sexta-feira, novembro 11, 2011

BALÃO DE AR

Tocara o instrumento sem parar, como se a música fosse-lhe uma obrigação. E talvez era. Talvez fosse. Teria que tocar por ela mesma, para ela mesma, com ela mesma. Como alguém que faz um trato consigo e promete que nunca irá desistir. – Ela tocara e a música levara a sua dor. – Eu poderia escutar seus olhos que desapareciam em lágrimas, cantando: “Leva ele de mim, leva ele de mim, leva ele de mim...”.


A minha sorte foi que eu nunca soube tratá-la como uma amiga. Tratei-a como se trata um cachorro: dei carinho, comida, água, mas mantive-me longe a ponto de mostrar-lhe o seu lugar. Eu não queria que ela soubesse quem fui. Saber o que eu me tornaria é um mistério até para mim, mas saber o que eu fui era, senão, um castigo. Ensaiei várias vezes: “Eu fui alguém que lhe faria sofrer, menina.”. Mas deixei que o silêncio falasse por mim. E o silêncio sempre fala da maneira errada, porque pelo não, todos interpretam o “não dizer” como querem. – Droga. – Mania errada de fazer as coisas, em vez de deixar claro o que sinto, deixo vago. E me arrependo.
Mas, a menina, vestira suas meias coloridas, amarrara os cabelos e pegara o ônibus até a escola todos os dias. Seus doze anos eram nítidos na maneira desengonçada de andar. Mas o olhar fixo revelara a grande mulher que se tornaria um dia. – É uma loucura, pensei todas as vezes que fui buscá-la na escola. – Eu, totalmente desregrada e sem nenhum objetivo, cuidar de uma menininha chata. Como poderia? Eu nem gostara do nome que os pais haviam escolhido à ela.
No dia do velório, diante do caixão, fazendo toda a cerimônia que os familiares deveriam fazer aos falecidos. Só consegui fazer uma coisa pela menina: dei-lhe um lenço, sem perceber que, assim como eu, a menina não chorara. Quando o notei, percebi que tínhamos mais em comum do que imaginara. Ela era tão forte quanto eu. Daquelas meninas que batiam o pé e as portas, para obrigar que atendessem seus pedidos, mas que – ao contrariada – seguira em frente sem molhar um centímetro sequer do pequeno rosto de boneca.
Tocara piano, costumara ler bons livros, não tinha muitos amigos e adorara arte. Certa vez me pediu emprestado um livro sobre Arte Moderna. Quando questionei-a o motivo, ela respondeu-me que adorara o quadro de Tarsila do Amaral que eu tinha exposto em minha sala. [...] Ora menininha travessa! Que tinha muito o que crescer, mas que eu sempre vira coragem em seus olhos. Via nela um futuro tão belo e que ninguém mais veria. Via nela a esperança que me faltara e o amor que sempre sonhei partilhar. Ela era doce até bebendo um copo d’água.
A vi crescer e cuidei dela como minha mãe teria cuidado. Perdi meu pai aos seis anos, aos oito minha mãe casou-se com o pai da pequena menina, e aos doze dela, a pequena menina, perdeu os dois. Eu, – afastada de minha mãe, criada pela avó paterna que não aceitara o novo casamento da viúva, e com grande ressentimento por minha mãe sempre deixar transparecer que eu era mais bem cuidada pela avó do que por ela. Como se não ligasse, embora me amasse. – Nunca senti nada de ruim perante a menina. Só preferira que fosse cuidada pela avó também, mas a avó dela era doente, coitada. – Então, não havendo mais quem, a guarda passou-se para a irmã mais velha que, quase abandonou a menina no orfanato. Mas decidiu conter os vícios e não deixar que a menina se tornasse quem eu fui.
Afastar-me dela era dar a chance de que ela copiasse minha história. Então, resolvi vigiá-la, cuidá-la, protegê-la, como se ela fosse um balão de festa que eu não poderia deixar estourar. Eu era aquela criança bobinha, aprendendo aos poucos, que balões de ar são frágeis.
Mas a fragilidade da menina mostrou-me minha fúria na decepção com seu primeiro amor. Aos dezesseis, com um menino mais velho, que tive vontade de arrancar-lhe as orelhas. – Como ele teria feito aquilo com minha menininha chata? – Eu deveria tê-la protegido mais. Mas com essa minha história de pequena solitária, liberalista, e compreensiva; deixei que ferissem minha pobre menininha. – Mas não me mantive calada.
Sim. Eu fui até a casa do menino e dei-lhe a surra que tanto mereceu. Lembrei-me do meu primeiro amor, quando quebrei um guarda-sol em sua cabeça porque ele olhara outra na praia. Mas eu tinha em mãos um pedaço de madeira mais pesado que um guarda-sol e tinha apenas que fazê-lo sofrer, sem matá-lo. Não que, também, tivesse matado meu ex-namorado; quer dizer, matei-o sim. Óh! Matei-o várias vezes só que de amor. Até que ele descobriu que sua vida não era ali e foi-se embora para outro país, deixando-me só com um guarda-sol guardado atrás da porta do quarto, e as fotografias de lembrança... Enfim, dei-lhe a sura, e fui embora boa e bonita.
Ao chegar em casa, percebida do estrago que poderia ter feito à vida da menina, preparei meus pedidos de desculpas e explicações de quase-mãe arrependida que amara um filho. Quando, pega de surpresa, descobri que a amara. E escutei o som do piano vindo do quarto. Ela cantara a música que papai havia composto para mim. Meu pai, pianista, que ensinou-me tocar e colocou-me na escola de ballet. O único homem que realmente fazia-me falta. – Perguntei-lhe onde ela ouvira aquela música e ela dissera: “Faz alguns dias que roubei das suas coisas.”. – Ah! Enchi-me de raiva por alguns segundos, depois lembrei que amara aquela menininha maluca e perdoei-a num instante.
Porque, quando amamos, o perdão é instantâneo. As falhas são muitas, o medo de perder é grande, aceitamos mentiras, e, ainda cuidamos dos nossos balões de ar. [...]
E assim soltei minhas primeiras lágrimas de amor. Escutando o piano, sonhando esperança na música e pedindo para que ela ficasse ali. – Fica, menina, fica; porque na minha vida, tudo se vai...

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