domingo, agosto 21, 2011

A morte de Sophia.

“Deixe-me lhe contar algo, Sophia: Todas as vezes que, meu velho pai, dissera que aquela mulher não era para mim, eu pensava lá no fundo que ele era um homem magoado com o amor. Que nunca soube admitir a perda da amada. E que foi enganado. – Mas depois que a minha mulher me deixou, que um ano se passou, e que em meu aniversário não recebi nenhuma carta... Eu soube: Quando uma pessoa fala que lhe ama e lhe trai, ela não o ama. Ela não ama nem a si mesma. Pois ela não tem medo de lhe perder, não tem medo de sofrer, – para ela tanto faz.”

Eram dois apaixonados por um mundo que não nos pertencia. Aquele amor cheio de doçura era incrivelmente descrito nas palavras de Sophia. Ela dominava a palavra “nós” tanto quanto dominava o sorriso do amado. Tinha nela um perfume de encanto e nele uma energia de se tornar alguém. – Eram únicos. – Eram dois apaixonados. E que outro amor poderia ser igual ao deles?
Nenhum. Pois todo amor é um amor só. Nada, nem os erros de outras pessoas, poderiam ser iguais aos deles. A história era somente deles. A vida era somente deles. Tudo dependia somente dos dois. E o erro de Caetano foi achar que o seu futuro com Sophia seria igual ao seu passado.
Demasiadamente ciumento e ainda com a pouca seriedade de criança, Caetano era só um rapaz. Enquanto Sophia, ao longo de seus vinte anos, já era uma mulher. Pois as moças amadurecem tão cedo, e os rapazes pendem tanto para virarem homens, não é mesmo? – Tendo a mesma idade de Sophia, Caetano era mais jovem. E se fosse dez anos mais velho que ela, continuaria sendo mais jovem. Mulheres são mentalmente dez anos adiantadas.
Às vezes eu acho que foi Deus pregando alguma travessura na vida de Caetano para que ele aprendesse. Outras vezes, acho que foi Deus livrando Sophia de um mal que não teria volta. Ou, sei lá, fosse apenas destino.
Sophia doaria sua vida por Caetano, e Caetano talvez fizesse muito por ela. Mas ainda pensara na ex-namorada como a mulher de sua vida. A ex-namorada que o traiu e o deixou, e que ele nem ao menos teve a decência de falar sobre à Sophia. Os homens têm este problema: não saber admitir aquilo que dói. Às vezes, a verdade dita já de inicio, poupa-nos muitas mentiras.
Mas quem sabe o amor que ele dedicara a Sophia fosse uma mentira... Quem sabe, Sophia, estivesse ali apenas para fazê-lo esquecer. O problema é justamente este, não é? Nós nos achamos especiais na vida de quem amamos, mas quem nos garante que não estamos servindo apenas para tapar buracos?
E quantos buracos o coração de Caetano tinha! Ele sofrera algo desde a infância. Algo que não era tão real, não foi nenhum acidente e nenhuma morte.  – Caetano sofrera de solidão. – Ele tinha pai, mãe, e irmãos que o amavam. Tinha amigos. Mas era "só". – Entendam que, a solidão causada pelo destino é suportável. Mas a solidão que vem de nós é um vazio que se carrega. – Há pessoas que nascem para serem "só". Nascem para afastar quem os ama delas. Há pessoas que, simplesmente, não conseguem amar. Pois são sozinhas. Daí quando amam, amam errado. Fazem errado. Perdem outra vez.
Às vezes, acho que Caetano sente falta de Sophia. Acho que ele chora e lembra de suas palavras de esperança quando algo dá errado em sua vida, e então sente saudade. Mas nada a trará de volta. O coração pode sofrer várias batidas, acontecerem rachaduras, e ele resistir. Mas quando o coração se quebra, ele se perde, ele se vai embora... E mesmo que ainda restem alguns cacos com o nome do amado, o coração de Sophia nunca voltará a bater por ele.
Porque Caetano tinha todos os motivos para ter raiva e querer ser livre. Ele só não tinha motivos para magoar Sophia. Porque foram vinte e oito meses de doçura e três meses de guerra. Três meses que acabaram com aquilo que poderia ser uma vida. Três meses que desmentiram os vinte e oito.
O que me faz crer que a magia está somente nos livros. O que me faz amar somente as palavras. E, momentaneamente, me faz guardá-las somente para mim. Chega um ponto em que você desiste de tentar convencer as pessoas de que tudo irá dar certo, pois você mesma sabe que nem tudo irá. Que todos devem sofrer e que talvez esta seja a hora. E que sofrer não significa desistir, mas ninguém sabe consolar a dor. A dor não se consola, apenas se conforta.
Eu queria poder secar as lágrimas de Sophia no dia em que Caetano a deixou. Ela acreditara que aqueles três meses de traições e humilhações eram temporários e logo o Caetano que ela conhecera voltaria. Pois não eram, pequena Sophia. Aqueles três meses eram os meses de revelações. Ali, Caetano mostraria ser o grande amor de sua vida ou não. Pois quem jura amor, jura: “Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até que a morte os separe”. Mesmo que seja por culpa, quem ama não foge em meio a tristeza. Quem ama não vai embora. Não desaparece. Aquilo que é verdadeiro permanece,  – mesmo doendo.
Sophia, eu queria poder lhe dizer que Caetano chorou frente ao teu caixão, mas que as lágrimas eram de culpa. A morte não foi o teu descanso. Morrer de amor não irá te livrar do sofrimento. Depois daqui, o acerto de contas é com Deus. E ele não irá te perdoar por quebrar o juramento. Você também jurou “Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até a morte os separe”. O juramento ali não foi com o teu amado, foi com Deus.  –  Por que tu abandonaste Deus?

*  *  *

O casamento não é brincadeira. Ali, você oficializa um juramento com Deus. Ao jurar "na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até que a morte nos separe" você estará jurando isto para Deus. Se a outra pessoa quebrar o juramento, não significa que você deverá fazer o mesmo. Repito: Casamento não é brincadeira. – Você só vive uma vez. Tarde demais só depois da morte. Não seja Caetano. Você ainda pode pedir desculpas.

Um comentário:

  1. Sua habilidade com a escrita me encanta. São tantas estórias em meio a uma só que o leitor se perde e se encontra diversas vezes. De fato, nossas solidões (na verdade, duvido que existe um plural para essa palavra, devo estar inventando, quem iria precisar de mais do que uma, não é?) são tão diferentes umas das outras... muitas vezes impomos ao outro a solidão que nos cabe, um fardo que ninguém deveria carregar além de nós mesmos. E quando o outro falha, nos perdemos como se a culpa fosse dele, mas é nossa. Toda nossa. Parabéns pelo teu talento. E obrigado por partilhá-lo conosco. :)

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