sexta-feira, setembro 16, 2011

ÁGUAS DE JÚLIO

Chuvas do Mês de Júlio
24 de Julho de 2011




“Esperar você é o mesmo que esperar chuva em mês de Julho. Não vem. – Você não me entenderia, mas já passei por outros Julhos antes. Já tive esta esperança colada ao peito e já vi esta esperança secar.
"Tu não irás cair do céu, chuvinha” – repito sempre ao coração. Mas não sei o que há que ele sempre te espera. Ele vive esta sede insaciável do teu amor. E eu fico aqui, sentada nesta escada, esperando as gotinhas de você.”

Nós morávamos em Julliards, cidadezinha do meio da América. Do meio da América que pouco chovia. Eram raros os meses de chuva naquela região. Os antigos acreditavam que a falta de água era castigo dos deuses. “Os protetores estão enfurecidos com a nossa cidade, porque há muitos anos alguém daqui roubou o vento do Deus d’água”, meu avô sempre dizia. Crueldade!, eu pensava. Naquele calor e alguém tivera coragem de roubar o vento, – um pecado! Mas os antigos mantinham a esperança de que o filho de Javé voltaria com a chuva.
Julho, leva nome de Julho, graças ao Júlio. Meu melhor amigo. Filho de Javé. – Lembro como se fosse hoje a primeira vez que vi “Julliards”, assim que eu o chamara para irritá-lo. Olhei-o com certo medo. Júlio tinha altura média, um pouco acima do peso, cabelos pretos e marcas feias no corpo. Era quieto, reservado. Fazia o tipo de quem sofrera muito e levara a dor consigo. Na verdade, todos nós temos uma grande dor dentro da gente. Mas Júlio era o tipo que não aceitara aquilo e por isso se calava, mantinha-se ereto, sempre na resguarda. Havia algo em Júlio que eu admirava: seu olhar sempre grande. Não que ele tivesse olhos saltados, mas enxergava bem. Júlio tinha afetos e pensamentos que quando os dividia comigo, me deixava assustado e encantado. Era um sábio. E vivera de música. Passara as vinte e quatro horas de seu dia com a música. Escutara somente o que sua alma pedira e era incrível como todos o amavam por todos seus saberes musicais. Júlio sabia como molhar as pessoas.
“Júlio sabia como molhar as pessoas”, era o que minha mãe dizia sempre que ele almoçara lá em casa. Às vezes acho que minha mãe sempre soubera quem era Júlio. Júlio possuía mãos que tocavam os céus.
Certa vez, ele batera o carro num hidrante. Acreditem, o Hidrante não estourou. Maravilhado com a façanha, Júlio desceu do carro, olhou o estrago meio por cima e tocou o hidrante. Ao tocar, a água saltou como se brotasse do chão. As crianças ali por perto saíam correndo se maravilhando com as águas de Júlio. Foi uma algazarra! E todos nós aproveitamos aquele hidrante quebrado, aquela água que sei lá como parecia brotar com muita força do chão, feito chafariz.
Creio eu que este foi o dia em que Júlio se descobriu filho de Javé. Sei apenas que logo depois do acontecimento, o velho Danton que tinha um parque aquático, foi até a casa de Julliards conversar algo com ele. Sei também que o velho veio com uma história sobre Deus que Júlio não acreditara, e mandara o velho embora. Nunca falou diretamente comigo sobre isto, mas os vizinhos me contaram. Júlio sempre me contou suas dores, mas ninguém conta suas loucuras. Aposto que quis me poupar da idéia de que ele era algum desmiolado que andava sem rumo por aí. Porque Júlio era meio “sei lá”, sabe? Tinha vezes que eu o olhara e ficara confuso com o que ele falara. Ele voava naquilo que dizia... Era como a música que tinha várias notas.
Uma semana depois do acontecimento do hidrante, Júlio sofreu a perda de um amor. Sua namorada morreu em um acidente de carro. Não se sabe muito como foi, sabe-se apenas que Arlandria não sobreviveu. Perder Arlandria foi perder sua vida. – Quem poderia suportar a dor de perder um amor? – A música parecia não tocar mais para Júlio. Se afastou de mim, e todas as vezes que nós conversamos depois da tragédia, ele parecia me dizer entrelinhas que estava partindo também. Bem, ele na verdade estava partido, sem n. A gente acaba partido ao meio quando perde quem a gente ama. [...]
A coisa estranha é que Júlio encontrou forças na loucura do velho Danton. O velho chegou um dia com uma bíblia e disse para que Júlio pensasse em sua dor e abrisse a bíblia. Quando o fez, Júlio leu palavras que o salvaram. Não sei se ele passou a acreditar em Deus, mas tenho certeza que nunca mais teve dúvidas sobre o poder das palavras. – Se Júlio era um cara que pensava no que falar, depois disso acabou pensando muito mais.
Então, a convivência com velho Danton cresceu. E todos os dias eles subiam a Colina Dewoski, um morro que tinha uma nascente d’água. Conversavam, oravam, tocavam violão e escutavam música boa o dia inteiro. Eram pai e filho que não tinham o mesmo sangue. Dois loucos e cada um com sua loucura. Um velho e um jovem maduro. “Jovem maduro”, lembro-me quando o velho Danton intitulou Júlio assim:
"– Ele é um jovem maduro. E há uma grande diferença entre quem já viveu e sabe, e quem vive parecendo saber. – Júlio não viveu, mas é como se já tivesse vivido. – Eu sou velho, tenho experiência. Ele é jovem, e sua maturidade não lhe poupa dos erros. Apenas faz com que ele saiba assumi-los. Jovens loucos e revoltados erram, jovens maduros também. A maturidade só permite que saibam sofrer e encarar esta dor.”
Enfim, era mês de Julho e eu estava sentado na varanda de casa olhando a Colina Dewoski. Quando, de repente, escutei um barulho enorme. Avistei Júlio correndo com as mãos para o alto. As nuvens do céu pareciam segui-lo. E das nuvens caíam água. Um milagre! O cheiro de terra molhada me invadia. O cenário mudou rapidamente, de sequidão à poças de lama. – Era Júlio fazendo chover em Julho.
Escutei meu avô gritando: “Filho de Javé!”. Foi só então que entendi que Javé significava fé e Júlio era cheio disso dentro dele. Óh! Nunca me esquecerei. Danton gritava: “Chova Júlio, chova!”. E Júlio choveu.

Em Julho choveu.
" – Choveu Julliards! Choveu!"