemos que a vida é recheada de escolhas. Eu posso escolher tentar, continuar ou desistir. – Então, se eu lhe amo, eu nunca desistirei de você.
O amor não acontece todos os dias. Deus lhe colocou em meu caminho, e é uma escolha minha segurar a tua mão e continuar andando ao teu lado, – ou não. O destino ou Deus, não ficarão responsáveis por meus erros. Eu não irei deixar para depois. Se eu lhe amo, eu quero estar você. Eu irei lutar por você. Nada importará mais, nem o que as pessoas falam à meu respeito. Elas não sabem meus caminhos. Elas não entendem as voltas que meu coração já teve de dar. Elas nunca entenderiam a dor e a escuridão que a solidão me causou. – Eu preciso de você, Sophia.
Arrependo-me de ter lhe deixado um dia. Mas lhe conheço bem para saber que tu irás me compreender. E se não puderes entender, saiba que eu irei mostrar que isto não acontecerá novamente. Eu não soltarei a sua mão, nunca mais. – Você, Sophia, e ninguém mais. Você, Sophia, é a mulher com quem eu me casei. Qual eu amo. Qual eu passarei o resto de meus dias cuidando, protegendo, e vivendo este amor.
Este amor que não tinha motivo algum para nascer, e nasceu. Se fez forte. E disse à mim, o amor, disse à mim: “É ela!”. Desculpe-me por ter sido frágil e egoísta. Eu tive medo de magoá-la e mais medo ainda de não ser o que você merecia. Ou o que você queria. Porque eu não sou o homem perfeito que você acha que eu sou. Eu não sou inteligente, não sou leal, a honestidade não me habita, – eu sou nada. Mas quando estou ao seu lado, eu sou tudo. E eu quero ser tudo. Eu serei tudo. Nosso amor é tudo.
Então, o resto... é resto. Nenhum obstáculo será maior do que o que eu sinto por você. Nenhum desejo será maior do que o meu amor. Nenhuma lei afastará você de mim. Ninguém poderá opinar em nossa relação. – Está escrito, Sophia. Está escrito em nossa história. É o nosso passado, nossas lembranças, e o que restou dentro de mim.
Já não sei se ainda é o mesmo para você. Mas, para mim, é ainda mais. Eu lhe amo mais. E hoje eu entendo este amor. Hoje eu posso dizer que ele existe. Hoje eu quero cuidar deste amor, porque ele é como uma planta frágil que precisa de atenção e proteção. E precisa crescer. Precisa dar frutos. Precisa nos fazer feliz.

Sophia, para viver, eu só preciso lhe fazer feliz.

Com todo o amor,
Caetano.”

– Alô.
– Caetano?
– Sim.
– Caetano. Eu não sei como falar isto. Então...
– O quê?
– A Sophia morreu.

Respira.

terça-feira, agosto 23, 2011

A.

ESTRANHA FORMA DE VIDA
Caetano Veloso
Composição: A. Rodrigues &  A. Duarte.

Foi por vontade de Deus,
Que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus,
Que é toda minha saudade.

Foi por vontade de Deus,
Que estranha forma de vida.
Vive este meu coração,
Vive de vida perdida...

Que lhe daria um cordão,
Que estranha forma de vida.

Coração independente,
Coração que eu não comando.
Vives perdido entre a gente,
Teimosamente sangrando.

Coração independente,
Eu não te acompanho mais...
Pára! 
Deixa de bater.
Se não sabes aonde vais...

Por que teimas em correr?
Eu não te acompanho mais.

CARTA DE SOPHIA

29 de Julho.
26 anos após a morte de Sophia.

Todas as vezes que eu escutava as pessoas falarem sobre Deus, eu ficava triste. Ali eu saberia que eu não iria para o céu. Pois o Deus que os homens mencionam, é um Deus que ama somente as pessoas perfeitas. – Perfeita eu não sou, nunca fui. – Mas depois da morte, eu soube: Deus não quer que você seja perfeito, Ele quer que você Não seja uma pessoa má. E se você for ruim, Ele não quer que você queira ser.
Enquanto Sophia, conheci um homem que se julgava Deus. E, não me engano, ele não era o único. Por várias vezes vi aquele homem apontar o dedo para mim e afirmar que eu estava errada. De certo, algumas vezes eu estive errada. Mas o que faria daquele homem alguém para me julgar? Ele não me criou, ele não me conheceu, ele não soube o que se passou dentro de mim. Ele não era o meu Pai. – Deus era, é, e sempre será o Meu Pai.
Todas as vezes que eu errei, Deus esperava que eu me arrependesse. Ele não queria que eu tomasse atitudes ruins e ficasse feliz por aquilo. Algumas vezes, meu arrependimento foi tardio. Mas quando é tarde? Tarde demais só depois da morte. – Então, vou reformular: Algumas vezes, eu demorei para reconhecer minhas atitudes erradas, mas quando o fiz, Deus estava lá para me perdoar.
Enquanto éramos crianças e aprontávamos algumas traquinagens, os nossos pais nos recriminavam, mas Não deixavam de serem nossos pais. Não é mesmo? Deus é assim. Ele nunca deixará de ser Vosso Pai, a menos que você faça esta escolha.
A vida me deu oportunidades de escolhas, houve Deus em cada uma delas. Não importasse se eu escolhera a opção errada, Deus estaria lá, segurando a minha mão. É bom lembrar que enquanto humana, eu nunca pude esperar que Deus escolhesse o que iria acontecer em minha vida ou não. Ali, tudo dependeria de mim.
Talvez seja este o erro: As pessoas acreditam que Deus escolherá por elas. Mas não é assim. Deus lhe deu uma vida, Ele não poderá comandá-la. Ele lhe deu oportunidade de escolha. Ele não poderá interferir nas demais. Tudo depende de você. Com a única diferença de que, Ele não lhe abandonará em momento algum.
Você irá aprender com seus próprios passos. Cada escolha, uma renuncia. Em momento algum poderás ter tudo que desejas. Mas, lembre-se, de tudo aquilo que você irá conquistar, você só levará contigo as coisas que puderem estar dentro de você.
Ainda sendo Sophia, eu conheci pessoas que só acreditavam naquilo que poderiam ver. Você não poderá ver Deus, assim como tu não poderás ver o teu próprio coração. Então, como não vês os teus sentimentos e tu ainda podes senti-los. Tu não vês Deus, mas poderá ter fé e poderá senti-Lo ao teu lado.
Pois também conheci pessoas que após sofrerem muito e procurarem Deus, mudaram de opinião e começaram a acreditar mesmo sem ver. – Se tu tens fé do tamanho de uma semente, é o suficiente para que esta semente brote e dê frutos.
Hoje, eu sou Anjo. Anjo Sophia. Não sou mulher, nem sou homem. Sou Filho de Deus. Hoje, parece-me ironia dizer que morri. Eu não morri. Eu comecei a viver. Depois que se deixa de ser humano e que se encontra Deus é que nós encontramos a vida. Esta passagem pela qual passei aí, é apenas uma prova de sabedoria. Se tu enfrenta todos os males e conservas o teu coração puro, é sinal de que o teu coração foi realmente moldado ao de Deus.

Deus não lhe quer perfeito, ele só Não quer que tu sejas uma pessoa má.

Porém, não acostume-se nesta ideia. Não queira ser errado. Mantenha o coração limpo e lembre-se do amor de Deus. Enquanto Sophia, eu desacreditei por algumas vezes. Perdi a fé. Me afastei. E isto fez com que Deus ficasse triste. Afinal, quem não se sente triste quando alguém que amamos se afasta e desconfia de nós? Nós fomos feitos a semelhança Dele. Acredite! Ele existe. Ele lhe ama. Não desanime! Se, por ventura, acontecer... Tudo bem. Todo mundo precisa de um tempo. E o que podemos esperar de você? Você é apenas um humano. – Mas acorde. Volte. Reencontre a sua fé. Pois o amor de Deus é: mesmo sabendo que você errou hoje, dar uma nova chance para tentar concertar amanhã. – O amor de Deus é sempre um novo começo. Não há finais.

domingo, agosto 21, 2011

A.

“Há pessoas que fazem de tudo para provar aos outros que são capazes. Estas, perdem a capacidade de amar a si mesmas e de fazer aquilo que lhes apetece. Não possuem gosto próprio e nem vontades próprias. Não se amam. Vivem a vida que os outros desejam que elas vivam. Se perdem. São perdedoras.
E há outro tipo de gente que, perdem a vontade de querer provar algo à alguém. Errado também. Perdedoras também. Porque estas não irão querer conquistar mais nada. – Eu acho que estou entrando no segundo grupo. Mas, afinal, o que é perder?”

(A.M.D.M., 2010)

A morte de Sophia.

“Deixe-me lhe contar algo, Sophia: Todas as vezes que, meu velho pai, dissera que aquela mulher não era para mim, eu pensava lá no fundo que ele era um homem magoado com o amor. Que nunca soube admitir a perda da amada. E que foi enganado. – Mas depois que a minha mulher me deixou, que um ano se passou, e que em meu aniversário não recebi nenhuma carta... Eu soube: Quando uma pessoa fala que lhe ama e lhe trai, ela não o ama. Ela não ama nem a si mesma. Pois ela não tem medo de lhe perder, não tem medo de sofrer, – para ela tanto faz.”

Eram dois apaixonados por um mundo que não nos pertencia. Aquele amor cheio de doçura era incrivelmente descrito nas palavras de Sophia. Ela dominava a palavra “nós” tanto quanto dominava o sorriso do amado. Tinha nela um perfume de encanto e nele uma energia de se tornar alguém. – Eram únicos. – Eram dois apaixonados. E que outro amor poderia ser igual ao deles?
Nenhum. Pois todo amor é um amor só. Nada, nem os erros de outras pessoas, poderiam ser iguais aos deles. A história era somente deles. A vida era somente deles. Tudo dependia somente dos dois. E o erro de Caetano foi achar que o seu futuro com Sophia seria igual ao seu passado.
Demasiadamente ciumento e ainda com a pouca seriedade de criança, Caetano era só um rapaz. Enquanto Sophia, ao longo de seus vinte anos, já era uma mulher. Pois as moças amadurecem tão cedo, e os rapazes pendem tanto para virarem homens, não é mesmo? – Tendo a mesma idade de Sophia, Caetano era mais jovem. E se fosse dez anos mais velho que ela, continuaria sendo mais jovem. Mulheres são mentalmente dez anos adiantadas.
Às vezes eu acho que foi Deus pregando alguma travessura na vida de Caetano para que ele aprendesse. Outras vezes, acho que foi Deus livrando Sophia de um mal que não teria volta. Ou, sei lá, fosse apenas destino.
Sophia doaria sua vida por Caetano, e Caetano talvez fizesse muito por ela. Mas ainda pensara na ex-namorada como a mulher de sua vida. A ex-namorada que o traiu e o deixou, e que ele nem ao menos teve a decência de falar sobre à Sophia. Os homens têm este problema: não saber admitir aquilo que dói. Às vezes, a verdade dita já de inicio, poupa-nos muitas mentiras.
Mas quem sabe o amor que ele dedicara a Sophia fosse uma mentira... Quem sabe, Sophia, estivesse ali apenas para fazê-lo esquecer. O problema é justamente este, não é? Nós nos achamos especiais na vida de quem amamos, mas quem nos garante que não estamos servindo apenas para tapar buracos?
E quantos buracos o coração de Caetano tinha! Ele sofrera algo desde a infância. Algo que não era tão real, não foi nenhum acidente e nenhuma morte.  – Caetano sofrera de solidão. – Ele tinha pai, mãe, e irmãos que o amavam. Tinha amigos. Mas era "só". – Entendam que, a solidão causada pelo destino é suportável. Mas a solidão que vem de nós é um vazio que se carrega. – Há pessoas que nascem para serem "só". Nascem para afastar quem os ama delas. Há pessoas que, simplesmente, não conseguem amar. Pois são sozinhas. Daí quando amam, amam errado. Fazem errado. Perdem outra vez.
Às vezes, acho que Caetano sente falta de Sophia. Acho que ele chora e lembra de suas palavras de esperança quando algo dá errado em sua vida, e então sente saudade. Mas nada a trará de volta. O coração pode sofrer várias batidas, acontecerem rachaduras, e ele resistir. Mas quando o coração se quebra, ele se perde, ele se vai embora... E mesmo que ainda restem alguns cacos com o nome do amado, o coração de Sophia nunca voltará a bater por ele.
Porque Caetano tinha todos os motivos para ter raiva e querer ser livre. Ele só não tinha motivos para magoar Sophia. Porque foram vinte e oito meses de doçura e três meses de guerra. Três meses que acabaram com aquilo que poderia ser uma vida. Três meses que desmentiram os vinte e oito.
O que me faz crer que a magia está somente nos livros. O que me faz amar somente as palavras. E, momentaneamente, me faz guardá-las somente para mim. Chega um ponto em que você desiste de tentar convencer as pessoas de que tudo irá dar certo, pois você mesma sabe que nem tudo irá. Que todos devem sofrer e que talvez esta seja a hora. E que sofrer não significa desistir, mas ninguém sabe consolar a dor. A dor não se consola, apenas se conforta.
Eu queria poder secar as lágrimas de Sophia no dia em que Caetano a deixou. Ela acreditara que aqueles três meses de traições e humilhações eram temporários e logo o Caetano que ela conhecera voltaria. Pois não eram, pequena Sophia. Aqueles três meses eram os meses de revelações. Ali, Caetano mostraria ser o grande amor de sua vida ou não. Pois quem jura amor, jura: “Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até que a morte os separe”. Mesmo que seja por culpa, quem ama não foge em meio a tristeza. Quem ama não vai embora. Não desaparece. Aquilo que é verdadeiro permanece,  – mesmo doendo.
Sophia, eu queria poder lhe dizer que Caetano chorou frente ao teu caixão, mas que as lágrimas eram de culpa. A morte não foi o teu descanso. Morrer de amor não irá te livrar do sofrimento. Depois daqui, o acerto de contas é com Deus. E ele não irá te perdoar por quebrar o juramento. Você também jurou “Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até a morte os separe”. O juramento ali não foi com o teu amado, foi com Deus.  –  Por que tu abandonaste Deus?

*  *  *

O casamento não é brincadeira. Ali, você oficializa um juramento com Deus. Ao jurar "na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até que a morte nos separe" você estará jurando isto para Deus. Se a outra pessoa quebrar o juramento, não significa que você deverá fazer o mesmo. Repito: Casamento não é brincadeira. – Você só vive uma vez. Tarde demais só depois da morte. Não seja Caetano. Você ainda pode pedir desculpas.

domingo, agosto 07, 2011

Já dizia o profeta.

GENTILEZA
Anos 90.
Marisa Monte

Apagaram tudo.
Pintaram tudo de cinza.
A palavra no muro,
Ficou coberta de tinta.

Apagaram tudo.
Pintaram tudo de cinza.
Só ficou no muro,
Tristeza e tinta fresca.

Nós que passamos apressados,
Pelas ruas da cidade.
Merecemos ler as letras,
E as palavras de Gentileza.

Por isso eu pergunto,
À você no mundo.
Se é mais inteligente,
O livro ou a sabedoria?

O mundo é uma escola.
A vida é o circo.
Amor, palavra que liberta.
Já dizia o Profeta.


"Gentileza gera gentileza." (José Datrino, mais conhecido como profeta Gentileza).
Gentileza foi homenageado na música pelo compositor Gonzaguinha, nos anos 1980; e também pela cantora Marisa Monte, nos anos 1990. As duas canções levam o nome Gentileza.

ALL YOU NEED IS.

Quando se deixa de amar, vai-se perdendo a pureza. Mas quando é que se deixa de amar? Quando os sonhos se vão, a memória não traz, os ouvidos não pedem, a pele não arrepia saudade, a comida salgada não tem gosto doce, a pimenta começa a arder, o verão é apenas uma estação e o inverno rima com tristeza. Deixa-se de amar quando a alma fica tranqüila, exageradamente tranqüila. Vazia.
O amor é isso. É enriquecimento. O ser-humano pode se negar muitas vezes, mas é pelo amor que ele vive. É por este preenchimento interno de carinho, atenção, bondade, esperança. O amor é que nos faz sonhar, nos faz criar planos, nos faz enxergar as coisas mais belas do que elas são. O amor é poesia. É coragem, lealdade, mãos fechadas, olhos atentos, suspiros, lembranças... Amor é fundamental.
Todos vivem pelo amor da mãe, do pai, do irmão, do amigo, da namorada. É assim: amor. Eu quero amor! – Quem nunca sentiu-se desamado quando a mãe lhe abandonou por alguns minutos enquanto criança? Quem nunca sentiu-se sem amor quando o namorado traiu? Quem nunca pensou o amor não existir quando decepção?
Porque o amor nos causa orgulho. Orgulho de nós mesmos. “Eu me orgulho porque sou amado”. E qualquer gesto inocente fere este orgulho, dói, machuca e mata. Mas o amor é renovação. É uma nova chance. Não tem egoísmos e há perdão, mesmo que tardio.
Percebam que, ao andar pela rua e esbarrar num estranho, logo nos desculpamos. Mas em casa, ao esbarrar de leve na esposa, o marido raramente se desculpa. Porque o amor também causa costumes. E é este o erro: nos acostumar. Nos acostumar com o pouco, com o estranho, com a dor, com a quietude, com não se fazer nada. Nos acostumar com o erro.
Amor também é aprender. Amor também é gentileza. É aquele casal que está casado há 80 anos e, o segredo disto é, sentar todas as noites e pedir “Me perdoa?”. É sentar todas as noites e dizer: “Obrigada”. – Me perdoa mesmo que eu não tenha errado, e obrigada por continuar aqui.
O amor é um mistério, embora haja milhões de definições. Pois eu amo de uma maneira, e tu amas de outra. Cada um sabe sentir de um jeito diferente este tal “amor”. Ele pode nascer numa troca de olhares ou logo que saímos da barriga da mamãe. Ele pode ser pela pessoa da sua vida ou por sua família. Ele pode acontecer por várias pessoas ou por apenas aquelas pessoas. O importante é que ele exista.
– "Mesmo que ele tenha me deixado, eu ainda tenho o amor de meus pais, amigos e irmão. E isto não muda a minha vontade de amar". O amor me habita. Ele me encontrou. Fez de meu corpo a sua casa. Faz de mim uma pessoa melhor. Me faz querer crescer e provar que este amor é real. Ele me sufoca, às vezes. Mas eu o reinvento. E então, quando noto, já me habita de outra forma.
O amor me faz mais bonita. Traz vontade de olhar-me no espelho e vestir aquela roupa nova com sapatos que combinam. – O amor é entusiasmo. É uma força que empurra a gente. São pernas mais velozes, são sentidos mais agudos. O amor é uma raiva, um fervor, um desejo maior que brota dentro de nós e diz: “Vai!”.
Porque a vida, sem amor, não é vida. É apenas uma passagem... O amor são gotinhas que caem da chuva e molham nosso rosto quando o calor é insuportável. É um refresco. Um consolo. É a esposa esperando o marido ao final do dia cheia de amor para dar, para esquecer os problemas, para falar sobre isto e achar uma solução.
O amor é colo, ombro, mãos que secam as lágrimas.
E, se um dia, por ventura, desacreditar neste amor... Lembre-se de que ele é como a chuva que, não poderia cair em todos os momentos, pois assim não haveria sol. – E nós também precisamos do sol. – É como o vento que não se pode ver, apenas sentir. É como a Bíblia que guardamos na primeira gaveta: não a lemos sempre, mas ela está ali.


O amor está ali, aqui, em todos os lugares.
Acredite!

E, a Bíblia, é o livro que não se pode deixar de ler. Não é mesmo? Há tantas palavras belas e ricas no Livro Sagrado... Ah! O amor!