quinta-feira, setembro 29, 2011

A.



"O que quer que você faça na vida, será insignificante. Mas é muito importante que você o faça porque ninguém mais o fará. Como quando alguém entra na sua vida, e metade de você diz que você não está preparado. Mas a outra metade diz: faça que ela seja sua para sempre."

[REMEMBER ME]

EU FICO COM AS MOEDAS

[...] caso você se vá.





O carro de som anunciara a morte do velho Kall. Os motivos da morte não nos interessavam. Eu e Renato só queríamos saber de uma coisa... – O velório foi simples. Só haviam pessoas que moravam naquela mesma rua. O velho solitário não possuía família. Enquanto minha mãe rezava ao pé do caixão, eu observava o cadáver. Frio, branco, mas parecia dormir. Arrisquei tocá-lo para ver se estava mesmo morto. E estava. Mesmo assim, a idéia de que o velho levantaria do caixão não saíra de minha cabeça, e eu sorria. Gargalhara em frente ao caixão do velho Kally. Ficara imaginando como as rezadeiras da cidade reagiriam com o despertar de um defunto velho.
Assim que o enterro acabou, encontrei Renato na esquina do cemitério. Fomos direto à casa do velho colecionador de moedas. No caminho, planejávamos tudo o que faríamos com a nossa coleção. “Vou vender tudinho”, disse à Renato. E ficara sonhando com todas as bolas de futebol que eu compraria com a venda das moedas... Renato dizia que continuaria a coleção. Eu achava uma bobeira aquela história, mas a parte de Renato era dele mesmo. “Faça o que quiser”, – dizia à ele, “só não morra igual ao velho. Construa família.”.
Ao chegar à casa, tudo estava do mesmo jeito que o velho havia deixado. Silêncio, solidão e calmaria. Renato achara assustador, já eu gostara da idéia de não se ter com quem se preocupar. Descemos até o porão, e lá estava a nossa coleção de moedas. Brilhantes, lindas, incontestavelmente valiosas.
– Quanto será que há aqui?
– Muito, Renato. Muito. Muito!
Meus olhos brilhavam tanto quanto os de Renato. Eu era uma criança ambiciosa. É claro que, frente aquilo, toda criança ficara admirada. Mas eu não. Eu sentia algo mais que admiração. Eu sentira amor por tudo aquilo. Amor por cada moedinha que o velho juntou com tanto esforço. Amor por cada coisa que eu faria ao vender a minha parte.
– Sua parte? – perguntou Renato. – Isto aqui tudo é do velho. Não é nosso. Tá errado, Bino! Vamos embora... Isso vai criar problemas para nós.
– Negativo. Isso é nosso, sim! Ninguém sabia dessa coleção. E o velho não tinha família... Larga de ser medroso!
Apenas nós dois sabíamos daquela coleção. E sabíamos porque o velho nos fez buscar algumas moedas que ele havia comprado com o Relojoeiro da Rua XXI. Lembro-me de como fiquei quando vi, pela primeira vez, a coleção do velho Kall. Como fiquei, não. Lembro-me o que senti. Lembro-me o que pensei: “Isto tudo será meu”.
De repente, Renato chamara minha atenção quando abrira um baú com um mapa. “ – Bino, olha isto aqui!”. O que é?, pensei. E só depois de analisar bem foi que me deparei com um mapa que levara ao Carrossel dos Sonhos.
– O Carrossel que o velho falou! Lembra? – perguntou Renato.
É claro que eu lembrava. E é claro que meus olhos brilhavam tanto quanto brilharam ao ver as moedas. O Carrossel dos Sonhos era o brinquedo mais querido pelas crianças e adultos. Você entrava, dava uma volta, e tudo o que imaginara enquanto estava ali dentro com o Carrossel girando, se realizaria. Era um Carrossel único. Mágico.

– Não podemos levar as moedas conosco.
Então fomos sem elas. Sim. Nós fomos atrás do Carrossel.

O Carrossel estava na Cidade Que Ninguém Encontra. O caminho era longo, levamos bastante comida. Embora a comida tenha acabado antes da metade do caminho. [...] A estrada nos trouxe surpresas arriscadas, temidas e geniosas. O palhaço que soltara fogo da boca, o dragão que falara sobre a princesa que o deixara, o peixe que andara na terra, o extraterrestre que veio do Sol, o exame médico de Hitler, a cabeça raspada do Skinhead gay, a emocionada Julieta das sombras, o tolo Willian que escrevera seus romances, Darwin que soletrava números, cartas que jogavam pôquer de humanos, labirinto das três viúvas, e finalmente a princesa que era bruxa. Foi terrível soltar a madrasta da torre! – Contos de fadas eram mais legais quando o mundo não estava de cabeça para baixo.

Andamos a metade do mundo. E chegamos ao Carrossel.

Era lindo. Brilhara tanto quanto a Torre de Paris. Haviam homenzinhos que pareciam fadas voando sobre. Muita música, algodão doce, roda gigante ao fundo. E um senhor com um chapéu enorme cuidando da porta. O senhor tinha sorriso de Coringa e olhos de Chapeleiro, só que a cor dos olhos era azul-marinho. Branco, muito branco, com marcas pretas desenhadas no corpo. Paletó verde e não tinha cabelo. Calça amarela e pantufas de pena de avestruz. O Senhor Bizarro deu-me medo.

– O que fazem aqui?
– Queremos entrar.
– E vão sonhar com o quê?

Renato entrou. Eu fiquei parado.

Eu era só um menino, que não tinha sonhos. Talvez tivesse, mas nenhum plano. Houvessem estrelas no céu e estaria bom para mim. A única coisa que sempre quis eram as moedas, porque me despertavam amor. Era a maior riqueza de minha vida. E eu houvera as deixado. Deixar um amor é imperdoável, embora o mundo seja grande e cheio de coisas lindas. – O que eu pensara quando o fiz?
Renato me chamara: “Venha, venha!”. Eu não posso Renato, desculpe. Há um amor que fica aqui dentro. São moedas de ouro. São cobiças preciosas. São moedinhas pequenas que me despertam grandes sonhos. Eu não posso sonhar sem elas.

– Não vai entrar? – perguntou o Senhor Bizarro.
– Não. Eu preciso de amor para sonhar.

segunda-feira, setembro 26, 2011

CHAMADA

– Presente.



Chegara atrasado todos os dias. Abrira a porta, olhara a sala meio por cima, entrara e começara a falar. Falar, falar, falar, falar, falar e falar. Eduardo nunca tivera trava na língua. Quando percebera que eu ficara irritada por tirar a atenção dos alunos, ele me olhara com cara de quem se desculpara e dizia: “Desculpe, professora. Prometo não fazer de novo.”. – Eu nunca conseguira dizer não à ele.
Havia ali olhos de criança, graça, beleza e domínio. Era uma criança que se destacara, mas que gostaria de se manter pelos cantos. Disfarçara suas dores com raiva e leveza, mas quem o conhecera sempre soube de sua sensibilidade. Deixava-me louca com suas traquinagens, embora muitas vezes me despertasse carinho. – Foi o meu melhor aluno.
O meu aluno de dez anos que muitas vezes soube ter mais idade do que eu. Herdara do pai o gosto por rock. Fã dos Beatles, não abrira mão do cabelo estilo Paul McCartney. Ganhara uma jaqueta de couro do tio caminhoneiro, desfilara pelos corredores da escola, segurando firme a jaqueta e sentindo-se no céu. Aconteceram momentos em que fiquei sentada observando Eduardo, e teci sonhos impossíveis, o vi voar. – Ele me lembrara personagens dos meus melhores filmes.
Tornou-se muitas vezes o meu próprio personagem. Disfarcei fatos, inventei palavras, produzi Eduardo para que ninguém soubesse. O guardei dentro das melhores fábulas, o perdi nos piores parágrafos, o encantei com alguns suspiros. Eu era professora, aluna, e sentia-me mãe. Aquele garoto era meu. Eu o amara de maneira bonita: – o educara, o protegera, escutara suas dores e fizera com que ele pudesse sorrir.
Era o menino Peter Pan que nunca crescera. Era a minha escuta, a minha alma, os meus sonhos. Olhara Eduardo e soubera muito do que fui, do que me tornaria, do que gostaria de ser. 
Era tomada por uma dor todas as vezes que ele se afastara ou que ele me atingira, mas a dor maior corria o peito quando eu tinha de adverte-lo. Muitas vezes vi Eduardo olhar com fé o horizonte, – quem era eu para julgar aqueles sonhos?
Eu era a professora, que passara a ser aluna. A estranha deslumbrada. O “ninguém” da vida de Eduardo. Era a fome, a sede, a desilusão, o caminho, o sorriso, o incerto. Eu era quem falara sobre os problemas da vida, os erros do ser-humano, a dificuldade do verbo ser, as mentiras que as pessoas contam. Eu era a palavra doce que poderia se tornar amarga. O passado, o futuro, o presente. Eduardo era o meu presente.
Aqueles presentes que vem numa embalagem com um laço vermelho enorme e lindo. Era assim que eu me sentira todas as vezes que estava frente dele: – sendo presenteada. Sentia-me machucada todas as vezes que percebera que eu não poderia ser um presente à ele também. Mas eu entendera que, Eduardo era as minhas palavras. Enquanto ele, ele teria uma vida inteira pela frente... As palavras nos enriquecem, mas quem enriquece as palavras?
Eram dados sem volta. Dois números seis. Uma dúzia de músicas e estrofes. Dois personagens. Um amor que não era amor. Uma história linda. Algumas reticências e várias virgulas. – Eu sempre tive medo do ponto final.
Sabia que uma hora ele iria embora, mas temia as pessoas que iriam tirá-lo de mim. Fiz planos incabíveis de fazê-lo meu. Fugir, roubar, matar. Que fosse! Meu personagem principal não poderia ir embora. Se ele fosse, era como se eu perdesse os parágrafos, não houvesse mais travessões... Quem me mostraria o caminho? Onde eu procuraria os verbos? Que verbo? Verbo amar.
Tu o amas. Ele o ama. Nós o amamos. Vós o ama. Eles o amam. – Eu o amo. – Eu amo o personagem que pegara borboleta com um chapéu, que jogara Alice no buraco, que adoçara o café do monstro, que fugira de casa após uma briga, que riu da cara do presidente, que enlouqueceu a cozinheira com tanta música, que fritou o ovo com o avestruz dentro, que não teve limites, que morreu, que ressuscitou, que teve vários nomes, que dançou, que cresceu, que mudou. Eu amara Eduardo que mudou.
Amara o nome, os erros, os ditos, os pronomes, a voz, a digestão, as lágrimas, os sorrisos, a mágica, as mentiras. O amara por inteiro. Pois foi assim que ele me ensinou: O amor não é só o bom, não é só o que completa, não é só o que nós queremos. Deve-se amar o todo. Certo ou errado. Que seja amor!
Que seja vivo, que seja errado, que seja água, que seja exagero, que seja romântico, que seja explosivo, paldoso, calmo, bonito, orgulhoso, chato, bobo, incalculável, desregrado, descritível, comum, irracional. Que seja nosso.
Como amor de professor, de pai, ou mãe. Amor de quem protege. De quem vive. De quem quer bem. Amor de quem faz feliz, e principalmente, amor de quem é feliz. Porque eu sou feliz com Eduardo.


– Onde eu assino? – perguntou Alice.
– Na gaveta. – respondeu o chapeleiro.
– Gaveta?
– Aquela que abre o coração.

A.

RETRATO BRANCO E PRETO
Composição: Tom Jobim e Chico Buarque

Já conheço os passos dessa estrada,
Sei que não vai dar em nada,
Seus segredos sei de cor.
Já conheço as pedras do caminho,
E sei também que ali sozinho,
Eu vou ficar tanto pior.
E o que é que eu posso contra o encanto?
Desse amor que eu nego tanto.
Evito tanto e que, no entanto,
Volta sempre a enfeitiçar...
Com seus mesmos tristes, velhos fatos,
Que num álbum de retratos,
Eu teimo em colecionar.

Lá vou eu de novo como um tolo,
Procurar o desconsolo,
Que cansei de conhecer.
Novos dias tristes, noites claras,
Versos, cartas, minha cara.
Ainda volto a lhe escrever...
Pra lhe dizer que isso é pecado,
Eu trago o peito tão marcado,
De lembranças do passado e você sabe a razão.
Vou colecionar mais um soneto,
Outro retrato em branco e preto,
A maltratar meu coração.

domingo, setembro 18, 2011

A.

BABY, YOU'RE A RICH MAN
(1967)
The Beatles
Composição: John Lennon e Paul McCartney.


How does it feel to be,
One of the beautiful people?
Now that you know who you are,
What do you want to be?
And have you travelled very far?
Far as the eye can see.
How does it feel to be,
One of the beautiful people?
How often have you been there?
Often enough to know.
What did you see, when you were there?
Nothing that doesn't show.

You keep all your money in a big brown bag, inside a zoo.
What a thing to do.

How does it feel to be,
One of the beautiful people?
Tuned to A natural E.
Happy to be that way.
Now that you've found another key.
What are you going to play?

Baby, you're a rich man,
Baby, you're a rich man.
Baby, you're a rich man too.

Baby, you're a rich man...

80's love.

“E depois de aposentado, resolvi cruzar o mundo, procurar um amor. – E achei. Ah!”

Depois dos setenta e cinco, temos poucas lembranças de nossa infância. Mas eu confesso que sou cheio delas. Lembro-me do dia em que roubei uma rosquinha, porque estava com muita fome e não havia comida em casa. Até que minha mãe visse, aquilo me parecia um grande feito. Sabe aquele sentimento de trabalho cumprido? Pois bem, aquela satisfação me invadiu até que minha mãe deu um tapa em minha mão, tirou a rosquinha do meu bolso, e disse: “Grandes homens não fazem isso”. Foi então que eu decidi ser um grande homem.
Aquela foi a grande decisão de minha vida. Eu vivera numa geração e numa classe social em que as crianças decidiam se iriam suar duro para conseguir o que queriam, ou se a vida delas seria fácil, mas não obteriam nada. – E foi assim que eu consegui meu primeiro emprego, jardineiro da Dona Margarida. “A velha com nome de flor”, era como eu a chamara. Dona Margarida, apesar de muito resmungona, foi uma grande mulher em minha vida. Ela me ensinara tudo sobre as flores de seu jardim, e foi mais longe. Quando percebeu que eu era um garoto esperto, resolveu me ensinar a tocar piano. Depois começou a me dar livros para que eu aperfeiçoasse a minha leitura. E logo vieram as aulas de teologia, de etiqueta, e a autorização para que eu usasse a piscina de sua casa e treinasse natação para concorrer nos campeonatos da escola. [...] Resumindo, Dona Margarida foi mais que a minha primeira empregadora, ela foi como uma madrinha, uma segunda mãe.
Também foi a inspiração para que quando eu terminasse o colegial, trabalhasse o dia inteiro e fizesse uma faculdade. Pois fiz. Formei-me em Direito. Na faculdade, arranjei bons amigos. Uns já se foram, outros acabei perdendo o contato. Outros estão longe de mim, mas sempre que posso, os visito. E todos estão guardados na memória e nas fotografias.
Após a faculdade, entrei no meu primeiro escritório de advocacia. Eu era aquele jovem que não tinha sequer um tostão no bolso para comprar um terno, e por isso usava aquele terno velho que o meu pai comprou para se casar com a minha mãe. Mas isso não durou muito tempo. Logo que ganhei meu primeiro salário, dei um jeito de arrumar meu guarda-roupa. [...]
Certo dia, coloquei na cabeça que me tornaria juiz. E então comecei a estudar para isto. Trabalhava de dia, chegava em casa de noite e estudava. Estudava nos finais de semana, no horário de almoço, no banho... Embora não levasse os livros para todos os lugares, mantinha minha cabeça nos estudos e assim ficara memorizando. – Primeiro concurso para juiz, não passei. – Estudei em dobro. Passei na terceira tentativa.
Tornei-me juiz e aquilo se tornou a minha vida. Eu vivera para o trabalho e eu gostara daquilo. Eu procurei ser um juiz justo, um cara honesto, um grande homem. Como aprendera com Dona Margarida, mantive sempre a minha vida nas mãos de Deus. Todo o meu trabalho, sempre, teve a proteção daquele que nunca me abandonara. E assim, exerci minha profissão com muita calma e nunca tive grandes problemas. Digo, nunca enfrentei tentativas de seqüestro ou assassinato, como outros amigos juízes sofreram.
Mas eu sempre fui sozinho. E a dor de estar sozinho, só foi insuportável quando recebi a notícia de que estava na hora de me aposentar. Nunca me casei. Não tive filhos, nem netos, e estava ficando velho.
No dia da aposentadoria, cheguei em casa, sentei no sofá e comecei a relembrar tudo que havia passado em minha vida. Da pobreza, aos grandes sacrifícios e, enfim, uma vida invejável. Boa casa, bom carro, bons restaurantes, ótimos amigos, viagens maravilhosas. E nunca estive completo.
Embora muitas vezes as pessoas digam que só o amor não é o suficiente, todas as pessoas podem dizer que só o conforto nunca foi. Pois o amor pode suprir a falta de conforto, mas o conforto nunca poderá suprir a falta de amor.
Chegamos ao final de nossas vidas e descobrimos uma coisa que é fácil, que está sempre visível aos olhos, e que nos recusamos a ver: “Vivemos para o amor”. O ser humano vive para o amor, e sem amor ele não é completo. Sem amor, sempre haverá uma lacuna dentro de nós. Uma lacuna extensa, fria, e dolorosa. O amor é tudo que precisamos.
Este foi o meu grande erro. Não dei chance ao amor. Já amei, sim. Mas ignorei aquele sentimento e fui atrás do desejo de me tornar um grande homem. Eu só não soubera que, para ser um grande homem, é preciso saber amar.

Se quase chegando aos oitenta anos, posso ainda lhe dar um conselho. O conselho é: “Ame!”. Sua vida não será nada sem amor.

sexta-feira, setembro 16, 2011

E.

TOMARA
Vinícius De Moraes e Marilia Medalha

Tomara!
Que você volte depressa.
Que você não se despeça.
Nunca mais do meu carinho...
E chore, se arrependa.
E pense muito,
Que é melhor se sofrer junto,
Que viver feliz sozinho.

Tomara!
Que a tristeza te convença,
Que a saudade não compensa.
E que a ausência não dá paz,
E o verdadeiro amor de quem se ama,
Tece a mesma antiga trama,
Que não se desfaz...
E a coisa mais divina,
Que há no mundo,
É viver cada segundo,
Como nunca mais.

ÁGUAS DE JÚLIO

Chuvas do Mês de Júlio
24 de Julho de 2011




“Esperar você é o mesmo que esperar chuva em mês de Julho. Não vem. – Você não me entenderia, mas já passei por outros Julhos antes. Já tive esta esperança colada ao peito e já vi esta esperança secar.
"Tu não irás cair do céu, chuvinha” – repito sempre ao coração. Mas não sei o que há que ele sempre te espera. Ele vive esta sede insaciável do teu amor. E eu fico aqui, sentada nesta escada, esperando as gotinhas de você.”

Nós morávamos em Julliards, cidadezinha do meio da América. Do meio da América que pouco chovia. Eram raros os meses de chuva naquela região. Os antigos acreditavam que a falta de água era castigo dos deuses. “Os protetores estão enfurecidos com a nossa cidade, porque há muitos anos alguém daqui roubou o vento do Deus d’água”, meu avô sempre dizia. Crueldade!, eu pensava. Naquele calor e alguém tivera coragem de roubar o vento, – um pecado! Mas os antigos mantinham a esperança de que o filho de Javé voltaria com a chuva.
Julho, leva nome de Julho, graças ao Júlio. Meu melhor amigo. Filho de Javé. – Lembro como se fosse hoje a primeira vez que vi “Julliards”, assim que eu o chamara para irritá-lo. Olhei-o com certo medo. Júlio tinha altura média, um pouco acima do peso, cabelos pretos e marcas feias no corpo. Era quieto, reservado. Fazia o tipo de quem sofrera muito e levara a dor consigo. Na verdade, todos nós temos uma grande dor dentro da gente. Mas Júlio era o tipo que não aceitara aquilo e por isso se calava, mantinha-se ereto, sempre na resguarda. Havia algo em Júlio que eu admirava: seu olhar sempre grande. Não que ele tivesse olhos saltados, mas enxergava bem. Júlio tinha afetos e pensamentos que quando os dividia comigo, me deixava assustado e encantado. Era um sábio. E vivera de música. Passara as vinte e quatro horas de seu dia com a música. Escutara somente o que sua alma pedira e era incrível como todos o amavam por todos seus saberes musicais. Júlio sabia como molhar as pessoas.
“Júlio sabia como molhar as pessoas”, era o que minha mãe dizia sempre que ele almoçara lá em casa. Às vezes acho que minha mãe sempre soubera quem era Júlio. Júlio possuía mãos que tocavam os céus.
Certa vez, ele batera o carro num hidrante. Acreditem, o Hidrante não estourou. Maravilhado com a façanha, Júlio desceu do carro, olhou o estrago meio por cima e tocou o hidrante. Ao tocar, a água saltou como se brotasse do chão. As crianças ali por perto saíam correndo se maravilhando com as águas de Júlio. Foi uma algazarra! E todos nós aproveitamos aquele hidrante quebrado, aquela água que sei lá como parecia brotar com muita força do chão, feito chafariz.
Creio eu que este foi o dia em que Júlio se descobriu filho de Javé. Sei apenas que logo depois do acontecimento, o velho Danton que tinha um parque aquático, foi até a casa de Julliards conversar algo com ele. Sei também que o velho veio com uma história sobre Deus que Júlio não acreditara, e mandara o velho embora. Nunca falou diretamente comigo sobre isto, mas os vizinhos me contaram. Júlio sempre me contou suas dores, mas ninguém conta suas loucuras. Aposto que quis me poupar da idéia de que ele era algum desmiolado que andava sem rumo por aí. Porque Júlio era meio “sei lá”, sabe? Tinha vezes que eu o olhara e ficara confuso com o que ele falara. Ele voava naquilo que dizia... Era como a música que tinha várias notas.
Uma semana depois do acontecimento do hidrante, Júlio sofreu a perda de um amor. Sua namorada morreu em um acidente de carro. Não se sabe muito como foi, sabe-se apenas que Arlandria não sobreviveu. Perder Arlandria foi perder sua vida. – Quem poderia suportar a dor de perder um amor? – A música parecia não tocar mais para Júlio. Se afastou de mim, e todas as vezes que nós conversamos depois da tragédia, ele parecia me dizer entrelinhas que estava partindo também. Bem, ele na verdade estava partido, sem n. A gente acaba partido ao meio quando perde quem a gente ama. [...]
A coisa estranha é que Júlio encontrou forças na loucura do velho Danton. O velho chegou um dia com uma bíblia e disse para que Júlio pensasse em sua dor e abrisse a bíblia. Quando o fez, Júlio leu palavras que o salvaram. Não sei se ele passou a acreditar em Deus, mas tenho certeza que nunca mais teve dúvidas sobre o poder das palavras. – Se Júlio era um cara que pensava no que falar, depois disso acabou pensando muito mais.
Então, a convivência com velho Danton cresceu. E todos os dias eles subiam a Colina Dewoski, um morro que tinha uma nascente d’água. Conversavam, oravam, tocavam violão e escutavam música boa o dia inteiro. Eram pai e filho que não tinham o mesmo sangue. Dois loucos e cada um com sua loucura. Um velho e um jovem maduro. “Jovem maduro”, lembro-me quando o velho Danton intitulou Júlio assim:
"– Ele é um jovem maduro. E há uma grande diferença entre quem já viveu e sabe, e quem vive parecendo saber. – Júlio não viveu, mas é como se já tivesse vivido. – Eu sou velho, tenho experiência. Ele é jovem, e sua maturidade não lhe poupa dos erros. Apenas faz com que ele saiba assumi-los. Jovens loucos e revoltados erram, jovens maduros também. A maturidade só permite que saibam sofrer e encarar esta dor.”
Enfim, era mês de Julho e eu estava sentado na varanda de casa olhando a Colina Dewoski. Quando, de repente, escutei um barulho enorme. Avistei Júlio correndo com as mãos para o alto. As nuvens do céu pareciam segui-lo. E das nuvens caíam água. Um milagre! O cheiro de terra molhada me invadia. O cenário mudou rapidamente, de sequidão à poças de lama. – Era Júlio fazendo chover em Julho.
Escutei meu avô gritando: “Filho de Javé!”. Foi só então que entendi que Javé significava fé e Júlio era cheio disso dentro dele. Óh! Nunca me esquecerei. Danton gritava: “Chova Júlio, chova!”. E Júlio choveu.

Em Julho choveu.
" – Choveu Julliards! Choveu!"

quinta-feira, setembro 15, 2011

B.

"[...] Todo sentimento precisa de um passado pra existir.
O amor não, ele cria como por encanto um passado que nos cerca. 
Ele nos dá a consciência de havermos vivido anos a fio,
Com alguém que a pouco era quase um estranho. 
Ele supre a falta de lembranças por uma espécie de mágica..." 

(Benjamin Constant)

A vida é cheia de "mas".


"A gente reconhece de longe convites de casamento. – Que droga!"


Eu estava sentada na varanda assim como fiquei sentada quando deixei que ele partisse. Lembro como se fosse hoje: meus pés gélidos e paralisados, um livro de Jack Kerouac nas mãos, e olhos fixos nos passos do meu amor que se ia embora... Qualquer que fosse o meu erro, ou meus erros, eu o amei. Mas cada um tem a sua maneira de amar. E aquela era a minha maneira: Deixá-lo ir.

O problema é quando as pessoas aprendem a perder. E eu aprendi. Com seis anos de idade, quando vi meus pais morrerem num acidente de carro, eu aprendi a perder. Sei que devo agradecer pela vida que continuou à mim e terminou à eles, mas não foram poucas as vezes em que eu aceitaria trocar a minha vida com qualquer um que pudesse dar um sorriso sincero.
Claro que muitas vezes eu fui feliz, mas era sempre como se faltasse parte de mim. Então quem não é inteiro, não pode amar; não é mesmo? É preciso haver duas pessoas inteiras para que exista amor. Porque duas metades da laranja só competem àqueles que não vivem a vida real: os filmes, teatro, música, – aquilo que  amo.
Acontece que a vida não é um texto qual eu escrevo. Palavras são perfeitas e a graça do viver é a imperfeição. As pessoas poderiam compreender que, quando escrevo, estou apenas disfarçando solidão. Eu tenho necessidade de me transportar para um mundo perfeito. E as histórias que eu invento são meus esconderijos, minhas fugas, meu jeito de sonhar. Porque eu, como mulher, ainda sonho com um amor que eu verdadeiramente poderei amar. (...)
Mas deixá-lo ir foi uma escolha que eu sofrerei pelo resto de minha vida, tenha certeza disso. Ele era especial. Um homem de visão, com bom gosto, e elegância. Aquele jeito despropositado, sonhador e leve, era confundido e entrava em atrito com o seu jeito maduro, visionário e grande. Seus pensamentos me deixavam boba. Havia ali muitas coisas que eu concordava, pensava, mas não exteriorizava. Daí ele vinha e colocava-se à falar tudo aquilo que eu gostaria de dizer. Encantava-me. Nós tínhamos uma ligação de outra vida. Se eu acreditasse nessas coisas de regressão, eu tenho certeza que, n’outra vida nós fomos almas gêmeas, irmãos, pai e filha, melhores amigos.
Mas deixá-lo ir era preciso. Eu não poderia ficar o resto de minha vida presa na dor de não poder ser o que ele merecia. Também nunca me esforcei para ser mulher certa àquele homem. Fui sempre apenas eu. Solitária. Eu. – E no amor, se a gente não cede, se a gente não se transforma um pouco do amado, se a gente não entra na rotina e não acostuma ali como dois, não da certo. – É preciso que haja um pouco de sacrifício no amor. – É preciso entregar-se ao amor.

Quando levantei a cabeça das escritas e avistei o carro parado do outro lado da rua, eu já soubera, era ele. Mas não era ele. Era outro homem qual eu já havia conhecido há longo tempo e não me lembrava mais, prefiro pensar assim. Saber que ele mudou e eu sou a mesma, causa-me alguma dor.
Então ele cruzara o jardim, vagarosamente, analisando passo por passo e encantado com minhas flores. Todas as vezes que ele atravessara meu jardim, ele fizera a mesma cara de surpresa e ficara maravilhado com as minhas criações, – e esta sempre foi a minha motivação. – O amor teve o poder de motivar até a mim, acredite.
Subiu as escadas, colocou o primeiro pé na varanda, analisou-me com cuidado e disse: “Bella, sou eu”. Como se eu não soubesse, pensei. Levantei-me, fiz questão de ir até ele e dar-lhe um abraço, fazer a anfitriã, dizer aquilo do “quanto tempo, estive com saudades”.
Pois ele se adiantara. E foi só aí que vi o envelope branco em suas mãos. Senti-me uma idiota, porque por um momento eu pensei que era um reencontro, uma volta, um novo começo. Porque eu o analisei atravessando aquele jardim e não notei aquilo em suas mãos. Um convite. Uma droga de um convite, desculpe. Uma merda, de uma merda, de uma droga de um convite.

– Só vim para entregar isto... Vou me casar, Bella.

Fechei os olhos sorrindo. Como quando você fecha os olhos para segurar as lágrimas e sorri para não demonstrar dor, ou ainda, um sorriso de quem não acreditara. E na mesma expressão, tentei falar, mas lágrimas escorreram.

– Ela é linda, – ele continuou. Mas vendo que não era boa idéia, apenas virou as costas e se foi outra vez, e desta vez, para não voltar nunca mais.

E parada em pé, olhando para o chão, eu ficara. Ficara, e a chuva começou a cair do céu. Acho que antes d'ele ir, ele até disse-me algumas coisas, mas eu só escutei até a parte de que ela era linda, e depois fiquei apenas com o barulho da chuva. Acho que para mim não importaria o que ele fosse explicar, o que fosse dizer sobre quão especial ela era. Porque ela, – ela não era eu –. Porque sei lá em qual dia de qual mês fosse, ela entraria numa igreja por um pedido que eu recusei. Porque ela teria na vida dela, para sempre, quem eu mais amei e quem mais me amou. Quem cuidou de mim, quem esteve sempre disposto a me ouvir, me amar e dizer de coração aberto o que sentia por mim. Por mim! Que nunca o merecera.
Porém, eu nunca soube se poderia ter sido de outra maneira. Acho que eu não voltaria atrás, se pudesse. A vida tem que ser assim, e se foi assim, há um motivo para isto. Viram? O problema é quando as pessoas aprendem a perder, e eu já disse: eu aprendi. Agora é tudo compreensível.
A minha dor é a mesma de quem perde e não sabe perder, a diferença é que não tenho vontade de mudar nada. É que o costume e a aceitação causam isto: o não fazer, o não mudar, o que “se dane”. Ficamos parados vendo o movimento, vendo a vida de todos se ajeitarem, sofremos com a nossa vida chata, mas não fazemos nada para mudar isto. E sabe, sofremos. Mas acostumar-se com a perda, é também acostumar-se com a dor.
Deixar o homem de sua vida ir embora, parece uma grande prova de amor. Mas é um fracasso. Esta história de que o destino vai colocá-lo em sua vida outra vez é coisa de filme, livros e música. A vida real é diferente. É preciso força e garra para tudo na vida. É preciso coragem. É preciso doar-se. É preciso suar duro por cada conquista. Nada – exatamente, nada vem fácil na vida.
O “deixar acontecer” é um problema. É deixar de comandar a sua vida. É não poder ordenar sua própria história. É assim que eu vivo desde que perdi meus pais. Deixo ser, deixo estar, deixo que a vida me leve... A ironia disso é que quando escuto as pessoas falarem que o destino ajeitará suas vidas, eu tenho vontade de gritar – sim – gritar: “Amigo! Deus te deu uma vida, não é? Já é gratidão demais lhe dar uma vida... acha mesmo que Ele vai ficar cuidando dela? O que dará certo ou errado só dependerá de você! A vida é sua! O que entra e sai dela é por sua culpa! Destino é coisa de ficção... Acorda! Vive a vida. Vive a vida real. Começa a viver. Vamos viver, vamos viver, vamos viver!”. – Viver é meu maior desejo.
Mas é só desejo. Eu não tenho grandes objetivos. Minha vida é Lei it be. Sou desencanada. Aquela história do “há pessoas que existem, e há quem viva”, eu sou apenas o existir. Eu gosto de apenas existir. Esta tranqüilidade de não precisar sair do lugar para ter o que quero, é boa. Mas – nossa, como sou cheia de “mas”! –. Mas eu não fico em paz.
Não mesmo. Eu sofro bastante.

A dor de quem ama é perder. Perder quem se ama, porque a pessoa não lhe amou é algo fácil. Entretanto, perder quem se ama, porque tu fizeste tudo errado. É fardo que leva para vida inteira. – Porque não se pode cometer o mesmo erro duas vezes. – O certo é que, a próxima vez que o amor bater minha porta, terei que ser além do que posso. O problema, bem, é que não haverá outra história como a minha e de Tomás. Serão só outros amores... E eu, ah!, quem dera tivesse eu nascido com a sorte de encontrar outros amores. Mas foi Tomás. Outro "mas".

segunda-feira, setembro 12, 2011

A.

"O conselho para quem tem dois amores é: continua, e vai dar tudo errado. O destino vai lhe apresentando escolhas e se tu deixas de fazê-las, a vida as faz por ti. E no amor é assim: se tu não tens apenas um, ficas sem nenhum. – Os castelos de areia que as crianças constroem, o vento trata de derrubar. Ou, às vezes, é aquele adulto estranho e rabugento que vem do nada e pisa na tua fabulosa criação. Hora de crescer! Tomar decisões difíceis é a prova de que tu estás amadurecendo. – Assim como o café, o amor também pode esfriar. Tu, por acaso, tentas colocar gelo na bebida?
Moço, tu tens que escolher. Porque tu já conheces esta história. Tu te atrapalhas, foge do que sentes, vai para lá, volta para cá. E, no final, tu ficas sem nenhuma delas. – Eu já não agüento mais ter que lhe acalmar enquanto choras a falta de alguém que se foi pelos abismos que tu constrói. 

– Outra xícara de café? 
– Aceito. Bem quente, por favor."

[A.M.D.M.]

And set your heart to fly.


[...] Sei apenas que não posso ficar parada. Que eu vou abrindo meu coração por aí... Qualquer hora ele encontra os afetos de quem se dá por ele. E eu me darei inteira por aqueles afetos. Dali, será amor real. Não somente amor. “Amor-real”. Duas palavras diferentes e que juntas podem causar um estrago enorme em nossas vidas.

– Meu coração está aberto, menino. Agora mais do que nunca."

sexta-feira, setembro 09, 2011

À.

“Trate-a bem, moço. Se ela gosta de ti, – trate-a bem. Não fique aí com esse vai não vai, quero mas não posso, não fomos feitos um pr’outro. Não. Se os dois se gostam; dá a tua cara à tapas, assume este sentimento, peça ela em namoro. Esta coisa do Somos Proibidos é mentira. Tudo acontece se tu quiseres. Se queres ela, assume ela, cuida dela, trate-a bem. – Daí, se não, o mundo dá suas voltas e tu ficas sem ela. Quer ver?
(...) As menininhas crescem, moço. Elas mudam. Elas criam mentes terrivelmente charmosas e perigosas. Numa dessas vós te perdes, ela vos mata, e irão lhe chamar de tolo por aí... Já lhe disse que há muitos Don Juan espalhados pelos confins. Tão e quanto charmosos como ti. – Menininhas não cuidadas só precisam achar um desses. – E quando acham...
Bem, moço. Quando acham, elas dão.”

(A.M.D.M.)

Confissões de um alistado.

Chegou aterrorizado e com a roupa ensangüentada. Nossa primeira reação foi levá-lo à maca e chamar o médico. Enquanto o doutor não chegara, tratamos de acalmá-lo e limpar os ferimentos. Foi quando O Homem entrara gritando aquele idioma que eu não conhecera. Do tempo que estive ali eu pude reconhecer algumas palavras: “Vagabundo, vagabundo. Ela era a minha esposa. A nove...”. A ferocidade, o ódio e aquele nervosismo me comoveram por um momento. Como todos que estavam ali, meus olhos se prenderam no homem que chegara gritando, e me esqueci completamente do homem que chegara machucado. Por alguns minutos, pensei em ir até o homem furioso e tentar acalmá-lo, mas a curiosidade de saber o que estava acontecendo falou mais alto, e contive-me parada escutando seus lamentos. Quase em vão eu traduzira suas palavras ligeiras. Quando, de repente, algo atravessou seu corpo cortando seu estomago. O homem parou a gritaria imediatamente, colocou a mão sobre o estomago, e inclinou o corpo para trás como se lhe faltasse ar. Virei-me para trás num pulo e enquanto virava percebi que aqueles que estavam ao meu lado, faziam a mesma coisa. Na maca, um lençol ensangüentado pendurado no suporte do soro. “Estamos sofrendo um ataque”, escutei. Corremos até o lençol que levara forma de gente; O primeiro que lá chegara e tirara o lençol, percebeu que haviam nos enganado. Não haveria mais nada ali. O homem que chegara machucado não estava mais ali. Quando voltei-me novamente para o homem furioso que tivera o estomago atingido por algo, o homem machucado o segurava com uma mão e o cortava com outra. Cortava-o com o nosso bisturi. O cortara inteiro. Cabeça, pescoço, estomago, braços, pernas, órgãos genitais... O bisturi na mão daquele homem já havia feito um estrago. Ninguém se mexera. Todos olhavam com olhos assustados àquela cena. Ninguém chegaria perto daquele homem armado, pois todos ali guardariam suas vidas. Enquanto isto, o homem que chegara gritando, fora atingido por algo no estomago, e era cortado por um bisturi; gritara e gemia seus últimos segundos de vida. Até que caiu ao chão.
Esgotado, ao terminar o trabalho, o homem que chegara machucado ainda cortara o nariz do que chegara gritando para ter certeza de sua morte. Então, sentou-se ao lado do corpo caído. Colocou a cabeça entre as pernas, e começou a chorar. Chorava feito criança. Chorava tanto que meus olhos seguiram suas lágrimas. Levantou a cabeça, nos olhou, tentou secar as lágrimas, mas elas pareciam mais rápidas. E começou a nos contar sua história.
“ – Eu era apaixonado por uma menina. Ela era linda. Pele morena, cabelos longos e encaracolados, extremamente religiosa. Cantava com sua voz de mulher as músicas mais belas desse país. E trazia fé com seus olhos enormes à todos que encontravam seu olhar. Sua família não tivera muito dinheiro, e assim, aceitou a oferta deste homem que acabo de cortar por inteiro. Já casado, com oito mulheres, pediu a menina em casamento. A família que passara fome, mesmo chorando, concordou e fez suas condições. Este homem que dissera querer casar com a menina, apenas para ajudar a família e pela voz encantadora que ela possuía, prometeu acatar todas as condições como leis de Allah. Mas não cumpriu suas promessas.
Eu era apaixonado por aquela menina. Que tinha apenas dez anos. Que não se tornara moça ainda, e só pedi que respeitasse e mantivesse os votos até que o sangue descesse à ela. Na noite de seu casamento, ele a teve. Uma menina de dez anos. – Eu era pai daquela menina.”
Minha boca entreaberta tremia a dor daquele homem. O tradutor perdera a voz na frase em que ele revelara ser pai da menina. Para nós, aquilo era tudo muito estranho. Casamentos arrumados, homens com mais de uma esposa, meninas que se casavam, unha por unha dente por dente, justiça pelas próprias mãos. Sentei-me ao chão, enfraquecido, aquelas pessoas precisavam de mim e eu não soubera o que falar. O tradutor me acompanhou. E num momento de impulso, perguntou: “Sua filha morreu?”. E o homem assentando com a cabeça, respondeu: “– Para mim sim.”

Depois de transferirmos o corpo daquele homem para o necrotério improvisado. Nossa médica se ofereceu à examinar a menina. O pai, envergonhado, aceitou sabendo que era o melhor para a filha. Embora aquela cultura rígida, aquele país precário e a pobreza que aquele homem enfrentara, ele pareceu-me alguém sábio. A sabedoria talvez seja isto. Nada de livros, grandes viagens, ou muitas histórias. Sabedoria talvez seja experiências pequenas, entendimento e aceitação.
Quando a menina chegou, procurei manter-me por perto. Suas mãozinhas de criança gesticulavam as coisas que aquele homem morto havia feito com ela. Com oito esposas, ele fizera aquela menina descer a boca até seu órgão reprodutor e praticar sexo oral. Uma menina de dez anos que nem se tornara moça ainda. Ela colocara as mãos sobre a cama, virara de costas e dizia: “depois ele fazia assim por detrás”. – Cada palavra daquela menina e meu coração se tornara cada vez mais pequeno.
Então ela me olhara e dissera: “Não sinta pena de mim. Me odeie, mas não sinta pena. Pena é o pior sentimento que tu podes ter por outra pessoa”. Eu não soubera o que falar, e quando pensei em falar sobre Deus, ela interrompera: “Não odeio Allah. Nem O culpo por isto. Allah me fez passar por isto, porque me conhecera o bastante para saber que eu era forte para superar. Allah fez com que eu passasse por isso, porque Ele soubera que outra menina da minha idade não agüentaria. – Quero dizer, Ele nunca quis que eu passasse por isso, mas Ele não me abandonou. Me fortaleceu. E me enchera de fé”.
Então a menina cantara músicas sobre o seu Deus. Ela realmente tinha uma voz linda. E eu não soubera mais o que fazer com as minhas dores. Do nada, o meu sofrimento desapareceu. Eu me tornei uma pessoa vazia. Imersa em reflexões. – Eu não seria tão forte quanto esta menina. Eu não teria feito o que aquele pai fez por sua filha. – Desculpa se eu nunca soube reconhecer minha fraqueza e se eu estou deixando a minha vida passar. (...)

Preciso ligar para os meus pais, pensei. Mas lá não tivera telefone. (...) Escrevi uma carta durante a noite, depois me joguei na cama do dormitório. Afundei a cabeça no travesseiro e derramei lágrimas até que o sol nascesse. – Aquilo se tornara a minha vida, eu agora era alguém sozinho, distante de tudo. Eu não queria mais estar lá, mas eu não poderia deixar aquilo que precisara de mim. Eu tinha um caminho longo pela frente. Eu não quero ser apenas mais um ser humano por aqui, – e ninguém deveria querer.
Morrer me parece um desafio. Matar, aqui, não é mais uma questão de religião ou justiça. É sobreviver. 

quarta-feira, setembro 07, 2011

E.

ONE DAY
(At A Time)
John Lennon
Mind Games, 1973

You are my weakness, you are my strength.
Nothing I have in the world makes better sense.
Cause I'm the fish and you're the sea.
When we're together or when we're apart.
There's never a space in between the beat of our hearts.
Cause I'm the apple and you're the tree.

You are my woman, I am your man.
Nothing else matters at all, now I understand.
That I'm the door and you're the key.
And every morning I wake in your smile.
Feeling your breath on my face and the love in your eyes.
Cause you're the honey and I'm the bee.

One day at a time is all we do.
One day at a time is good for us two.

CHANGE.

Mudanças. – Bem, elas nem sempre são tirar os móveis do lugar. Há mudança de alma também.

Deus está sempre ali mostrando que quando eu menos esperar a vida irá me surpreender. Porque, bem, eu não sei se é Ele que constrói detalhe por detalhe de tudo que acontece em meus dias, mas eu sei que Ele me protege do mal e isto já me acalma.
Porque é ali, quando você não pretende mais nada, que aparece alguém e pimba! Bateu! E mesmo que não seja nada, é como se o pouco que foi ficasse em você. É como se aquele pequeno imprevisto do destino pudesse te fazer olhar a vida de outra maneira. E para isto não é preciso milhares de palavras ou muitos dias juntos, precisa-se apenas um olhar diferente e um ponto de vista, que lhe faça abrir os olhos.
Quando parei e pensei: “Tinha de ser esta pessoa?”. Pois ali seria a pessoa mais estranha ou mais impensada para dizer aquilo que precisei escutar. É quando eu sei que é Deus vindo de alguma maneira, conversar comigo, e dizer: “enxerga, para de ser cabeça dura, eu preciso que você vá por este caminho”.
E é assim que é. Eu acredito que Ele vem aparecendo nas pequenas coisas, em pessoas diferentes, me jogando frases e cantando um destino à mim. Quando estou cega demais, ele me faz bater com a cara no poste e lavar os olhos. – Então, aos poucos, eu me torno cada vez mais aquilo que eu serei. Que eu sou.
É claro que eu sinto falta de alguém ao meu lado, para dividir minha vida, para ganhar um abraço, para trocar carinhos. Mas conforme a vida foi-se indo, e o tempo foi passando... Eu descobri que eu gosto desta solidão. Mas, não, calma aí! Não é esta solidão escura e vazia. Eu gosto desta solidão tranquila, deste coração desocupado, deste caminho sem rumo, deste vento que vai me levar pra qualquer lugar. Eu gosto deste despropósito. E eu comecei a admirar a independência que eu quero e que caminho à ter. – Liberdade. Não acredito que ela exista, mas é assim que eu me sinto.
As pessoas poderão achar que eu estou ficando maluca. Mas quem eu engano? Elas já acham... Agora que está tudo caminho para dar certo, eu jogo tudo pro ar. – O que elas estavam esperando de mim? – Eu sempre fui estes desejos, estes quereres, esta rodovia calejada e vazia. O que acontece é que, hoje, eu sou muito mais.
Acontece que eu coloquei em prática tudo aquilo que eu escrevi e cuidei de usar cada tombo a meu favor. Cuidei de curar os machucados, mas enquanto curava, os estudei. E fiz da dor um aprendizado, do aprendizado um consolo, do consolo fiz conselhos, dos conselhos me reconstruí. Reconstruída, me tornei algo. – E eu não quero definir o que é. Só quero ser.
“Ser” o verbo que mais mexe comigo. Algum dia eu lhes contei que existem palavras que quando as escrevo é como se elas desvendassem minha vida? Palavras simples que levam algum sentimento. São códigos, metáforas, manias de Gabriella.
Vocês também têm isto de, quando ansiosos ficarem andando pela casa e falando sozinhos? Eu faço isto o tempo todo. Eu falo sozinha o tempo todo. Eu sonho o tempo todo. E eu escrevo dentro de mim o tempo todo. – Sem parar.
Eu posso não estar me mexendo, mas eu não estou parada. Estou apenas sentada vendo o movimento, e eu adoro vê-lo.
Eu já não me importo com o que as pessoas pensam. Eu conheço meus limites. Fiz minhas regras. E agora é tempo de fazer a minha vida.
Estou livre, mas cheia de amor. E agora tanto faz. Eu sei que a vida trata de me juntar à você.

Porque eu não seria metade do que eu sou sem você. Porque eu vivo de palavras, e você me trás elas, mesmo que sem querer. – Você é a minha história. – I just had to let it go.

segunda-feira, setembro 05, 2011

A.

IF I EVER FEEL BETTER
Phoenix
2001

They say an end can be a start.
Feels like I've been buried yet I'm still alive.
It's like a bad day that never ends.
I feel the chaos around me.

A thing I don't try to deny,
I'd better learn to accept that:
There are things in my life that I can't control.

They say love ain't nothing but a sore.
I don't even know what love is...
Too many tears have had to fall.
Don't you know? I'm so tired of it all.

I have known terror dizzy spells,
Finding out the secrets words won't tell.
Whatever it is it can't be named.
There's a part of my world that' s fading away...

You know I don't want to be clever,
To be brilliant or superior.
True like ice, true like fire.
Now I know that a breeze can blow me away...

Now I know there's much more dignity,
In defeat than in the brightest victory.
I'm losing my balance on the tight rope.
Tell me please, tell me please, tell me please.

Hang on to the good days.
I can lean on my friends.
They help me going through hard times.

But I'm feeding the enemy.
I'm in league with the foe.
Blame me for what's happening.
I can't try, I can't try, I can't try.

No one knows the hard times I went through.
If happiness came I miss the call.
The stormy days ain't over.
I've tried and lost know I think that I pay the cost.

Now I've watched all my castles fall.
They were made of dust, after all.
Someday all this mess will make me laugh.
I can't wait, I can't wait, I can't wait.

It's like somebody took my place.
I ain't even playing my own game...
The rules have changed well I didn't know.
There are things in my life I can't control...

I feel the chaos around me.
A thing I don't try to deny.
I'd better learn to accept that,
There's a part of my life that will go away.

Dark is the night, cold is the ground.
In the circular solitude of my heart.
As one who strives a hill to climb,
I am sure I'll come through I don't know how.

They say an end can be a start.
Feels like I've been buried yet I'm still alive.
I'm losing my balance on the tight rope.
Tell me please, tell me please, tell me please...

If I ever feel better,
Remind me to spend some good time with you.
You can give me your number.
When it's all over I'll let you know.

Quando sufoca, eu não posso manter-me quieta.

Tu já deves ter percebido todas as confusões de minhas palavras, – eu quero ser direta, mas não posso. Eu não sou a pessoa que tu achas que eu sou. Está doendo cada erro e cada mentira. Não existem pessoas perfeitas. Não sobrou-me muita coisa além de um mundo falso e egoísta. Eu sou ruim. Eu quero, em todos os momentos, ser melhor que você. E chegou a hora de admitir que você é uma boa pessoa. 
Eu te perdôo por cada deslize. E peço que não descubra os meus disfarces. – Eu não sei como implorar para que tu fiques ao meu lado. – Eu não sou gentil. Mas todas as noites eu rezo para que Ele possa lhe colocar no meu caminho. Todas as noites eu peço: “deixa eu fazê-lo feliz?”. Será que Ele irá atender minhas preces algum dia? 
Porque eu não posso pedir isto para você. Eu não posso competir com ela. Ela está ao seu lado, ela vai ganhar o seu amor, e eu – novamente – terei que aceitar que nossos destinos são paralelos. Mas como? É como se eu devesse apagar tudo da memória. E eu tento. Juro que tento jogar tudo fora. Juro que eu já queimei tudo o que eu poderia, mas persiste, insiste, ainda está aqui dentro de mim. 
Eu queria olhar em seus olhos e dizer: “ – não vai, fica, não me deixa outra vez”. Eu queria ser verdadeira e dizer: “ – eu tenho um sonho, meu sonho é ser, estar, permanecer e continuar com você”. Eu queria agir conforme eu sinto, mas eu faço conforme as pessoas dizem. Eu queria me entregar aos sonhos, mas eu me entrego conforme acho que você vai querer. – Você gosta mesmo de todas estas barreiras? 
Não pode ser mais real? Não pode ser mais limpo e verdadeiro? O problema sou eu? Eu tenho medo de lhe decepcionar. Eu tenho medo de dar um passo para frente, e você não estar de acordo. Eu tenho medo de ser humilhada, rejeitada, de me sentir uma pedra no seu sapato – outra vez. 
Eu me controlo, mas eu não quero me controlar. – Faz mesmo sentido todos estes limites? – O amor tem regras? Quem colocou regras no amor? Por que nós temos que nos esconder se o sol brilha lá fora? Por que não pode ser real, tão real como qualquer outro? – Não deve ser amor. 
Amor é quando perdemos o medo. É entrelaçar as mãos e esquecer do resto. Amor é sinônimo de entrega. E aquelas definições que nós causamos, só nos fazem mal. 
O que eu devo fazer? Eu não estou preparada para seguir sozinha. Todo mundo precisa de um alicerce. Todos nós temos momentos de fraqueza. Eu não quero rasgar os panos como se eu fosse única no mundo. Preciso de alguém que me ofereça um lenço mesmo que as lágrimas não caiam. – Ela só está tampando os seus buracos, como eu já os tampei um dia. 
Eu também sou esta garrafa vazia e com furos. Nunca estou cheia. Você não pode me encher de liquido, porque meus furos irão trapacear. Eu estou sempre vazando... Eu não sei o que acontece depois. 
Me explique por onde começar. Qual o começo? Como ter o seu amor por inteiro? Eu preciso ter. Você não entende. Não é tão fácil quanto parece. Eu não posso lhe implorar isto, porque já doeu uma vez. – Devo abrir o que eu sinto pra você. 
Enquanto ausente, eu conheci quem eu sou. Obrigada por ter ido embora. Mas não se vá outra vez... Eu sinto que ainda há muito sobre nós. Eu sei que não acabou. E eu não quero que acabe nunca. 
Deixa esta história do “para sempre não existe” ir embora. Eu quero construir um futuro ao seu lado. Esqueça que você não foi feito para mim. Duas peças do quebra-cabeça só se encaixam se elas forem diferentes. Nós não somos iguais. – Eu preciso de você aqui. 

Todas as vezes que você se sentir triste. Não importará o motivo. Poderá ser por uma briga com sua família, um problema no trabalho, a faculdade que vai mal, ou uma briga com ela... Não importa. Só prometa que vai me procurar. Não precisa contar o que aconteceu se não quiser. Só prometa: Vai me procurar. Vai me ligar, vai me escrever, vai vir até minha casa, e mesmo que eu não possa fazer nada, eu quero poder dizer que vai dar tudo certo

Prometa. 

A minha esperança não morreu. Eu olho para você e eu sei: você estará sempre comigo, dentro de mim.

sábado, setembro 03, 2011

G.

"É como a velha banda de rock. Não acredito que The Beatles eram caras politicamente corretos, mas cantavam sobre o amor. E quando apontavam seus erros, é o fato: Artista querendo gritar ao mundo que estão entendendo tudo errado. – Hora de morrer. (...) 
Antes da morte. A dica para sua sobrevivência: Não existe perfeição. Ninguém é perfeito. Se vais julgar o mundo por cada erro, morrerá de venenos. – Eu descobri por fim que, odeio pessoas que só sabem criticar. Que o diabo as carregue! Também odeio pessoas sérias demais... Desconfio do extremamente feliz e extremamente triste. Ninguém é perfeito, nem na dor. – Respeitem meu sétimo dia." 

 (A.M.D.M.)

sexta-feira, setembro 02, 2011

QUAL O SEU DESTINO?

Lá fora apenas o barulho do vento e o latir dos cães. Aqui dentro, luzes acesas e coração sereno. Acho que estou sonhando. – Pensei que esta noite seria cheia de tormentos que me fariam escrever coisas lindas. Não deu. Nada de saudades. – Estou só e imersa em calmarias. 
Alma calma é problema para quem escreve. – De certo, este é o motivo para o errado sempre me atrair. – A dor que consome é a dor que possui as palavras mais doces. Já o vazio, bem, o vazio me trás palavras sombrias, histórias estranhas, algumas fantasias e nenhum suspiro. – Ah! Como eu sinto falta de suspirar...
Suspirava todas as vezes que ele me cegara os olhos com suas mãos macias, e me fazia a pergunta tola: “adivinha quem é?”. Ora! Quem era? Era ele, senão ele, nenhum outro. Assim suspirava o coração e atritava todas as artérias... – cardíaca; eu era um ataque em todo beijo que ele me surpreendera. 
Suspirava também. Não! Eu perdera o fôlego todas as vezes que abriam-se as pernas e deleitava-me com seu corpo quente. Quando jogava-me contra a parede como se fosse me demolir. Ou quando falava-me ao ouvido que me queria e demonstrava sentir prazer com meus carinhos. 
Suspirava quando desenhava meu corpo com as mãos. Ah! Como eu adorava aquelas mãos percorrendo meu corpo e como me acalmava quando delicadamente parava a mão em minha cintura e cantava coisas lindas... 
Suspirava quando escutava sua respiração ofegante... Amava aquela respiração. Amava aquele jeito. Amava aquela voz. Amava aqueles olhos furiosos e brincalhões. Amava de tal forma que, às vezes, sei que nunca amarei outro igual. 
Poderei até amar mais, mas nunca como o amei. Não há como ser duas vezes a mesma tempestade em meu corpo. Não há como existir outra pessoa que provocará o pós-tempestade, com ou sem estragos, alguma magia e coração sem voz. 
"Pois tenho até medo de ler os parágrafos anteriores e sentir a pontinha dos dedos dos pés revirarem pelo desejo". Porque já não é saudade, é não ter mais, é não ser do mesmo jeito. É não me doar por inteiro como um dia já foi... É talvez perder o encanto. É amá-lo ainda, mas dar este amor para outros. Entende? Não. Não entende, porque é tudo invenção. 
Porque eu não posso mais dizer o que sinto. Porque agora sou apenas esta casa vazia e este tapete no chão. Eu sou o objeto esquecido no canto da sala. Eu tenho medo de continuar e não faço idéia de como se começa isto. Como seguir em frente? Como deixar pra lá? Eu juro que estou tentando. Juro que me orgulho de mim mesma, porque não fui aquela amiga que chorou o abandono do ex-namorado. Porque eu me preparei para a pior dor da minha vida, achei que fosse corroer por dentro, que fosse me matar. E realmente doeu, eu realmente morri, mas ressuscitei sei lá quantas vezes. E não fiquei chorando, resmungando, tratando o destino como se Ele fosse culpado pelo erro de quem amei. – Não. – Não fiz nada disso. Eu fui boa pessoa e continuei andando, só por andar, só por saber que eu teria um caminho longo pela frente. E mesmo sem saber qual era, mesmo sem ter feito alguma escolha, mesmo morrendo de medo que as pessoas me tratassem como apenas mais uma adolescente rebelde. Eu agi por mim. Eu fui aquilo que sou. Eu me tornei eu mesma. Sabe, eu não sou aquela jovem revoltada, porque quando os jovens se revoltam, eles precisam achar um motivo e precisam impressionar alguém. Eu não. Eu sou assim: – eu sou esse nada aqui mesmo. E mesmo que eu saiba que não devo me contentar com isto, – eu estou muito feliz, obrigada, por estar assim como estou. 
Porque eu não quero mais fazer parte do politicamente correto e nem dos outsiders marrentos. Eu quero ser eu. Só. Sem mais e sem amor. Não. Com amor. Com muito amor. Mas não amor por ele... Eu quero amor por mim, e por tudo que faço. Porque eu não fiz minha escolha ainda, mas eu sei que quando eu me decidir, seja lá o que for que eu decidir, eu vou fazer bem. Porque eu tenho fé em mim. 
E porque eu não tenho plano nenhum, mas eu sei o que eu quero: – viver. Eu vou viver. Forget the rules, I did my rules. Now it's me. 

E se algum dia ele puder fazer parte do meu viver, se algum dia ele puder enxergar a vida como eu a vejo, se algum dia for pra ser. Meu Deus! Eu volto a suspirar, volto a amar, volto a ser feliz e serei tão feliz que, que eu gritarei sinos de alegria. 

 Talvez, o meu destino seja amar [lo].