sexta-feira, setembro 09, 2011

Confissões de um alistado.

Chegou aterrorizado e com a roupa ensangüentada. Nossa primeira reação foi levá-lo à maca e chamar o médico. Enquanto o doutor não chegara, tratamos de acalmá-lo e limpar os ferimentos. Foi quando O Homem entrara gritando aquele idioma que eu não conhecera. Do tempo que estive ali eu pude reconhecer algumas palavras: “Vagabundo, vagabundo. Ela era a minha esposa. A nove...”. A ferocidade, o ódio e aquele nervosismo me comoveram por um momento. Como todos que estavam ali, meus olhos se prenderam no homem que chegara gritando, e me esqueci completamente do homem que chegara machucado. Por alguns minutos, pensei em ir até o homem furioso e tentar acalmá-lo, mas a curiosidade de saber o que estava acontecendo falou mais alto, e contive-me parada escutando seus lamentos. Quase em vão eu traduzira suas palavras ligeiras. Quando, de repente, algo atravessou seu corpo cortando seu estomago. O homem parou a gritaria imediatamente, colocou a mão sobre o estomago, e inclinou o corpo para trás como se lhe faltasse ar. Virei-me para trás num pulo e enquanto virava percebi que aqueles que estavam ao meu lado, faziam a mesma coisa. Na maca, um lençol ensangüentado pendurado no suporte do soro. “Estamos sofrendo um ataque”, escutei. Corremos até o lençol que levara forma de gente; O primeiro que lá chegara e tirara o lençol, percebeu que haviam nos enganado. Não haveria mais nada ali. O homem que chegara machucado não estava mais ali. Quando voltei-me novamente para o homem furioso que tivera o estomago atingido por algo, o homem machucado o segurava com uma mão e o cortava com outra. Cortava-o com o nosso bisturi. O cortara inteiro. Cabeça, pescoço, estomago, braços, pernas, órgãos genitais... O bisturi na mão daquele homem já havia feito um estrago. Ninguém se mexera. Todos olhavam com olhos assustados àquela cena. Ninguém chegaria perto daquele homem armado, pois todos ali guardariam suas vidas. Enquanto isto, o homem que chegara gritando, fora atingido por algo no estomago, e era cortado por um bisturi; gritara e gemia seus últimos segundos de vida. Até que caiu ao chão.
Esgotado, ao terminar o trabalho, o homem que chegara machucado ainda cortara o nariz do que chegara gritando para ter certeza de sua morte. Então, sentou-se ao lado do corpo caído. Colocou a cabeça entre as pernas, e começou a chorar. Chorava feito criança. Chorava tanto que meus olhos seguiram suas lágrimas. Levantou a cabeça, nos olhou, tentou secar as lágrimas, mas elas pareciam mais rápidas. E começou a nos contar sua história.
“ – Eu era apaixonado por uma menina. Ela era linda. Pele morena, cabelos longos e encaracolados, extremamente religiosa. Cantava com sua voz de mulher as músicas mais belas desse país. E trazia fé com seus olhos enormes à todos que encontravam seu olhar. Sua família não tivera muito dinheiro, e assim, aceitou a oferta deste homem que acabo de cortar por inteiro. Já casado, com oito mulheres, pediu a menina em casamento. A família que passara fome, mesmo chorando, concordou e fez suas condições. Este homem que dissera querer casar com a menina, apenas para ajudar a família e pela voz encantadora que ela possuía, prometeu acatar todas as condições como leis de Allah. Mas não cumpriu suas promessas.
Eu era apaixonado por aquela menina. Que tinha apenas dez anos. Que não se tornara moça ainda, e só pedi que respeitasse e mantivesse os votos até que o sangue descesse à ela. Na noite de seu casamento, ele a teve. Uma menina de dez anos. – Eu era pai daquela menina.”
Minha boca entreaberta tremia a dor daquele homem. O tradutor perdera a voz na frase em que ele revelara ser pai da menina. Para nós, aquilo era tudo muito estranho. Casamentos arrumados, homens com mais de uma esposa, meninas que se casavam, unha por unha dente por dente, justiça pelas próprias mãos. Sentei-me ao chão, enfraquecido, aquelas pessoas precisavam de mim e eu não soubera o que falar. O tradutor me acompanhou. E num momento de impulso, perguntou: “Sua filha morreu?”. E o homem assentando com a cabeça, respondeu: “– Para mim sim.”

Depois de transferirmos o corpo daquele homem para o necrotério improvisado. Nossa médica se ofereceu à examinar a menina. O pai, envergonhado, aceitou sabendo que era o melhor para a filha. Embora aquela cultura rígida, aquele país precário e a pobreza que aquele homem enfrentara, ele pareceu-me alguém sábio. A sabedoria talvez seja isto. Nada de livros, grandes viagens, ou muitas histórias. Sabedoria talvez seja experiências pequenas, entendimento e aceitação.
Quando a menina chegou, procurei manter-me por perto. Suas mãozinhas de criança gesticulavam as coisas que aquele homem morto havia feito com ela. Com oito esposas, ele fizera aquela menina descer a boca até seu órgão reprodutor e praticar sexo oral. Uma menina de dez anos que nem se tornara moça ainda. Ela colocara as mãos sobre a cama, virara de costas e dizia: “depois ele fazia assim por detrás”. – Cada palavra daquela menina e meu coração se tornara cada vez mais pequeno.
Então ela me olhara e dissera: “Não sinta pena de mim. Me odeie, mas não sinta pena. Pena é o pior sentimento que tu podes ter por outra pessoa”. Eu não soubera o que falar, e quando pensei em falar sobre Deus, ela interrompera: “Não odeio Allah. Nem O culpo por isto. Allah me fez passar por isto, porque me conhecera o bastante para saber que eu era forte para superar. Allah fez com que eu passasse por isso, porque Ele soubera que outra menina da minha idade não agüentaria. – Quero dizer, Ele nunca quis que eu passasse por isso, mas Ele não me abandonou. Me fortaleceu. E me enchera de fé”.
Então a menina cantara músicas sobre o seu Deus. Ela realmente tinha uma voz linda. E eu não soubera mais o que fazer com as minhas dores. Do nada, o meu sofrimento desapareceu. Eu me tornei uma pessoa vazia. Imersa em reflexões. – Eu não seria tão forte quanto esta menina. Eu não teria feito o que aquele pai fez por sua filha. – Desculpa se eu nunca soube reconhecer minha fraqueza e se eu estou deixando a minha vida passar. (...)

Preciso ligar para os meus pais, pensei. Mas lá não tivera telefone. (...) Escrevi uma carta durante a noite, depois me joguei na cama do dormitório. Afundei a cabeça no travesseiro e derramei lágrimas até que o sol nascesse. – Aquilo se tornara a minha vida, eu agora era alguém sozinho, distante de tudo. Eu não queria mais estar lá, mas eu não poderia deixar aquilo que precisara de mim. Eu tinha um caminho longo pela frente. Eu não quero ser apenas mais um ser humano por aqui, – e ninguém deveria querer.
Morrer me parece um desafio. Matar, aqui, não é mais uma questão de religião ou justiça. É sobreviver. 

2 comentários:

  1. Você viaja no que escreve Gab. E é fascinante. Como eu li uma vez aqui: você é várias em uma só. Parabéns!

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  2. Fiquei horrorizado com o seu nível de detalhes. O que vc escreveu dessa vez, foi absurdamente lindo e ao mesmo tempo real, um texto com uma força que pode ser confundido perfeitamente com um relato real. Vc é maravilhosa.

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