quinta-feira, dezembro 13, 2012

A.

"Então vinha o medo. Não queria aceitar a palavra, empurrava-a para longe do cérebro, mas ela voltava a se impor, e ele estava tão fraco que nem podia lutar. Vinha o medo frio, vinha o medo lento. Primeiro uma carícia brincando nos tornozelos, leve arrepio subindo pelas pernas, arrepiando as coxas. No ventre, solidificava-se feito compressa de carne mole, gelada. No peito, apertava como se quisesse estancar o ritmo do coração, e na garganta implorava para ser transformado em grito. Um grito que quebrasse as paredes, arrebentasse o teto, como um cavalo selvagem. Mas junto vinha também o cansaço recolhido no fundo do corpo, recusando-se a atender o pedido. Enfurecido, o medo escalava o pescoço, fazia estalar a cabeça. Maurício levava as mãos até as orelhas, apertava-as, sentia o liso frio das faces, implorava: não não não. Sem pausa, sem sentido, sem voz, ele implorava como devem implorar os condenados à morte frente ao pelotão de fuzilamento. Sem empenho, porque jamais seria atendido. E, de repente, a dor cessava. Então mergulhava num poço silencioso, esverdeado de musgo, vazio de arestas." 

 Limite Branco, Caio Fernando Abreu

MESES DE SEPARAÇÃO, Sr. SOLITÁRIO

Você precisa me deixar ir. Eu venho me desvencilhando dos lugares, roupas e pessoas; mas você continua o mesmo. Você ainda pensa. Eu posso sentir o seu pensamento me buscando e eu sei o motivo. É a culpa. A culpa de ter tomado o caminho errado, outra vez. A escolha absurda, o afastamento do equilíbrio, a sombra que ocupa o espaço vazio. 
A memória ainda guarda o cheiro do perfume doce, as palavras ainda levam o ritmo da minha leitura, o céu tem as cores que eu descrevi. Você está no mesmo livro, rapaz. O personagem não morreu, porque a história não acabou. Eu não posso pontuar o fim se você não me deixar ir.
Você não pode perguntar sobre mim às pessoas que me são próximas. Você não pode assistir aquele filme que nós gostávamos. Você não pode inventar e viver uma história como se eu ainda estivesse ali. Você não entende? O telefone não vai tocar, os livros não irão perder as palavras, as janelas estão trancadas e as portas destruídas. Não há passagem. Há separação. 
A separação tem que ser real. A dor não é separar-se, a dor é saudade. A saudade não nos pertence mais. Somos duas almas que deveriam escolher a solidão diante do abandono. Porque sim, sim rapaz, nós nos abandonamos. Não houve um “até logo”, nem um “adeus”, muito menos o estimado fim. Houve medo, fuga, urgência, abandono. 
E como é possível duas almas predestinadas ao romantismo resolverem abandonar o amor? Resposta simples. Nós deixamos de fazer bonito aquele amor que era tão real. Nos perdemos. Fizemos um trato com a rivalidade e venceria quem fosse mais cruel. Mas cruel com o quê? Com quem? Com as pessoas que nós deixamos que fizessem parte desse teatro? Ou com nossa própria dor? 
Permitimos que aquelas pessoas se aproximassem, tomassem lugares, descobrissem segredos e sofressem com o nosso mistério. Pessoas como nós, querido Senhor Solitário, deveriam permanecer sós. No entanto, nós procuramos aconchego, encontramos um lar, cercamos nossa casa e construímos uma vidinha simples e doce. E que mal há nisso? Onde está o erro? O erro está na história que eu não pontuei. 
É a separação que a sua alma não deixa que eu viva. Senhor Solitário, me escute, me leia, eu imploro! Deixe-me ir. Estou só há meses nessa espera de que você me esqueça, mas eu não vejo o esquecimento em seus traços. De longe, passo em frente de sua casa todos os dias, nunca o vejo, mas sei que estás lá. Sentado, tentando admitir a solidão daquele buraco negro, até que o passarinho faça parte da cena. 
É lindo escutar o canário cantar, mas a sua alma encontra-se aflita. O canto não acalma se você não permitir-se. O problema é que, para isso, você precisa me deixar... E você não o quer. Você quer que eu permaneça e faça você acreditar que a escuridão daquele buraco negro irá se tornar um arco-íris de cores. Você precisa acreditar nisso. Precisa que o vento traga um sopro de vida aos seus olhos vermelhos. 
Afinal, os meses de separação são bonitos ou inevitáveis? Me pergunto se você os vive ou apenas finge. É que a sinceridade desse encanto não corre junto com a correnteza da sua alma. Ao contrário, ela afunda. – Você está se afogando no seu próprio erro, ao invés de se buscar saúde, são os velhos costumes que aumentam. São novas mentiras para os nossos pais, porém as mentiras escondem os mesmos deslizes. 
Deixe-me ir, Senhor Solitário. Você tem que se desvencilhar dos lugares, roupas e pessoas, mas você – você – continua o mesmo. Como se a separação não existisse e os tempos fossem sempre Natal.

sábado, outubro 13, 2012

A.

"O tempo da maturação é importante. Escrever é como fazer pão. O tempo de fermentação é indispensável, pois é ele que faz com que o pão cresça antes de ser levado ao forno. Antes da publicação, a fermentação das palavras. O motivo é um só. As palavras podem ser traiçoeiras. Por isso — preciso — oferecer-lhes descanso." 

Tempo de Esperas, Fábio de Melo 
Obrigada Rita.

NÃO É HORA

"A pergunta era a mesma: “Está na hora?”. Porque voltar ainda carrega o mesmo preço pelo qual eu pago ao continuar. Não estamos valendo nada. Nossos corpos estão nus, desprotegidos, as almas estão abertas. E em minha frente eu posso enxergar o exército se aproximando. Nós somos presas fáceis. Somos as vítimas que ninguém irá defender. Nesse crime não haverão criminosos, porque estamos isolados." 


Sinto necessidade de que me escutem, no entanto ainda não posso falar. As palavras estão guardadas no silêncio que só eu posso ouvir. Os braços que me acolhem poderiam sentir de leve o som das rimas, mas eu ainda gaguejo quando penso em falar de amor. 
E se o amor não for tudo o que eu pensei? Não se trata mais da pessoa perfeita, dos encontros com trilha sonora, dos monstros que ameaçam o final feliz. Não. Talvez se trate de algo muito mais simples. Duas pessoas, duas vidas, duas histórias, nada exatamente os completam, um não precisa do outro, porém os olhos gostam, a pele gosta, a presença é gostosa, é um pouco doce, meio mágico, é simples. 
Eu sei porquanto eu caminhei procurando entendê-lo. Mas decifrá-lo está longe de minha capacidade. Eu não o pertenço, assim como ele está longe de mim. Posso notar suas aflições, mas não posso tocá-las. “Eu quero cuidar de você, menino.” – Eu quero mostrar o lado branco, o meu lado, o lado neutro, um pouco confuso e ainda belo. Quero que venha comigo, quero segurar suas mãos, quero dividir alguns capítulos.
Porque é assim: a gente nasce para dividir alguns capítulos da nossa história com outras pessoas. Tem a parte dos pais, dos irmãos, da escola e dos amigos que ela nos traz, dos amores, do casamento, dos filhos, dos netos, da velhice. A velhice é o capítulo mais sereno. O fim. Os finais felizes são compreendidos quando podemos encerrar o nosso livro. É quando posso olhar para trás e ler todas as palavrinhas que marcaram meu coração. Quando cada importuno faz sentido, porque cada fraqueza fez ser o que eu sou. É a parte bonita. A parte sincera. A parte em que quase tudo está escrito. 
O desafio então é saber fazer com que as palavras de hoje possam levar beleza para o amanhã. Não é difícil fazer sincero o presente. Ah, difíceis somos nós! Nós que não sabemos embrulhar o presente com fitas vermelhas de Natal, que só falamos do passado e do futuro, e esquecemos de construir o sorriso de hoje. Nós que somos frágeis, tão frágeis quanto os corações velhos. Que somos sozinhos mesmo que haja uma multidão lá fora. Que entramos na música e deixamos de tocá-la dentro. Dentro, talvez, seja o segredo: Deixar entrar. 
Ah, rapaz, se você soubesse o quanto as palavras já me traíram... O quanto me causa medo trazê-las de volta. O quanto o silêncio da minha isolação é mais confortável. Se você soubesse... se você ousasse... Se o passo à frente fosse dado me pouparia tanta dor. Porque as coisas não vão bem, mas eu continuo aqui, como sempre fui. Da mesma maneira que sempre me encontrou: forte, transbordando coragem, suspirando esperança e trazendo o medo no olhar. 
O medo paralisa. O medo me deixa calada. O medo é a cigarra que canta lá fora. O silêncio do medo é o que você enxerga todas as noites ao passar pela minha casa. – Sim, eu sei. – Você percorre os mesmos caminhos. 
A velocidade dos seus passos não mudou. A vida seguiu, no entanto a rotina é igual. As mesmas conversas, embora pessoas diferentes. Os mesmos divertimentos, embora outros locais. Os mesmos vícios, embora novas drogas. Somos os mesmos. 
E eu suponho que continuará assim. Porque cada livro segue um ritmo. E os nossos é a mesma bossa-nova de sempre. É o mesmo cigarro no cinzeiro, a mesma janela aberta, o mesmo telefone que não toca. As mesmas lágrimas e a mesma lamentação. 
O que muda, rapaz, é que eu estou mais livre. E o seu amor não é meu.

terça-feira, setembro 04, 2012

A.

– O que o amor faz?
– O amor nos faz crianças, querido poeta. 

Pois, como escreves, somente as crianças podem enxergar a vida com pureza, possuir medo de perder e sentir proteção em um simples ato, como dar a mão.

MEU SEGREDO

“Atravessar a sala de aula para chegar a carteira do menino era o maior desafio de sua vida. O caderno era rabiscado com corações e o nome do amado.
Olhava-se no espelho e sentira-se deslocada do mundo em qual vivera. A menina era romântica e tivera sonhos, escrevera num diário e não era a mais bonita da classe. E, em seus dez anos de vida, o que mais desejara era declarar o amor que ela sentira.
O amor guardado a sete chaves, que vivera ameaçado pelo medo do “não” e pela possibilidade de perdê-lo.”

No meio da aula a memória o traz e, de repente, estou sorrindo. Tenho vontade de estar com ele, abraçá-lo, chamá-lo para tomar sorvete, dar as mãos... Seu sorriso me traz paz. Sua maneira de tratar-me me faz feliz. Seu jeito de menino se tornando homem, me encanta. Sua fé e seu jeito de encarar a vida me trazem coragem. É simples, muito simples. Mas eu sou apenas a sua amiga.
Torcemos pelo mesmo time; temos as mesmas opiniões, mas discutimos às vezes. Ele é sincero comigo, já tentou me dar conselhos e vejo que se eu precisasse de algo, ele estaria ao meu lado. Achamos engraçado o pontinho verde no canto da sala e eu adoro vê-lo sorrir. Sinto que ele não me suporta algumas vezes, mas tudo bem, porque algumas vezes também fico magoada com suas faltas.
Vejo muito de mim nele. Percebo que assim como eu, ele também está perdido. Porém, toda aquela vontade de continuar... ah!... toda aquela vontade de continuar me traz esperança. Por muitas vezes, pedi a Deus que me trouxesse um sopro de vida e, agora, todas as vezes que assisto aqueles olhos brilhando posso enxergar todos os motivos de estar aqui.
Minha escrita anda lenta. Tenho medo de que descubram tudo o que ando guardando aqui... Tenho medo de que descubram como as coisas andam quebradas... É tão estranha a maneira com que a vida me colocou de frente a ele. Seria errado um romance com alguém que deveria ser apenas meu amigo. Alguém que não conhece nem a nossa amizade. Alguém tão lindo que, eu não poderia machucar. Sinto ciúmes, tenho medo de perdê-lo, mas não me sinto no direito de demonstrar o que é que há. – “O que é que há?” – Há, não sei!, alguma espécie de magia. Uma sintonia entre duas almas, dois corpos, duas vidas. Há algo fraterno e bonito, sincero. Algo especial. Tão simples que eu nunca senti.
Não é algo que me tira o chão. É algo que me faz suspirar com doçura. É um carinho leve, um desejo sereno de dar as mãos, uma delicadeza em querer estar ao lado.
A amizade é o sentimento mais leal entre duas pessoas. Já diria o poeta: "é possível haver amizade sem amor, mas não se pode ter amor sem amizade.". 
Todas as noites, eu paro e entrego à Ele o meu segredo. – “Meu Pai, se ele for meu, entregue-o para mim na hora certa.”. Porque se isso for amor, então eu saberei esperar. 
Eu havia prometido a mim mesma que as pessoas deveriam gostar de mim pelo o que eu sou, sem cautelas e sem conquistas. E agora tenho vergonha de parecer boba ou desesperada. Deve ser – o começo exige mesmo essas borboletas no estômago, não é? 
Sei que eu sempre preguei que devemos correr atrás daquilo que nós almejamos. No entanto, o meu maior medo não está na possibilidade de que me esnobe. Eu temo a mim mesma. A maneira com que me conheço e sei que este sentimento pode não ser. Por isso, as mãos Dele são necessárias. Deus precisa curá-lo de mim e precisa protegê-lo das minhas defesas. 
Deus, faça-o feliz, porque ele é lindo. E, se puder, faça-me amá-lo, porque eu gostaria de ser o motivo daquele sorriso. – Ah! Aquele sorriso...

quarta-feira, agosto 22, 2012

F.

"Existem momentos da vida que 
precisamos literalmente fazer uma 
limpeza dos antigos conceitos e abrir 
caminho para novas aquisições. 
Se olhe, 
Refaça,desfarça.. 
Rabisque, critique-se 
Desembrulhe, desconstrua... 
Mergulhe, respireeeee 
Vamos! 
Experimente 
Abra caminho, lance ponte... 
Eis a transformação necessária 
Que deveria ser constante ao ser que 
somos, mutantes."

— Joana Darc Araujo

17ª CARTA

"Tempo de esperas."

Agosto de 2012, Piracicaba/SP 

Querida Clarissa, 
o relógio na parede aponta duas horas e quinze minutos. A noite é silenciosa e solitária. E por minha conta. Eu poderia estar com ela agora, mas estou aqui – deitado na cama e tentando dormir. Me conheces, Clarissa. Sabe sobre minhas confusões. E, novamente, estou aqui preso sobre a decisão da loucura ou do costume. 
Meu erro é o mesmo de sempre: me envolver com as pessoas erradas. Gosto de estar com ela, mas o jeito da outra me encanta. Estou dividido. Com uma é sexo. Sexo mesmo! A coisa mais louca que já vivi com uma mulher. Com a outra é doçura. É gostarmos de coisas em comum, e, discordarmos de outras. O físico de uma me enlouquece, a sinceridade e a sonoridade da voz da outra me acalma. É torturante! Porque são amigas... 
Porque uma tem meu corpo e a outra ganhou meu coração. Porque uma sabe a hora que chego e a outra nem imagina que gostaria de estar ao seu lado. E machuca. Machuca porque estando com ela vivo a vida da outra. E tenho que esconder como chama a minha atenção quando aqueles olhos brilham como as estrelas desta noite. Tenho que disfarçar minha fragilidade, porque as pessoas dessa cidade conhecem apenas a minha força, o meu delírio, a minha imprudência. 
Não sabem que aqui dentro ainda mora o menino que pegava a bicicleta e pedalava até a casa da avó para escutar as histórias mais fantásticas de minha vida. Não sabem que sinto mais do que ajo e que penso mais do que falo. Não sabem dos meus maiores segredos e não poderiam imaginar como é fácil me derrubar. –  Não podem saber da tempestade que cai dentro de mim: sou dela, mas queria ser da outra. 
Por isso não respondi aquela mensagem. Rejeitei a noite prazerosa que sei que teria com aquela mulher e estou aqui imaginando o sorriso da outra... Ah, como é doce! Como é linda! Tem tudo o que eu sempre procurei para ter ao meu lado: é simples e cheia de fé. 
Não entendo. Por que duas amigas? Talvez seja a vida me pregando a velha peça do: “aprenda, não é possível obter tudo”. Seria mais fácil se pudéssemos largar os velhos hábitos, conter o ciúme, não nos confundirmos como propriedades e deixarmos livres as pessoas que nos são belas. Porém, é fato, não é humano aquele que não ferve a veia de ciúme. Não é leal aquele que não está com a mão aberta. E não ama aquele que trai. 
É por isso que me contenho. É por isso que devo me afastar dela e da outra. Não posso ferir aquilo que eu poderia amar. Não posso ser egoísta quando aprendi da pior forma que o amor é prêmio dos merecedores. E para merecer é preciso de algo que, quando entendido o significado, é desafiador conseguir sê-lo. Para merecer o amor é preciso ser gentil. 
A generosidade e o sacrifício andam juntos neste caminho. É preciso ser generoso com quem se ama e é preciso sacrificar-se para ser verdadeiro. Amor exige lealdade, princípios, força e fé. Amor não é aquilo que as revistas e televisões expõem. Amor é o objetivo pelo qual vivemos. E sem ele a vida é triste, insone, cinza. A vida sem amor passa em preto e branco. 
Clarissa, eu lhe perdi pelos meus desatinos. Carregarei esta culpa para sempre. Porém, saiba, não lhe perdi porque desisti de ti, eu lhe perdi porque desisti de mim mesmo. Não posso mais desistir de mim. É tempo de espera. Faz-se tempo de espera por aquilo que é bonito e não por aquilo que é passageiro. – “Me espera.”.

Com amor, 
Danillo.

quarta-feira, agosto 08, 2012

C.

"Sempre fui mulher para encorajar e aceitar as minhas vontades. Se quero, quero. Se não quero, não quero. Posso parecer confusa, às vezes. Mas continuo aquele meio-termo: mulher ou menina? A verdade é que sou à moda antiga. À moda antiga lapidada nos tempos de hoje. Acredito que o homem tem que tomar a frente da relação, porque quando a mulher toma a atitude perde-se a imagem do homem e fica tudo menos encantador. Mas, conforme a urgência dos tempos atuais, não sei dizer não às minhas vontades. É assim: se ele não vem, não vou; se ele vem, eu aceito e aceito sempre, para sempre. - Vou citar Tati Bernardi: "Se o homem realmente gosta, ele vai até o inferno por você. Ele vai sim, e ainda abraça o capeta se for preciso. Sabe por quê? Porque homens são previsíveis, se eles querem eles querem, se não querem, não querem. A raça dos homens não é complexa igual a nós mulheres, que sempre temos dúvidas, que sempre analisamos, pensamos, colocamos mil problemas e tal. Homem é tudo igual. Eu sei é clichê, mas é a mais pura verdade. Quando o cara quer, não tem distância, problemas, família, trabalho, tempo, futebol, estudo, mãe, unha encravada, barba por fazer, celular sem bateria, chuva, temporal, falta de dinheiro que o impeça de estar com você. É simples. É a realidade.". Eu funciono assim, racional. Mas, no fundo, é medo. É romantismo. É uma espera frustante de ser surpreendida. Por isso, rapaz. É fácil: surpreenda-me." 

 — A.M.D.M.

4ª CARTA

Julho de 2012, Piracicaba/SP.

Querida Clarissa, 
entrei no curso como havia lhe escrito na última carta. Precisei escrever sobre isto, porque hoje, após duas semanas de curso, estava conversando com Willian – um colega – e enquanto marcávamos para assistir o jogo da quarta-feira me deu um branco, sabe? Aqueles momentos que a gente para e fica pensando, foge do lugar, voa longe... É que lembrei que estou conhecendo pessoas novas. 
É um processo longo essa coisa de continuar a vida, não é? Acho que estou passando pelos últimos capítulos deste livro, logo chega a hora de começar um novo. Conheci pessoas totalmente diferentes de mim e acho que isso foi a melhor coisa que me aconteceu. Eu sei que é estranho, mas estou empolgado. E empolgação é algo que não combina comigo. 
Troquei de emprego, resolvi ir atrás de fazer o que eu gosto. O curso é ótimo. Continuo com a faculdade, porque não é hora de desistir. “Desistir” é palavra desconhecida de meu dicionário daqui pra frente. Comecei a fumar, confesso. Mas tu me conheces, sabe o quanto sou ansioso, e o quanto preciso de algo para quebrar meus conflitos. O cigarro vem descarregando as energias e não pretendo parar tão cedo.
Ando conversando pouco com a família que deixei na velha cidade. Ainda não é tempo de amarrar os laços novamente. A casinha que aluguei está ficando do meu jeito e, por enquanto, não tenho vizinhos; o que é ótimo, porque posso colocar minhas músicas no meu volume durante a madrugada; e o que é ruim, porque pela primeira vez gostaria de ter vizinhos. Ah, claro, “durante a madrugada” não perdi a insônia. Nem sei se isso é algo que “se perde”, porém não irei continuar com os remédios para o sono. 
Comecei a ler um livro maravilhoso segunda-feira, chama-se “As cinzas que se tornaram fogo”. Tenho certeza que gostaria de ler este livro. Fala sobre um rapaz que teve que re-começar a vida. Re-começar assim mesmo, com hífen separando porque ele na verdade nunca havia começado nada. Sei lá, o livro mudou minha ideia sobre o “começar”. A gente só começa aquilo que termina. Se não termina, não existiu. Pode descartar. 
Bom, no momento não tenho muito a escrever. Peguei o papel com uma felicidade desigual e pensei: “Preciso contar à Clarissa o quanto minha vida está sendo vida.”. Porque, sim. Sim, Clarissa. Você estava certa. Eu não tivera vida antes. Eu brincara com ela. 
E como você mesma me ensinou, a tristeza é o único sentimento que nos faz escrever palavras belas. A magia do amor, a alegria e a paz, não nos trazem a mesma reflexão. Talvez seja isto: Eu ando bem, meu amor. Eu ando tão bem que escrevo tão pouco. 

Com amor, 
Danillo.

terça-feira, julho 31, 2012

B.

“Algumas pessoas não sabem o que dizem. O Beija flor não é um pássaro comum. Sua frequência cardíaca é de 120 batidas por minuto. Suas asas batem 80 vezes por segundo. Se você segurasse um beija flor e impedisse ele de bater as suas asas ele morreria em menos de 10 segundos. Ele definitivamente não é um passaro qualquer! E isso é um verdadeiro milagre! Uma vez observaram através de uma câmera lenta o bater das asas de um beija flor, sabe o que eles viram? As extremidades das asas se movem fazendo o numero 8 no ar; Sabe do que o numero 8 é simbolo matemático? Infinito!” 

 — O Curioso Caso de Benjamin Button, adaptação do romance de 1920 de F. Scott Fitzgerald

1ª CARTA

"Nossa vida está organizada de acordo com a nossa casa. Minha vida anda bem, desde que não abram as gavetas."

Junho de 2012, São Paulo/SP.

Querida Clarissa, 
vários acontecimentos marcaram minha vida após a sua partida. Sei que tenho grande culpa por seus passos percorrerem outro caminho neste momento, caminho paralelo ao meu trajeto. Porém, de algo eu sei que não tenho culpa. Não posso sentir-me culpado por ainda lhe amar. – Gostaria de dividir minha vida com você novamente e sei que isto seria impossível, então resolvi escrever esta carta. 
Ontem recebi um dia de folga no trabalho. Poderia ter saído, encontrado novas pessoas, distrair a cabeça... Mas, assim como acontece em minha vida há meses, permaneci em casa. Resolvi limpar a casa que estava uma bagunça. E, durante a arrumação lembrei-me da vez em que tu me disseste que a nossa vida está organizada de acordo com a nossa casa. Analisei a situação e percebi que isto é verdade. Quando minha vida está bem, tenho vontade de deixar tudo no lugar por aqui. Mas, quando as coisas vão mal, minha casa tem que representar o lixo que os dias andam sendo. – Porém, no momento, a casa está arrumada, desde que não se abram as gavetas. Deve ser isto: minha vida está organizada por fora, mas por dentro... Por dentro a bagunça espera a hora de ser lembrada. Você sabe. Eu necessito de um tempo só meu para conseguir coragem de mexer na minha bagunça. 
Bem, as coisas mudaram por aqui. O Pedro está namorando e, antes que você se engane, não está namorando a Débora. Conheceu uma menina e se apaixonou. A menina é linda, se chama Alice e é formada em Artes Plásticas. Sempre que posso vou até a casa de Pedro trocar uma ideia com ela. A garotinha leva jeito pra vida, tem olhos fixados no futuro e seus desenhos representam a vida de uma maneira que, pessoas como nós sabemos que é vida, mas outras pessoas entenderiam apenas como um simples desenho. 
João se tornará pai daqui um mês. No começo, achei essa história esquisita, confesso. Mas hoje penso que toda criança é uma benção e deixo que Deus abençoe o que virá. 
Andei me aproximando mais de Deus. É claro, nada de igreja todo final de semana. Mas dediquei alguns minutos dos finais de meus dias para agradecer a continuação. Antes eu acreditara que nós tínhamos que agradecer as coisas boas, hoje eu entendo que nós devemos agradecer pela capacidade de permanecer firme, de desejar continuar, de – mesmo que doa – poder esperar que as coisas melhorem para nós. E acho que era isso que você tentara me dizer e eu, sem muita paciência, não prestara atenção. 
Andei deixando muitos amigos para trás. Talvez porque não fossem meus amigos ou eu não fosse amigo deles. Comecei a colocar nos dedos quem poderia me por para frente e quem poderia me deixar para baixo. Resolvi cortar os dois. Amigos tem que estar do lado, nem atrás nem na frente, mas caminhar ao lado. 
Há pessoas que estão ao nosso redor, mas nos causam inveja. Não dá pra ser amigo de alguém assim. Amigos tem que nos despertar o desejo de querer o melhor para o próximo, não de querermos ser melhores que eles. Talvez você ache naturalista demais este pensamento, mas vai notar que bons amigos não nos fazem sentir sentimentos ruins como inveja, soberba, tristeza ou rancor. 
Algumas músicas e livros eu também excluí de meus dias. Parei de procurar por aquilo que me trouxera inteligência e comecei a procurar aquilo que poderia me trazer sabedoria. Sabedoria tem a ver com preenchimento de alma. Então, hoje, procuro ler e escutar aquilo que me causa satisfação. É preciso que algo realmente me toque para que me desperte. É preciso que algo me traga novas visões, mas é preciso principalmente que aperfeiçoe aquilo que já é meu. 
Descobri novos lugares nesta mesma cidade. Nada de bares, boates ou afins. Fui atrás de natureza. Encontrei paisagens lindas e resolvi comprar uma câmera digital. Muitas vezes, tirei fotos pensando em como você gostaria de vê-las, Clarissa. Mas hoje tiro fotos imaginando como eu não gostaria de esquecer que estive ali. 
Ando muito eu, eu com eu mesmo. E eu tenho parado para escutar um pouco da vida. Acho que é isto que eu sempre precisei. Parar. Entender o que a vida tem para me dar e, sobretudo, entender o que eu tenho que ganhar dela. Mas ganhar com esforço, você sabe. Você me entende, Clarissa. Você entende que eu compreendi o valor das coisas e dos dias. Você entende... 
Clarissa, lhe escrevo em breve. Saiba que eu sinto falta daquelas noites em que ficávamos deitados na cama conversando sobre o que poderia ser e o que deveríamos fazer para ser. – Cuide-se. 

Com amor, 
Danillo.

domingo, julho 29, 2012

A.

"Coragem, às vezes, é desapego. É parar de se esticar, em vão, para trazer a linha de volta. É permitir que voe sem que nos leve junto. É aceitar que a esperança há muito se desprendeu do sonho. É aceitar doer inteiro até florir de novo. É abençoar o amor, aquele lá, que a gente não alcança mais." 

 — Ana Jácomo

PARA 1ª CARTA

“Ainda criança sonhamos a vida da maneira mais inevitável possível. Quando nos tornamos adultos, temos a certeza de todas as impossibilidades. Mas desistir seria abandonar os olhos de esperança que nos pertenceram há anos atrás. – Continuar andando é a maneira de encontrar um novo caminho.” 

Sexta-feira. Chegou em casa, apontou a mão para acender a lâmpada, click, click, a lâmpada não acendeu. “Acho que queimou”. Percebeu o mal-cheiro que viera da geladeira. “Nada disso. Cortaram a energia, outra vez”. Cansado, não pagara as contas. Trabalhara todos os dias e no final do mês nunca sobrara dinheiro. – É, rapaz, não é fácil começar a vida. – Tornar-se independente não é somente um degrau para se subir, é uma escada inteira. 
Deitou no sofá, pensou nas contáveis coisas que poderia fazer durante o final de semana. Nenhuma boa opção. Pensou em ligar para Pedro, mas soubera que o amigo estaria ocupado com a namorada. Rafael viajara. Madalena trabalhara até tarde e se preparara para o concurso do mês que vem. Todos continuaram suas vidas e ele ainda era o mesmo. 
O fato de estar só não o incomodara, nunca o incomodou. Sempre preferiu a solidão, o lugar tranqüilo, a boa música quando se pode ouvi-la sem ser interrompido. O que o atormentara são os sonhos que ele não conseguiu alcançar. – Mas “não conseguir” era uma expressão forte demais para ele. Não conseguir sugere tentativa e ele nunca sequer saiu do lugar. – A vidinha confortável pode causar costume, como também pode causar espanto. 
A escuridão da casa trouxe-lhe as lembranças do passado. As estradas, os desvios, a placa de ida, a placa de volta, a espera do ônibus amarelo, a faculdade, o carrinho de churros que ficara parado na esquina... As vontades e as vezes em que foi contrariado. Os “nãos” e as portas fechadas. As aflições e os perigos, e, até os perigos que na hora pareciam amigáveis. – A escuridão de uma casa é o buraco negro que pode trazer as revelações mais profundas, sinceras e inesperáveis. 
“Eu nunca tive um sonho”. E era verdade. O que ele tivera eram miseras alucinações, desejo de grávida, sonhos emprestados dos personagens favoritos das séries de televisão. Nunca tivera coragem de arriscar sua própria vontade. Vivera das vontades alheias e isto nunca havia lhe perturbado. Era fácil brincar de vida quando no final da noite tivera o gosto do álcool e da mulher amada em sua boca. 
Mas, agora, antes de dormir ele pensara nas oportunidades que ele nem sequer notou que eram oportunidades. Pensara nas derrotas e nos motivos de cada lágrima. Soubera sua culpa e sua inocência. Poderia justificar cada erro, mas era tarde demais para receber o seu próprio perdão. 
Pegou o celular no bolso e conferiu os contados da agenda. O nome dela permanecera ali. Pensou em ligar para escutar a voz compreensiva dela dizendo: “Eu lhe entendo”. Ela o entendera. E ela não rejeitaria ouvir seus martírios, mas já não era hora de procurá-la. Provavelmente ela seguira a vida dela e o medo de obter a certeza de que ela nunca mais irá fazer parte de sua vida era dispensável para o momento. 
Tirou os sapatos, pegou papel e caneta e resolvera escrever. – Embora ainda não possam descrever exatamente o que sentimos, as palavras tem a capacidade de nos mostrar uma saída. – “Cheguei em casa, descobri que a energia foi cortada...”, não, isso não. Amassou o papel, jogou no lixo, começou outro rascunho. “O que é um sonho? Sonho pode ser aquele de padaria, de criança, pertencente a noite ou...”, não, também não. Outro papel no lixo, mais uma tentativa. “Querida Clarissa, vários acontecimentos marcaram minha vida após a sua partida. Sei que tenho grande culpa por seus passos percorrerem outro caminho neste momento, caminho paralelo ao meu trajeto. Porém, de algo eu sei que não tenho culpa. Não posso sentir-me culpado por ainda lhe amar. Gostaria de dividir minha vida com você novamente e sei que isto seria impossível, então resolvi escrever esta carta...”. 
Era uma saída. Tomou a decisão de escrever à Clarissa todos os dias, mesmo que a carta levasse apenas quatro linhas ou que ele nunca a enviasse. Ele escreveria. E guardaria todas as cartas em envelopes na primeira gaveta da escrivaninha de seu quarto. 
Terminou a carta pensando se a vida poderia ainda colocá-lo de frente a Clarissa para que pudesse entregá-la pessoalmente. Soubera que sim. Histórias inacabadas são ciclos e tornam-se labirintos da vida onde andamos, andamos e chegamos sempre ao mesmo lugar. 
O problema é que nós falamos da dor como se com ela não se possa viver. Ao contrário, com a dor ou sem ela, os dias passam. Só o que pode tornar a vida diferente é o amor. Pois só ele nos dá ânimo de pagar as contas, mudar o caminho, escrever novas histórias e traçar um objetivo confiante. – Tomou banho, deitou, dormiu. Amanhã será um novo dia. E haverá uma nova carta.

terça-feira, julho 10, 2012

LENHA
Composição: Zeca Baleiro e Adriana Calcanhoto

"Eu não sei dizer,
O que quer dizer,
O que vou dizer.
Eu amo você,
Mas não sei o quê,
Isso quer dizer... 

Eu não sei por que, 
Eu teimo em dizer, 
Que amo você. 
Se eu não sei dizer, 
O que quer dizer, 
O que vou dizer... 

Se eu digo: Pare! 
Você não repare, 
No que possa parecer. 
Se eu digo: Siga! 
O que quer que eu diga, 
Você não vai entender. 
Mas se eu digo: Venha! 
Você traz a lenha, 
Pro meu fogo acender... 
Mas se eu digo: Venha! 
Você traz a lenha, 
Pro meu fogo acender..."

I HOPE YOU UNDERSTAND

"É uma moça determinada", disse ele.  Acordara cedo todos os dias, trabalhara, estudara, batalhara para ter suas coisas. Não era justo. Construiu objetivos em sua vida e iria conquistá-los. Não fizera sentido apaixonar-se por um rapaz irresponsável como aquele. Já houvera provado de veneno parecido e não tivera vontade de perecer da mesma morte... Gostara dele, não gostara é da idéia de gostar dele.
Mas coração a gente não manda, não é? Não é isso que as fantásticas histórias de filmes e quadrinhos sempre nos trouxeram? O amor não é, nunca foi, nem será algo calculado. De cálculos vivem os loucos e loucura nada tem a ver com amor.
Ah, mas “amor” ainda era uma palavra forte para a moça. Ela dormira pensando nele, trabalhara pensando nele, tomara água pensando nele. De repente, tudo ele. O rapaz bonito de família rica, galanteador; que acreditara em Deus. E talvez fosse a sua fé que roubara o coração da moça. Ela andara tristonha, cabisbaixa, precisara de esperança e encontrara alguém que conhecera um jeito.
Um jeito de concretizar suas crenças. No fundo, o rapaz mulherengo tinha um bom coração. E a moça soubera disso como nenhuma outra moça poderia saber. – Foram feitos um para o outro, mas ela percorria outro caminho.
A moça, como já dito, tornara-se determinada; não tivera mais tempo para deitar a cabeça no travesseiro e voar longe. Perdera a paciência para pieguisses e pessoas mal-resolvidas. “Não tenho tempo a perder” – repetira sempre. Mulher inteligente, corajosa, perdera o medo do escuro e da solidão, disposta a enfrentar rios e mares para alcançar o que foi desejado, só não tivera forças para derramar lágrimas pela falta de planos.
Não foi planejado. Não precisou de muito tempo, não teve alarmes e ninguém disse que não. Então o que é que a incomoda? Há quem diga que o medo tivera tomado suas forças, mas quem a lê sabe que não. Dentro dela poderiam brotar tempestades que ela ainda estaria de pé. – Mas o que é então? – É você, rapaz. Que apareceu sem prepostos, que deixou fraco o passado, que trouxe paz para ao que era tormento. E, em meio essa paz, mostrou a moça o que era “luta”. E agora ela luta contra saudade que ficou... Vê se volta logo, rapaz. Tem uma moça que lhe desdenha esperando que a compre.

sábado, julho 07, 2012

A.

“Não confunda derrotas com fracasso nem vitórias com sucesso. Na vida de um campeão sempre haverá algumas derrotas, assim como na vida de um perdedor sempre haverá vitórias. A diferença é que, enquanto os campeões crescem nas derrotas, os perdedores se acomodam nas vitórias.” 

 Roberto Shinyashiki

ATÉ O FIM

Lá vem ele. Passos calmos, olhos atentos em suas mãos que envolvem o beck. Vai procurar sua fuga outra vez. O que ninguém entende é do quê ele foge. – Do quê foges, rapaz? – A música não o encontra, as composições não são as mesmas; quer mudar de vida, mas tem medo. O novo é desconhecido. Por mais que a vida seja triste, ele andou muito até aqui. As estradas em noites frias trazem a solidão que só aqueles que já viram o céu sem estrelas podem entender. Sem saudade. Vontade – de sei lá o quê! 
Quer rodar o mundo, acender novas velas, tocar algum instrumento; mas não sai do lugar. Aqui é confortável, não é? A roupa está limpa, o carro está na garagem, o cachorro já não late e a comida está quentinha. Dá pra brincar de vida. Pode tentar se matar. É permitido falar o que acha bonito, só não tem capacidade de falar o que sente. 
Mente. Faz de conta que está tudo errado, chama a “falta de coragem” de “tristeza”. Paga uma de coitado. Diz que vai mudar de vida, todo mundo acredita, mas volta a fazer sempre as mesmas coisas. Dentro dele há uma criança, talvez um sonho perdido, mas por fora só se enxerga um monstro. O monstro que todos dão nome, sabem por onde anda, o que faz, porque o faz, como chegou e a hora de partir. – Ele sabe o que há dentro dele e se envergonha do que as pessoas podem ver por fora. 
Sabe que as lágrimas que caem têm nome. Levam o nome dela, o endereço dela, os olhos dela. Ah! Os velhos olhos negros que ele nunca irá esquecer... Tem consciência do quão triste ele faz a vida, e, por isso, a quer longe. Mas a tristeza também ganha nome. Chama-se “culpa”. Culpa que as costas carregam de todas as estradas que ele já percorreu. Todas as encruzilhadas qual tomou o caminho errado, o desvio, a urgência. Teve sede de vida e sempre permaneceu na morte. Da alucinação à rotina. Do delírio à nostalgia. Dos bons tempos ao “Quando é que fui feliz?”.
As mãos doces do rapaz apontam sempre para o que ele não possui. A felicidade está distante. O céu tornou-se algo normal, que todos podem ver e que ele não enxerga mais. – Rapaz, você está perdido! – Eu posso sentir a confusão aqui de longe quando teus olhos vermelhos permitem gotinhas brancas.
O seu problema é manter-se dividido e nunca inteiro. Tu procuras o sorriso na terceira pessoa, enquanto a vida mostra que o verbo sorrir só pode ser conjugado na primeira. Apenas você – rapaz – você, e mais ninguém, pode comandar seu sorriso. Ninguém é digno de manter em mãos a sua esperança. Pegue-a de volta e segure-a, porque ela é tua. A esperança é tua. A vida, a fé, os dias melhores são teus. Ninguém poderá cuidar disso para você. As escolhas são tuas, os ventos são teus, o mundo nasceu para ver você andar. Não dá pra depender de ninguém, nem da droga, nem da fuga, nem da mulher, muito menos da maçã. Tem que ser feito por você, metas e méritos. Caminhos e vitórias. Batalhas perdidas e desejo de continuar.
You know, you can change that. Não há um destino escrito, sua vida não está predestinada à tristeza; Vai sempre faltar algo e o dever que nos foi dado é tentar fazer que falte menos. – Vai lá, rapaz. Tem uma lista de coisas que você ainda pode fazer, porque sempre haverá tempo. Até o último respirar.

quarta-feira, maio 09, 2012

DESSA VEZ NÃO TENHO MEDO


“É claro que procurei. Como sempre, eu procurei aquilo que acabaria comigo. Eu sabia quem tu eras e como eras, mas eu precisara descobrir teu coração. Precisara tocar o teu corpo, estar em teus braços, escutar tua voz baixinha em meu ouvido. Precisara de alguém que pudesse me fazer pulsar. Porque é assim que começa: – os dois não se conhecem e fazem pré-entendimentos sobre o outro, conversam, resumem a vida em algumas palavras, os olhares se encontram e a ausência tortura. E mesmo sabendo que seria impossível dar certo, a gente tenta. 
Menino, quando se entra numa relação se deve aceitar a outra pessoa como ela é. Nada de cobrar mudanças. As mudanças são naturais. O amor modifica e as transformações aparecem com o tempo. – Não te quero de outro jeito, te quero assim: num fim de tarde, sem compromisso, sem cobranças, sem regras, só por ser. 
Vou sim pular nesse buraco. Procurara por alguém que me derrubasse, hoje só quero alguém que pule comigo.”

sexta-feira, abril 20, 2012

AH, SE OUSÁSSEMOS!

A noite ainda é a mesma, é claro. Mas pode-se notar as mudanças. A música não toca mais, os versos se calaram, as pessoas que costumavam andar por aquela rua não estão mais ali. O casal que se encontrara todo final de semana na praça central, cresceu. É este o grande problema dos apaixonados: eles crescem. Alteram todo o cenário que o poeta criou e fazem de conta que a realidade é um mundo sem amor.


Ainda lembro do olhar misterioso da menininha de cabelos negros e pele branca que esperara o amado todo domingo no mesmo banco daquela pracinha enxuta que um dia já foi tão bela. Admirei a coragem da mocinha que enfrentara a solidão do lugar na espera do namorado que novamente se atrasara. E suspirara o olhar apaixonado com que ele chegara para busca-la e leva-la às noites de amor. Eram perfeitos, um ao outro, pena que nunca souberam admitir tal destino.
Vi a moça chorar abandonos e vi o moço ajoelhar desculpas. Típico do amor jovem. O primeiro amor. Aquele que aquece os corações e nos faz conhecer partes do nosso corpo que mal sabíamos admitir. Aquele amor doce e, ao mesmo tempo, destruidor. O amor que nos prepara para a vida, que nos faz sonhar e que nos tira o chão.
Com aquele casal eu pude descobrir o significado da palavra “saudade”. Sinto falta de olhá-los enquanto faziam juras de amor. Planejavam se casar, ter filhos, viver uma vida simples e docemente feliz. Cuidavam da presença um do outro, pois entendiam que sempre viveriam da ausência. E pediam à vida que não levassem a pureza daquelas mãos que se tocavam.
O que aconteceu, não sei. Às vezes acho impossível entender as voltas que o coração percorre. Se permitiram esquecer. Deixaram com que a vida continuasse e que o amor ficasse aos cantos. O maior perigo deste lugar onde vivemos são os cantos. Os cantos guardam tudo que não se acabou, que faz remoer a dor e a mágoa, que guarda lembranças e que faz a pergunta mais dolorosa de um desejo não realizado: “E se?”. E se eu não tivesse ido embora? E se eu tivesse dito? E se eu tivesse calado? E se tivesse dado certo? – Se tivesse dado certo, talvez eu fosse mais feliz.
Em cidade pequena as notícias correm rápido. O que se soube é que cada um encontrou um novo amor. Soube-se também que trocaram de cidade e que a mocinha bonita sofreu um acidente, perdera a memória, esquecera o próprio nome. Sou um poeta tão sensitivo que consigo sentir a confusão que roda a cabeça da moça. Posso vê-la sacudir a poeira do vestido sem saber que quem o deu foi seu primeiro amor no aniversário de quinze anos.
E sei que no esquecimento da moça também sofre o coração do rapaz. Ainda que os passos construam novos caminhos, a dor causada pelo esquecimento é eterna. Imaginem como o coração do rapaz acelerou ao reencontrá-la e como os olhos transbordaram água ao notar que ela não soubera quem ele era. Anos do amor mais a flor da pele que já se viveu e a amada não o conhecera. – Outro perigo dessa vida, é conviver sem saber quem é.
Com o conhecimento que as minhas histórias me trazem, sei que o rapaz tem na memória o sorriso da menina. E sei que na menina transmutam dúvidas sobre o passado. Uma conversa talvez resolvesse tudo, porém palavras não justificam atos. Como contar sobre um amor de novela à quem viveu e não se lembra? Como resgatar a alegria de um coração que esquecera o que é sorrir? Como cantar a música se a cantora não é a mesma?
O que desossa um poeta e o tira a força de continuar de pé, são as expectativas de uma história que acaba com reticencias. Bem, eu sempre soube que a vida é mesmo assim: mal pontuada. As história acabam e não há um locutor se despedindo com um “Viveram feliz para sempre.”. Não. As histórias da vida não acabam. Elas continuam, sem vírgulas e sem pontos. Não se pode compreender a leitura da história da vida. Ela não tem finais certos, é tudo muito confuso, porém ainda é um pecado que o amor não mude isto.
A tristeza já não é minha, agora sou um poeta que canta. Mas não desaprendi a ler, e ainda posso ler os olhos daqueles que amam. E tenho medo. Medo de descrevê-los pois a vida irá continuar e eu não posso alterá-la. – Como perder o medo de virar a página? – Como criar coragem se hoje sou sozinho? E em minha janela só vejo o vento e não há beleza na passagem da vida que parece se esgotar...
Ora, quanta contradição nas palavras de um poeta velho! Não é mesmo? Alegrem-se, pois só há um motivo para que um ser-humano entre em contradição: estar apaixonado. – Ah! Se as loucuras dos meus versos puderem um dia se tornar reais e me vissem como uma criança que divide o sorvete por carinho... A parte boa de desenhar palavras é que com os erros dos personagens, nós podemos evitar os nossos. Heis que a vida me trouxe a chance de mudar a história daquele casal, heis que a ponte entre o fim e o recomeço será atravessada. E ai de nós não atravessá-la, ai de nós apaixonados fúnebres que pedimos socorro às divindades, ai de nós que finalmente iremos poder abraçar aquilo que nos faz feliz.
Por isso, fecho as janelas e escondo o vento. Deixo a cidade e aquela praça. Desejo felicidades aos pombinhos que hoje vivem separados. E vou embora daqui. Sim. Eu vou embora daqui... E quando souberem de mim, lembrem apenas que daqui eu só quis uma coisa: amor. E só volto aqui com ele em meus braços. Adeus.

sábado, março 24, 2012

A.

“Tenho o poder de persuadir. Tu sabes que posso lhe fazer trocar de opinião com meus versos. Por isso tu não me lês mais. – Sabes o perigo de trocares de lado. E sabes que é do meu mistério que tu encontras forças, que foi eu quem escrevi a tua história e que os parágrafos que vives agora foram pontuados por minhas vontades. – Não fujas. – Tu irá me reler na memória. – Quando é que vais parar de usar minhas palavras sem atribuir meus direitos autorais?”

— Entre vírgulas, 2002, A.M.D.M.

DO QUE EU GOSTO

Se eu gosto de amores estranhos? Pois como não gostaria? Sou intensa. Movida a dramas. Nada que não me arranque os cabelos me interessa. – O que me atrai são os noveletes mexicanos. – Preciso de um mocinho e mil motivos que me separem dele para viver, viver de amor[es].
A realidade é que sou só. Me criei para ser da rua. Fui mocinha educada, mas o meu destino estava escrito: “maluca”. Poucos amigos, pouca conversa, estressada sobre a mesmice, coração partido para poder escrever. Escrever sobre a vida. Palavras que pudessem trazer esperança a quem já sofrera. Palavras que descrevessem o amor bonito que movera minha alma. Palavras simples, porque sou sem códigos. Fácil de ler.
Não acredito em mistérios. Não possuo segredos. Cambaleio na ambiguidade das frases que uso no dia-a-dia. Tenho preguiça de expor opiniões. Tenho tédio de quem sabe tudo. E não pretendo ter motivos para tudo o que faço. Sei que o verbo “fazer” é relativo. Cada um faz da maneira que quer.
Gosto de tudo que é visível. Formas físicas, geométricas, abstratas. Que se toca, se escuta e que se sente. Principalmente que se sente.
Sou sensível. Não sei não sentir com o corpo todo. Minhas mãos interagem diretamente com meus ouvidos. Minha pele sofre as reações de minha visão. O que posso ver, quero poder tocar – sentir, ter, ser, permanecer e viver.
Sinto medo ao notar passos de saudade. E os encorajo para meia-volta a qualquer momento. Sou cheia de pontos finais, mas, por enquanto, só escrevi um capítulo. – Sou alegre. – O que mais gosto é que, mesmo parecendo triste, eu vivo sorrindo por aí.

quinta-feira, março 22, 2012

"Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas."

— Pablo Neruda

CUIDA DO TEU SORRISO

"Reza pelo teu José, menina!"


Dói, eu sei que dói. Mas não foi para ti, menina, que eu sempre contei sobre as voltas do mundo? O tempo é a cinza que não para de queimar. Contenha-se. Respire fundo e lembre-se que amanhã é um novo dia. – Hoje, menina, eu lhe dou a permissão de chorar, espernear e ficar brava com Deus. Deus aguentará os teus desabafos e entenderá a sua dor. Mas, amanhã, amanhã menina, tu irás acordar e colocar um sorriso no rosto, querendo ou não, irás fingir que está tudo bem e continuar os teus passos pela vida.
Amanhã irás agradecer pelo que lhe foi tirado hoje, e entenderá que, na verdade, não foi uma perda. Exatamente tudo que entra e sai de nossas vidas, acontece por algum motivo. Saiba sugar os detalhes de tudo aquilo que vem e vai com o vento. Nada de choros ou lamentos, prepare-se para o que está por vir, e deixe ir embora o que ficou para trás.
O segredo do sorriso humano é abstrair. É preciso não se deter demais ao tema, pontuar o texto e virar a página. Não deixe que a tristeza torne-se uma obsessão, porque nós temos a capacidade de nos acostumar com a dor. – Cria coragem, menina! Não se contente com as lágrimas, alimente somente o que te faz bem.
Muitas vezes é preciso buscar um tempo só para nós. Quando estamos passando por uma situação difícil, costumamos analisa-la de dentro, conforme sentimos, conforme podemos enxergar. Porém, é bom olharmos de fora, aceitar os nossos erros e nossos enganos, e virar a mesa.
O mais difícil nunca foi aceitar nossos erros e, sim, aceitar os nossos enganos. Admitir o quanto fomos tolos é a destruição natural do ego humano. Ninguém é forte o suficiente para não se importar quando descobre-se as mentiras vindas da pessoa amada. Ninguém é Deus, todos somos humanos pequenos e frágeis.
Cuida do teu José, menina. Lembra-te de José? José foi o homem que amou Maria mesmo sabendo que o filho que ela esperara não era dele. Amou, cuidou, respeitou e honrou Maria nos momentos bons e ruins. Foi companheiro leal e fiel. Foi amor abençoado por Deus. – Assim como Maria, todos nós temos o nosso José. Reza, menina, reza! Reza para que Deus coloque o teu José em sua vida!
E, entenda o que sempre lhe deixo, tudo o que entra e sai de sua vida é por vossa conta. Se saiu e você sente saudades, você deixou ir. Se entrou e lhe fez mal, você deixou fazer parte. – Não adianta se rebelar contra a vida. Tem que deixá-la agir e tem que cuidar do vosso caminho. Deixa as coisas novas virem, menina. Deixa o futuro dizer...
Assim como a felicidade não dura, a dor vai embora também. Abençoe o clichê, mas, a vida é feita de momentos. O importante é saber que esses momentos tem validade e não se deixar levar demais por eles. Tem que ir levando, menina. Tem que se colocar num pedestal e recusar-se às fraquezas. Tem que se fazer forte e, como num processo natural, tornar-se forte.
Espera o amanhã chegar e constrói mais chances para sorrir. Porque o sorriso é o único remédio que não custa nada, não causa esforço e ninguém poderá tirá-lo de você.

domingo, março 18, 2012

E.

“Você pode dirigir com 16, ir para a guerra aos 18, beber aos 21 e se aposentar aos 65. Mas qual a idade você tem que ter antes que seu amor seja verdadeiro? Já tive aos montes pessoas que não compensam esquentando a cadeira ao lado do cinema, o banco ao lado do carro e o travesseiro extra da cama. E nem por um minuto senti meu peito aquecido. A gente até engana os outros de que é feliz, mas por dentro a solidão só aumenta. Estar com alguém errado é lembrar em dobro a falta que faz alguém certo.”

— Remember me, 2010

APENAS UM GRÃO DE AREIA

A quietude de uma alma é perigosa. Ao contrário do que as pessoas acreditam, os silêncios é que são alarmantes. O contrário do amor não é o ódio e, sim, a indiferença.


Manter-me calada é a maneira que uso para resgatar o que se perdeu dentro de mim. Me é necessário este isolamento do mundo. Preciso de um tempo para reorganizar as idéias e aceitar o que é imutável em minha vida. Como uma reciclagem de mim mesma, dos meus planos e do meu bem-estar.
É hora de abandonar os vestidos velhos, calçar sapatos altos e descobrir novos caminhos. Tenho que restabelecer dentro de mim apenas aquilo que sempre me motivou a continuar: o respeito, a paciência, o perdão, a coragem, a determinação e, sobretudo, o amor.
Respeito para que eu não seja má e injusta. Paciência para quando as pessoas forem más e injustas comigo. Perdão para que eu possa ser perdoada. Coragem para abrir novos caminhos. Determinação para não desistir diante dos obstáculos. Amor para que eu não me perca.
Tenho a certeza que as pessoas não entendem as minhas atitudes. – Sou uma pessoa difícil de lidar. – Quero apenas explicar que isso acontece porque eu ajo conforme sinto. Não sei dizer “sim” ao que me é não, e, nunca aprendi a dizer “não” às minhas vontades. Embora nem sempre atendam aos meus desejos, eu não derramarei lágrimas.
Não sou fraca, nunca fui. Também não sou santa ou beata. Curo minhas feridas com o sorriso que a minha fé me concede. Sofro de saudades, mas tenho curiosidade do que está por vir. – Andei trocando o repertório, não sei se você pôde perceber...
As músicas que tocam agora trazem um pouco mais de mim e menos do que sinto. Dizem o que vivo e não o que sonho. Não parei de sonhar, mas calculei os meus erros. Percebi que é o momento de seguir em frente, não olhar para trás e, por isso, precisei fazer as pazes com o meu passado.
Não há como dar um passo a frente se meus pés continuam presos àquelas correntes. Histórias inacabadas transformam-se em cargas duradouras que nossas costas vão levando. Mas, em alguma hora, se tornará pesado demais e o caminho que se foi andado é perdido, o tempo é perdido, é tudo mentira, os machucados se abrem, o passado assombra.
É preciso levar a vida com certa seriedade sem deixar de olhá-la com olhos de criança. “Vai dar tudo certo” desde que eu me esforce para isso. – Manter a esperança diante da realidade é essencial para que a vida produza.
Não deixe que pessoas de má-fé corrompam seus princípios. Não se entregue a nada que lhe cause vícios. E diante da próxima ação, se pergunte: “Eu realmente preciso disso?”. Se a resposta for “sim”, tome cuidado. Na vida, a gente precisa de poucas coisas.
Quando tudo der errado, não volte atrás e tente consertar. Comece ali uma nova obra e calcule a construção para que desta vez você possa alcançar o objetivo. – Erre, mas não repita os mesmos erros.
A melhor forma de acabar com a dor quando alguém nos machuca, é perdoar esta pessoa. O perdão, embora seja difícil, é a única coisa que tem o poder de limpar a alma. – Lembre-se: Hoje você pode dar o perdão, amanhã você poderá precisar dele.
Perdoar não significa voltar a ser tudo como era antes. É preciso ser bom, mas é preciso ser justo. Por isso tome cuidado para não ferir quem você ama. Amor nunca foi contrato de permanência.
É comprovado cientificamente, se você não sabe, que você poderá viver anos ao lado de uma pessoa e, mesmo assim, não saber quem ela realmente é. Confie. Confie nas palavras, nas atitudes, nos laços que se criam e, sobretudo, confie no que você sente por essa pessoa.
Certifique-se de que o próximo degrau é firme, mas não deixe de subir a escada. O caminho desconhecido é sempre perigoso, mas ainda assim é fascinante. – Saiba escolher se este é o seu caminho ou se você está apenas seguindo alguém.
Por maior que seja o seu amor por outra pessoa, não a siga. Quando o amor é verdadeiro os dois andam juntos. – Não se preocupe se algo lhe faz sofrer agora. É bíblico: “Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá.”. E tudo, exatamente tudo, que nós passamos está em nossa vida por algum motivo. Saiba aproveitar ao máximo desse problema.
Desenvolva em você o desejo de ser uma boa pessoa. Uma boa pessoa não é perfeita. Ela apenas não deseja ser ruim. – Deus é a única criatura que irá lhe perdoar e acolher em todos os momentos, aproxime-se d’Ele neste exato momento.
Aprenda a escutar os silêncios das pessoas. Um sorriso, um abraço, uma cara triste é sempre mais importante do que as palavras. – Importa-te com as pessoas que estão ao seu redor. É assim que elas irão se importar com você.
Honra a tua família e tudo aquilo que eles te ensinaram. Pai e mãe são os únicos seres humanos programados biologicamente para te amar. Ou seja, é raro ver pai e mãe abandonar um filho.
Se for para jogar algo fora, jogue fora o cansaço. Não há nada mais repugnante em uma pessoa do que vê-la sem vontade de viver. Atribui-se também: estresse, antipatia, remorso e tristeza.
Irradie felicidade e as pessoas se aproximarão. – Eu sei que não é fácil, mas também sei que não é tão difícil assim. Quando se tem fé e amor dentro do coração, o resto é apenas um grão de areia.

domingo, março 04, 2012

G.


“Quando a autodestruição brota no coração, parece ser menor do que um grão de areia. É uma dor de cabeça, uma leve indigestão, um dedo inflamado; mas você perde o trem das 8h20 e chega atrasado à reunião sobre a dívida do cartão de crédito. O velho amigo com quem você se encontra para almoçar esgota a sua paciência sem mais nem menos e num esforço para ser agradável você toma três drinques, mas a essa altura o dia já perdeu a forma, o propósito e o significado. Na esperança de lhe devolver algum sentido e beleza, você bebe demais nos coquetéis e fala demais, dá em cima da mulher de alguém e termina fazendo algo idiota e obsceno, e pela manhã você quer estar morto. Mas quando tenta reconstituir o caminho que o conduziu a esse abismo, tudo que você encontra é um grão de areia.”
— Minha Natureza Atormentada, Jonh Cheever

MÃOS DADAS


O ser-humano por ser ser-humano, por ser pessoa, constrói costumes grosseiros aos olhos de Deus. Sentimentos contraditórios, quase incoerentes. Erramos com a vida, ferimos a nós mesmos. Como ser sozinho se nas mãos formaram-se dedos que entrelaçam mãos? Mãos dadas. Mãos dadas suporta sentimentos mútuos. Lealdade, cumplicidade, confiança, afeto... que se resumem em amor.
Poder dar a mão é demonstrar o quanto é agradável estar ao lado daquela pessoa. É ajudar a caminhar e indicar que se quer construir um caminho ao lado dela. É guiar diante da escuridão, é segurar diante do caos, é afagar a mão pedindo paciência.
Mãos dadas é um pedido de paz. É o homem indicando solidariedade. É o respeito entre raças diferentes. É a cordialidade representando a simpatia. É a união que constrói forças. É a oração dos beatos que derruba males. É o casal de namorados completando cinquenta anos de casados e, assim, de mãos dadas, terem passado juntos os importunos da vida.
São duas almas que se tornam uma só e, às vezes, várias almas que fazem uma corrente. É pegar a mão de outra pessoa e sentir a energia que brota de suas veias, sugar a sensibilidade, escutar o que há dentro, apertar a mão pedindo que não nos deixe nunca. Mãos dadas é, sobretudo, confiança.
É preciso coragem ao dar a sua mão. Por pedir ou por doar. Segurar outra mão exige fé e carinho. Não pode ser feito por se fazer. Há de haver honestidade nesse ato simples e, ao mesmo tempo, tão belo. Por isso, meu querido, a próxima vez que entrelaçar os dedos em outra mão, perceba que há algo muito doce naquele momento. E, por favor, honre a confiança de segurá-las.

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

A.

‎"Nunca fui como todos.
Nunca tive muitos amigos.
Nunca fui favorita.
Nunca fui o que meus pais queriam.
Nunca tive alguém que amasse.
Mas tive somente a mim.
A minha absoluta verdade.
Meu verdadeiro pensamento.
O meu conforto nas horas de sofrimento,
não vivo sozinha porque gosto,
e sim porque aprendi a ser só..."

— Florbela Espanca

EU [AINDA] ACREDITO

Ainda que ele não saiba, a saudade é meu pior castigo. Não consigo odiá-lo e muito menos odiar o tempo que continuou e o tornou passado em minha vida. Dentro de mim há algo que insiste em sonhar com um reencontro. E, ao mesmo tempo, surge uma expectativa, talvez até uma cobrança de mim mesma para que eu possa superar e, como num passe de mágica, poder me encontrar em outros braços.
Saudade eu sinto ao lembrar quão era feliz o tempo em que eu vivera pelo amor e não por mim. Pois eu era maluca. Tinha sede de loucura e esquecera completamente qualquer regra sobre a conquista. Eu vivera os meus dias sonhando com uma vida simples e, acreditem, inteiramente bela. Eu fui sonhadora e menina apaixonada, e toda a minha tristeza eu soubera transformar em sorrisos. Fui doce e quis provar ao mundo quão eu poderia ser cruel e observadora, mas ainda assim, fui eu mesma.
Estou sentindo saudades de mim. Dos meus livros, minhas músicas, minha vidinha solitária e calma, onde eu tivera tempo para inventar lugares mágicos. Não sei exatamente há quanto tempo eu me perdi de mim, mas o medo de que isto seja definitivo está me sufocando. As palavras que se calam e a falta de vontade de continuar nesse caminho, estão sussurando: "Desista.". Mas o desejo de me tornar mulher e a tão fascinante transição que toda criança passa ao se tornar adulta, insiste: "Vá em frente.". Preciso construir metas e não posso mais voltar atrás.
O medo que me invade é a possibilidade de perder a menininha chata que sempre fui. Então recordo o passado e o passado me traz a lembrança do homem que seria o homem de minha vida. Seja lá qual for o destino traçado às nossas vidas. A minha memória gravou cada traço daquele rosto e o sorriso bonito continua sendo o único sorriso que mudaria o meu dia. Eu sinto saudades de mim, de mim com você.
As pessoas fazem conceitos sobre as minhas mágoas. Tenho a certeza de que ele também crê que eu o quero longe. Mas a verdade é que nunca o quis mais perto. Que o tempo não teve a capacidade de me deixar esquecê-lo. E que todas as noites eu peço com toda a fé que ainda me resta para que, se não for da vontade d'Ele, eu possa arrancá-lo de meu coração. Peço ainda, como fruto do meu egoísmo, para que ele seja feliz independente do motivo que o fará feliz. Porque meu bem-estar depende da felicidade das pessoas que amo. E o amo, ainda, ainda que não saiba mais se foi amor algum dia.
Sei que todos os dias ele também tira um tempinho para pensar em mim. Sei que ele gravou algumas palavras minhas naquela cabeça inconstante. E, eu sei, que ligações fortes entre duas pessoas não acabam em dias, meses ou anos. Dura, e vai durando até que se entenda e se aceite porque aquela pessoa não é para mim, ou que o destino dê um empurrãozinho e os dois finalmente se encontrem e possam firmar aqueles projetos de amor que nunca puderam se concretizar.
Dura porque dessa vida não se leva nada. E não levando o material, nós contruímos o abstrato bonito. Por mais que as pessoas tenham esta tendencia de rejeitar os sentimentos, a realidade é que a vida é feita do que se sente. E, por sentir, eu quero poder.
Sabe? A vida está exigindo que eu não sonhe, e eu sinto falta de sonhar com a possibilidade de morrer de amores. Eu sinto falta de tentar convencê-lo que há beleza em pequenas coisas, porque isto me fazia acreditar em mim.
E deve ser isto: Amar é poder acreditar. Acreditar na vida e acreditar em você.

sábado, janeiro 28, 2012

A.


"Mas esses tesouros não devem ser procurados, muito menos desenterrados. Nada de escavar o fundo do mar. Isso frustraria nosso objetivo. O mar não recompensa os que são por demais ansiosos, ávidos ou impacientes. Escavar tesouros mostra não só impaciência e avidez, mas também falta de fé. Paciência, paciência e paciência é o que nos ensina o mar. Paciência e fé. Precisamos nos deitar vazios, abertos e sem exigências, como a praia — esperando por um presente do mar."

— Presente do Mar, Anne Morrow Lindbergh

MEUS DIAS DE FÉRIAS SERÃO TEUS

As palavras emudeceram minha boca e tomaram minha mente. Abaixei a cabeça, peguei o lápis e comecei a escrever. Escrever sem pausas, sem olhar para os lados, escrever e escrever. Sentada no meio da sala, chamei a atenção do professor e alunos que observavam a colega estranha. Com voz cautelosa, o professor me interrompeu:
– Gabriella, está anotando minha explicação em seu caderno?
E com a voz de quem não suporta ser interrompida, respondi:
– Não. Estou escrevendo meu diário.
Foi quando entendi que o meu lugar era sempre a última carteira da fila. Sem chamar muita atenção.


Eu não entendo até que ponto você consegue enxergar meus sentimentos. Porém, é importante que você o saiba. Eu tive que largar a menininha mimada e superar barreiras para andar ao seu lado. Muitas vezes, quando não o fiz, você me encarou e deixou claro que eu não deveria agir com você da maneira que agiria com qualquer outra pessoa. Me fez amadurecer, olhar a vida, entender o que era a fé que existia dentro de mim, e – por isso – eu tentei ir embora algumas vezes.
Não é e nunca foi fácil ter que aceitar o quão imatura e tola eu me tornei por minhas atitudes. Não consegui aceitar o fato de que, muitas vezes, eu me perdi. E pedir-lhe desculpas por meus exageros foi perder o meu orgulho. – Eu nunca soube perder. – E tive que aprender que perder nem sempre significa derrota. Algumas vezes a perda é reflexo das marcas que ficam após ter tido uma grande experiência.
Você, e seus onze anos mais velho do que eu, mostrou-me que a maturidade não é questão de idade. Deixou-me entrar na sua vida e me fez baixar a guarda para que entrasse na minha. Apresentei ao pai, mãe, irmão e cunhada. Cuidei de seu filho e me intrometi nas vezes em que acreditei que houvera injustiça com aquela criança de cinco anos. Fui namorada, madrasta, amiga, conselheira e aluna. Fui sua, embora meu coração vivesse turbulências do passado.
Chorei. Derramei lágrimas como nunca haviam caído por outra pessoa. Cuidei, me preocupei, protegi e mudei. Eu mudei minha vida, minhas escolhas, minha cabeça e mudei à mim. Tudo o que era simples e feito dentro de mim, tornou-se rápido, pequeno e passageiro. As mudanças me fizeram colocar os pés no chão, aceitar as deficiências da vida e me preservar dos males que a impulsividade poderia me causar. Descobri que o amor, muitas vezes, é manter-se longe. E a frase “Você tem que aprender que existem pessoas que permanecem em seu coração, mas não em sua vida” nunca fez tanto sentido.
Te amar para sempre é o mesmo que ter um grande problema e achar que nunca irá resolvê-lo, pelo tamanho da confusão, pelo que se sente agora. O “aqui e agora” me traz a sensação de que a única pessoa pela qual eu tomaria veneno, como num romance, seria você. É você. Será você até que outro amor me faça achar algum motivo.
Eu quero que me perdoe por todas as vezes que não respondi suas gentilezas, por quando desisti de nós e tentei voltar ao meu amor antigo, pelas vezes que fui fraca, por quando precisei ser sincera e agi em meio às mentiras, por não ter tido coragem e, por julgar-te covarde, sendo ainda mais medrosa que você.
Quero que me dê seu perdão. Embora eu tenha certeza de que ele só virá com o tempo. E de que não terei muitas chances para mostrar que, apesar de parecer o contrário, eu lhe amo. Lhe amo. E sei que devo desculpas à todas as pessoas que enganei durante todo esse tempo.
Eu amo você com a doçura dos meus beijos, das mãos que lhe fazem carinho, do coração que é sereno ao seu lado, da vontade duradoura de casar-me e ter filhos, ser feliz, e passar longos dias de férias em sua companhia.
Não sou perfeita. Não sou a pessoa mais interessante, linda e fascinante do mundo. Sou cheia de defeitos, falhas e erros. Falo sem pensar, tomo atitudes e decisões precipitadas, corro atrás só quando já não é mais meu, e costumo me desfazer daquilo que gosto. Mas eu prometo mudar. Prometo com a única esperança que me resta de sorrir tranquilamente: você.
Porque eu estou sujeita a ser outra pessoa desde a primeira vez que me olhou nos olhos e disse: “Gostei do seu jeito.”. Eu tenho que dar o melhor de mim para merecer cada dia do nosso amor. E já não é desrespeitar aos meus desejos, ao meu jeito, meus ideais – é respeitar o que sinto.
O que sinto é simples e bonito, assim como as flores. É especial e único, assim como cada sorriso. É bobo e engraçado, assim como o palhaço. É triste e frio, assim como a solidão. É encantador e harmonioso, assim como a música. Está cada dia num lugar, mas continua o mesmo, assim como o ponteiro do relógio. E faz a vida parecer fácil, me dá forças, e eu tenho confiança nisto. O que sinto é Amor.
É o presente mais sagrado que Deus poderia me dar. Uma nova chance. Um amigo à quem compartilhar meus momentos de fraqueza. É com quem, se você permitir, quero passar o resto dos meus dias.
Meus dias de sol serão teus. E todos as histórias românticas eu dedicarei à você. Dessa vez, eu tenho um único compromisso em minha vida: te ver bem. O resto serão planos. E a única coisa que irá me satisfazer é saber que estamos juntos. Aqui, agora e para sempre.

ANNE - SHE'S THE WOMAN


Há meses que não o faço, acreditem. E foram raras as ocasiões que fiz isso: indicar algo. Não sou boa nisso, porque cada um tem um gosto. E, como eu tenho o meu, me frustro quando noto que as pessoas não gostaram daquilo que me faz bem. Mas – aí vai – uma indicação.
Se há uma mulher que eu admiro é Anne Morrow Lindbergh. Num simples trecho que contém na edição de 50º Aniversário do livro Presente do Mar, de 2005, sua filha Reeve Lindbergh, a descreve: “Lembro-me de como ela sempre parecia tão miúda e delicada. Lembro-me de sua inteligência e sensibilidade. Porém, quando releio Presente do Mar, a ilusão de fragilidade se esvai, revelando a verdade. Como pude me esquecer? Ela foi, afinal, uma mulher que criou cinco filhos depois de perder tragicamente o primeiro, em 1932. Foi a primeira mulher nos Estados Unidos a obter um brevê de piloto de planador de primeira classe, em 1930; a primeira mulher a conquistar a Medalha Hubbard da National Geographic Society, em 1934, por suas aventuras de aviação e exploração. Ela recebeu ainda o Primeiro National Book, em 1938, por Listen the Wind, romance baseado nessas aventuras, e permaneceu incluída na lista de mais vendidas por toda a vida.
Esquiou comigo em Vermont aos 65 anos, e fez longas caminhadas nos Alpes suíços aos 70. Cinco anos depois, passou a noite na cratera do vulcão Haleakala com alguns de seus filhos e amigos.
Eu me lembro de olhar para cima, para a grande abóbada celeste à noite, reluzente de estrelas, enquanto minha mãe, pisando firme em suas botas tamanho 35, apontava e identificava para nós o Círculo dos Navegadores, Capela, Castor, Pólux, Prócion e Sírio. Eram as estrelas das quais ela aprendera inicialmente a estabelecer um curso na escuridão, como aviadora pioneira, 50 anos antes.”.
Já dá para entender o motivo da minha admiração, não é? – Além disso, Anne, escreveu 12 livros (se não me engano) e tem histórias fascinantes como a viagem que fez com seu marido, o aviador Charles Lindbergh, pela África e o Pacífico para realizar pesquisas ambientais.
Mas todas essas informações vocês encontrarão nos livros e sites de pesquisa. E, se tiverem a oportunidade de ler um livro dela, não hesitem. Há muita sabedoria e experiência em cada palavra que ela escreveu.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

A.

COMO DIZIA O POETA
Composição: Vinicius de Moraes e Toquinho


"Como dizia o poeta
Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Não há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão
Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não"

MEU SOL

Meu erro foi acreditar que o amor acontece durante a noite. O amor é durante o dia. Porque o sol é para sempre.


Tu deves entender os meus parênteses. Preste atenção naquilo que não lhe falo. Inquiete-se com o meu silêncio e não perca os meus olhos. É aqui que quero estar, menino. Sim. Sou desse tipo de gente que larga tudo para viver um romance. – Não se apegue demais as minhas palavras. – Eu as escrevo às vezes, e, às vezes elas me escrevem. – Eu não me importo com a pontuação, com a maneira certa de escrever a palavra ou formar a frase. Eu desenho nas letras o que está dentro da alma.
Você sabe, menino, que eu sou como macarrão instantâneo. Sabe que repito palavras, mas sei trocar os personagens. Sabe os pontos onde quero chegar e sabe que não possuo finais. Só não sabe ler as minhas entrelinhas. Entre-as-linhas, aos pouquinhos, eu vou registrando o teu nome. Teu nome que parece música e que com música eu canto o meu amor.
Faça-me o favor de não desistir de mim. Sou como essas mulheres que mudam conforme as mudanças da lua, mas ainda consigo encontrar teus lábios no escuro. Por isso, me escute, menino. Me ouça calar. Leia meus olhos, diga as minhas palavras, escute o meu silêncio. E permaneça ao meu lado.
Segure as minhas mãos com o mesmo nervosismo que eu seguro as tuas. Conte as pedras do caminho como se fossem pingos de chuva. Abra os braços para me abraçar e me abrace forte. Segure-me nos teus braços, menino. E não deixe que eu duvide da tua força.
Deixa que eu desvende os teus mistérios e guarde os teus segredos. Faça com que eu sufoque, a respiração trema e eu perca o fôlego. Faça-me arder na tua pele e tatua teus sinais no meu corpo. Mas não deixa que eu perceba o teu passado.
Posso despedaçar o seu coração ao saber por onde andou sem mim. Então, me acalme. Demonstre a tua fé em mim e não me encha de incertezas. Incerta e desconfiada eu já nasci. Distraia meus parágrafos e, por favor, me traga flores. Me traga céus, algodão-doce e amores.
Amores daqueles que eu possa respirar fundo e salvá-los em papéis. Amores que terão teu nome traduzido em nossa língua. Amores que soletrem a data do nosso encontro. Amores que não permitam nosso distanciamento. Amores que me amparem, que me sigam e que me criem.
Não preciso que as pessoas saibam que sou tua. Apetece-me somente que o teu corpo saiba disso. E que o sol brilhe quando estamos juntos. Porque, sabe, menino. Amor não é durante a noite. Amor é durante o dia. E o sol é para sempre.
[Sejamos sempre] o dia, o amor, e a esperança de que a morte não nos traia. Menino, eu adoro a vida que você trouxe à minha história. Eu necessito da tua existência e da beleza dos teus olhos. – Você é a minha luz agora. Não deixe que tudo se apague.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

A.

O VELHO E A FLOR
Vinicius de Moraes


"Por céus e mares eu andei,
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber
O que é o amor.

Ninguém sabia me dizer,
Eu já queria até morrer
Quando um velhinho
Com uma flor assim falou:

O amor é o carinho,
É o espinho que não se vê em cada flor.
É a vida quando
Chega sangrando aberta
em pétalas de amor."

PERMANEÇA


Ninguém irá lhe entender como eu. E há um espaço vazio que fica aqui dentro quando você está longe. Mas não é hora de fraquejar. – Ontem à noite, senti vontade de pegar o telefone e ouvir a tua voz. No entanto, eu saberia que era uma vontade instantânea. Duraria até o momento em que a mágoa tomaria meu coração outra vez. E então sobraria o ódio, o desprezo, a raiva que suas palavras despertam em mim. Pois é isto que sobrou de você: saudade do que eu pensei que tu fosses e rancor das tuas escolhas.
Os enganos foram meus. Sempre meus. Eu soube quem tu eras desde o inicio e, ainda assim, uma parte de mim insistia em caminhar ao teu lado. Embora, ao teu lado, eu nunca estivesse.
Às vezes, tu eras um. Noutra vez, tu eras outro. E toda aquela contradição me feria. – Chorei lágrimas de sangue e permaneci calada. – Nunca contestei, nunca disse o que eu sentia, e nunca deixei de sentir. Nunca soube partilhar nada com você. Tu nunca foste meu ombro amigo. Quando ganhou minha confiança soube perder no exato momento.
E eu ainda não entendo onde, nem quando, mas em alguma parte da minha vida eu tive que aprender a filtrar as coisas. Nem todos merecem o meu sorriso, porque a maioria irá sentir inveja dos motivos pelo qual ele está em meu rosto. Nem todos merecem saber que as lágrimas estão caindo, porque grande parte das pessoas irão fazer com que caiam mais. Os problemas que são meus, são meus. As dúvidas que são minhas, são minhas. Posso estar rodeado de pessoas e continuar sozinho. Conta-se nos dedos aqueles que são verdadeiros. Existem pessoas que você poderá confiar e existem pessoas que só estão ali para aliviar a dor. Um espelho poderá se tornar um buraco quando não sabemos quem somos e temos vergonha daquilo que nos tornamos. É preferível o silêncio quando não há explicações para aquilo que dói. Você não poderá chegar ao ponto de ter pena de si mesmo, ali – é fim da linha. As pessoas que te olharem com dó, não irão mexer os dedos para que as coisas se resolvam. Palavras duram alguns momentos; Atitudes provam palavras, caráter, e poderão ser duradouras. A vida não é uma escada rolante, você tem que subir com seus próprios pés. E, como uma escada, você poderá subi-la e poderá descê-la. Tem que saber a hora e a direção dos degraus.
Eu perdi a direção. E acho que desci alguns muitos degraus. Não sei como voltar atrás e, por enquanto, o desejo é me manter parado. Outra coisa que a vida ensina é que você tem o direito de manter-se só, quieto, estável – mas o tempo continua, as pessoas caminham, as oportunidades acontecem, e, quando você está imóvel, pode perder o que conquistou.
Porém, é perdendo tudo que nós reconhecemos o que devemos ganhar. É necessário chegar ao fim do poço para saber d’onde é que vem a água que mata nossa sede. É preciso parar, dormir cedo, se alimentar melhor, ou, perder o sono, comer pouco, sentir a depressão ganhando suas veias para que possamos desistir do que é errado e ir atrás do que é certo.
Eu sou quem repete sete vezes em frente ao espelho: continue tentando, continue tentando, continue tentando, continue tentando, continue tentando, continue tentando, continue tentando. E agora que isto não está funcionando, sou quem rejeita o espelho e respira fundo. Sou quem dorme e tem o olho aberto. Sou quem precisa de um tempo. E que Deus permita este tempo à quem já errou tanto e sofreu com os erros alheios. Pois eu não tenho mais nenhum plano, se não, manter a calma.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

A.

OLHA
Chico Buarque
Composição: Roberto Carlos e Erasmo Carlos


"Olha!
Você tem todas as coisas,
Que um dia eu sonhei pra mim.
A cabeça cheia de problemas,
Não me importo.
Eu gosto mesmo assim...

Tem os olhos cheios,
De esperança.
De uma cor que mais,
Ninguém possui.
Me traz meu passado,
E as lembranças.
Coisas que eu quis ser,
E não fui...

Olha!
Você vive tão distante.
Muito além do que,
Eu posso ter.
Eu que sempre fui,
Tão inconstante.
Te juro meu amor,
Agora é pra valer...

Olha!
Vem comigo aonde eu for.
Seja a minha amante,
E meu amor.
Vem seguir comigo,
O meu caminho.
E viver a vida,
Só de amor..."

PAGUE A VIDA


Sentado na mesma cadeira da mesma sala, da mesma casa, que ainda fica no mesmo endereço da mesma cidade e tem os mesmos vizinhos, ele imagina os momentos bons que deixou de passar ao lado dela. Fecha os olhos e traz a lembrança do seu olhar, do sorriso e de como era irritante a maneira com que ela tentava lhe fazer ciúmes. Lembra do quanto era boba e, ao mesmo tempo, linda. E sorri das brincadeiras e dos planos que ela fazia por eles dois. Imagina se o destino os reserva reencontros e sabe que por ela isso não aconteceria. Tem raiva de si mesmo porque entende que a culpa da separação é dele. E sente-se triste por ter perdido o amor daquela moça.
Era a história de amor triste que todos os escritores tem em seu currículo. Era a música sem beleza que representava o mais verdadeiro sentimento: a solidão. Sim. Porque estar só é sentir-se só e, assim, a solidão não poderia deixar de estar na lista daquilo que sentimos. É um quase-sentimento que vira estado físico. No começo, existem muitas pessoas ao nosso lado, tentando fazer com que possamos distrair a mente, mas nos sentimos sozinhos. E, no fim, nós nos afastamos e as pessoas desistem de nós, então finalmente estamos sós. Encontramos a liberdade que sempre sonhamos. Não devemos nada à ninguém, mas não temos mais ninguém ao nosso lado. – E quando paramos para achar o motivo de tanta dor, a culpa nos invade e nos faz recordar os caminhos solitários que trilhamos.
A história dele é tão errada quanto a sua. Pois ninguém passa por essa vida sem errar, sem sentir culpa e sem sentir pena. Pena de si próprio, por seus próprios erros, por suas próprias escolhas e por seu próprio coração vazio.
Ele é – agora – homem que acende o cigarro todas as noites ao chegar do trabalho. É quem desliga a televisão e abre um livro. Quem faz sua própria janta, come do seu próprio alimento e vai ao supermercado todos os primeiros sábados do mês. Quem paga suas contas, tem seu próprio carro e pode gastar seu dinheiro onde lhe apetecer jogá-lo fora. Ele é o homem que [imagina] as crianças correndo pela casa, a esposa no fogão e o cheirinho de bolo de chocolate vindo do formo. Faz propagações tão reais do amor que não construiu que quase parece verdade. Ele é o homem que tem vida, mas parece não viver. Quem desperdiçou a chance de amar.
Tenta, todos os dias, reconstruir sua vida, mas sabe que dentro dele o passado não terminou. Uns dos maiores perigos ao ser humano solitário são as histórias inacabadas. Estas histórias invadem nossos sonhos e tornam-se pesadelos. Estão presentes em todo maldito pensamento antes do sono e nos fazem revirar a cama como se trocar de lado fosse pausar a mente. Tira-nos o sono e nos faz baixar a cabeça e engolir seco todas as vezes que alguém toca em determinado assunto e temos que mentir. É uma falta de fé de que tudo irá se resolver e é uma certeza de que se o tempo voltasse, teríamos feito tudo diferente.
Histórias sem pontos finais deixam restos. O que sobra é o sentimento de culpa. Enquanto ele se culpa por tê-la deixado ir, ela se culpa por um dia tê-lo deixado entrar. Cada um com seus erros e sempre a mesma dor. A dor que afeta e não passa, que se prolonga nos Natais vazios e torna-se pedido em virada-de-ano. A dor do amor que deixou de ser.
Ele não tem mais notícias sobre ela, e ela faz questão de ignorar qualquer contato. Ela refez o armário e limpou a bagunça, mas quando fecha os olhos a imagem do rosto do ex-amado a assombra. Ela cruza os braços na tentativa de estancar a dor no peito, ele respira fundo e segue em frente. E sempre que é inevitável, apertam o botão, e a música toca. Qualquer música que os tire dali.
Ela não faz idéia de quantas vezes ele foi fraco e leu suas cartas. Ele nunca saberá quantas vezes ela foi fraca e derramou lágrimas sobre as fotografias. No entanto, ele sempre será mais triste que ela. É uma regra: Quem abandona um amor não pode ser feliz.
Não é imediato que nos damos conta do que fizemos. Nós notamos nossas atitudes vãs quando a vida começa a nos castigar. Porque a vida é o espelho que nós temos na parede, ela reflete. Com a diferença de que o reflexo das coisas feias ela costuma prolongar. Enquanto as pessoas acreditam que o tempo cura feridas, os solitários sabem que o tempo só serve para fazer com que aqueles que devem à vida, possam pagá-la com juros.

Pagar a vida é não viver.

E depois que se paga? O homem cria família, faz laços, sorri, abandona os livros tristes e começa a correr todas as manhãs, senta no sofá para assistir o jogo enquanto a esposa briga com ele, as crianças correm pela casa, o jantar tem o gostinho das mãos de quem ele ama. E ele aprende que a vida é uma via de duas mãos. Ter que saber ir, tem que saber voltar, e assim fazer o caminho.