terça-feira, julho 31, 2012

B.

“Algumas pessoas não sabem o que dizem. O Beija flor não é um pássaro comum. Sua frequência cardíaca é de 120 batidas por minuto. Suas asas batem 80 vezes por segundo. Se você segurasse um beija flor e impedisse ele de bater as suas asas ele morreria em menos de 10 segundos. Ele definitivamente não é um passaro qualquer! E isso é um verdadeiro milagre! Uma vez observaram através de uma câmera lenta o bater das asas de um beija flor, sabe o que eles viram? As extremidades das asas se movem fazendo o numero 8 no ar; Sabe do que o numero 8 é simbolo matemático? Infinito!” 

 — O Curioso Caso de Benjamin Button, adaptação do romance de 1920 de F. Scott Fitzgerald

1ª CARTA

"Nossa vida está organizada de acordo com a nossa casa. Minha vida anda bem, desde que não abram as gavetas."

Junho de 2012, São Paulo/SP.

Querida Clarissa, 
vários acontecimentos marcaram minha vida após a sua partida. Sei que tenho grande culpa por seus passos percorrerem outro caminho neste momento, caminho paralelo ao meu trajeto. Porém, de algo eu sei que não tenho culpa. Não posso sentir-me culpado por ainda lhe amar. – Gostaria de dividir minha vida com você novamente e sei que isto seria impossível, então resolvi escrever esta carta. 
Ontem recebi um dia de folga no trabalho. Poderia ter saído, encontrado novas pessoas, distrair a cabeça... Mas, assim como acontece em minha vida há meses, permaneci em casa. Resolvi limpar a casa que estava uma bagunça. E, durante a arrumação lembrei-me da vez em que tu me disseste que a nossa vida está organizada de acordo com a nossa casa. Analisei a situação e percebi que isto é verdade. Quando minha vida está bem, tenho vontade de deixar tudo no lugar por aqui. Mas, quando as coisas vão mal, minha casa tem que representar o lixo que os dias andam sendo. – Porém, no momento, a casa está arrumada, desde que não se abram as gavetas. Deve ser isto: minha vida está organizada por fora, mas por dentro... Por dentro a bagunça espera a hora de ser lembrada. Você sabe. Eu necessito de um tempo só meu para conseguir coragem de mexer na minha bagunça. 
Bem, as coisas mudaram por aqui. O Pedro está namorando e, antes que você se engane, não está namorando a Débora. Conheceu uma menina e se apaixonou. A menina é linda, se chama Alice e é formada em Artes Plásticas. Sempre que posso vou até a casa de Pedro trocar uma ideia com ela. A garotinha leva jeito pra vida, tem olhos fixados no futuro e seus desenhos representam a vida de uma maneira que, pessoas como nós sabemos que é vida, mas outras pessoas entenderiam apenas como um simples desenho. 
João se tornará pai daqui um mês. No começo, achei essa história esquisita, confesso. Mas hoje penso que toda criança é uma benção e deixo que Deus abençoe o que virá. 
Andei me aproximando mais de Deus. É claro, nada de igreja todo final de semana. Mas dediquei alguns minutos dos finais de meus dias para agradecer a continuação. Antes eu acreditara que nós tínhamos que agradecer as coisas boas, hoje eu entendo que nós devemos agradecer pela capacidade de permanecer firme, de desejar continuar, de – mesmo que doa – poder esperar que as coisas melhorem para nós. E acho que era isso que você tentara me dizer e eu, sem muita paciência, não prestara atenção. 
Andei deixando muitos amigos para trás. Talvez porque não fossem meus amigos ou eu não fosse amigo deles. Comecei a colocar nos dedos quem poderia me por para frente e quem poderia me deixar para baixo. Resolvi cortar os dois. Amigos tem que estar do lado, nem atrás nem na frente, mas caminhar ao lado. 
Há pessoas que estão ao nosso redor, mas nos causam inveja. Não dá pra ser amigo de alguém assim. Amigos tem que nos despertar o desejo de querer o melhor para o próximo, não de querermos ser melhores que eles. Talvez você ache naturalista demais este pensamento, mas vai notar que bons amigos não nos fazem sentir sentimentos ruins como inveja, soberba, tristeza ou rancor. 
Algumas músicas e livros eu também excluí de meus dias. Parei de procurar por aquilo que me trouxera inteligência e comecei a procurar aquilo que poderia me trazer sabedoria. Sabedoria tem a ver com preenchimento de alma. Então, hoje, procuro ler e escutar aquilo que me causa satisfação. É preciso que algo realmente me toque para que me desperte. É preciso que algo me traga novas visões, mas é preciso principalmente que aperfeiçoe aquilo que já é meu. 
Descobri novos lugares nesta mesma cidade. Nada de bares, boates ou afins. Fui atrás de natureza. Encontrei paisagens lindas e resolvi comprar uma câmera digital. Muitas vezes, tirei fotos pensando em como você gostaria de vê-las, Clarissa. Mas hoje tiro fotos imaginando como eu não gostaria de esquecer que estive ali. 
Ando muito eu, eu com eu mesmo. E eu tenho parado para escutar um pouco da vida. Acho que é isto que eu sempre precisei. Parar. Entender o que a vida tem para me dar e, sobretudo, entender o que eu tenho que ganhar dela. Mas ganhar com esforço, você sabe. Você me entende, Clarissa. Você entende que eu compreendi o valor das coisas e dos dias. Você entende... 
Clarissa, lhe escrevo em breve. Saiba que eu sinto falta daquelas noites em que ficávamos deitados na cama conversando sobre o que poderia ser e o que deveríamos fazer para ser. – Cuide-se. 

Com amor, 
Danillo.

domingo, julho 29, 2012

A.

"Coragem, às vezes, é desapego. É parar de se esticar, em vão, para trazer a linha de volta. É permitir que voe sem que nos leve junto. É aceitar que a esperança há muito se desprendeu do sonho. É aceitar doer inteiro até florir de novo. É abençoar o amor, aquele lá, que a gente não alcança mais." 

 — Ana Jácomo

PARA 1ª CARTA

“Ainda criança sonhamos a vida da maneira mais inevitável possível. Quando nos tornamos adultos, temos a certeza de todas as impossibilidades. Mas desistir seria abandonar os olhos de esperança que nos pertenceram há anos atrás. – Continuar andando é a maneira de encontrar um novo caminho.” 

Sexta-feira. Chegou em casa, apontou a mão para acender a lâmpada, click, click, a lâmpada não acendeu. “Acho que queimou”. Percebeu o mal-cheiro que viera da geladeira. “Nada disso. Cortaram a energia, outra vez”. Cansado, não pagara as contas. Trabalhara todos os dias e no final do mês nunca sobrara dinheiro. – É, rapaz, não é fácil começar a vida. – Tornar-se independente não é somente um degrau para se subir, é uma escada inteira. 
Deitou no sofá, pensou nas contáveis coisas que poderia fazer durante o final de semana. Nenhuma boa opção. Pensou em ligar para Pedro, mas soubera que o amigo estaria ocupado com a namorada. Rafael viajara. Madalena trabalhara até tarde e se preparara para o concurso do mês que vem. Todos continuaram suas vidas e ele ainda era o mesmo. 
O fato de estar só não o incomodara, nunca o incomodou. Sempre preferiu a solidão, o lugar tranqüilo, a boa música quando se pode ouvi-la sem ser interrompido. O que o atormentara são os sonhos que ele não conseguiu alcançar. – Mas “não conseguir” era uma expressão forte demais para ele. Não conseguir sugere tentativa e ele nunca sequer saiu do lugar. – A vidinha confortável pode causar costume, como também pode causar espanto. 
A escuridão da casa trouxe-lhe as lembranças do passado. As estradas, os desvios, a placa de ida, a placa de volta, a espera do ônibus amarelo, a faculdade, o carrinho de churros que ficara parado na esquina... As vontades e as vezes em que foi contrariado. Os “nãos” e as portas fechadas. As aflições e os perigos, e, até os perigos que na hora pareciam amigáveis. – A escuridão de uma casa é o buraco negro que pode trazer as revelações mais profundas, sinceras e inesperáveis. 
“Eu nunca tive um sonho”. E era verdade. O que ele tivera eram miseras alucinações, desejo de grávida, sonhos emprestados dos personagens favoritos das séries de televisão. Nunca tivera coragem de arriscar sua própria vontade. Vivera das vontades alheias e isto nunca havia lhe perturbado. Era fácil brincar de vida quando no final da noite tivera o gosto do álcool e da mulher amada em sua boca. 
Mas, agora, antes de dormir ele pensara nas oportunidades que ele nem sequer notou que eram oportunidades. Pensara nas derrotas e nos motivos de cada lágrima. Soubera sua culpa e sua inocência. Poderia justificar cada erro, mas era tarde demais para receber o seu próprio perdão. 
Pegou o celular no bolso e conferiu os contados da agenda. O nome dela permanecera ali. Pensou em ligar para escutar a voz compreensiva dela dizendo: “Eu lhe entendo”. Ela o entendera. E ela não rejeitaria ouvir seus martírios, mas já não era hora de procurá-la. Provavelmente ela seguira a vida dela e o medo de obter a certeza de que ela nunca mais irá fazer parte de sua vida era dispensável para o momento. 
Tirou os sapatos, pegou papel e caneta e resolvera escrever. – Embora ainda não possam descrever exatamente o que sentimos, as palavras tem a capacidade de nos mostrar uma saída. – “Cheguei em casa, descobri que a energia foi cortada...”, não, isso não. Amassou o papel, jogou no lixo, começou outro rascunho. “O que é um sonho? Sonho pode ser aquele de padaria, de criança, pertencente a noite ou...”, não, também não. Outro papel no lixo, mais uma tentativa. “Querida Clarissa, vários acontecimentos marcaram minha vida após a sua partida. Sei que tenho grande culpa por seus passos percorrerem outro caminho neste momento, caminho paralelo ao meu trajeto. Porém, de algo eu sei que não tenho culpa. Não posso sentir-me culpado por ainda lhe amar. Gostaria de dividir minha vida com você novamente e sei que isto seria impossível, então resolvi escrever esta carta...”. 
Era uma saída. Tomou a decisão de escrever à Clarissa todos os dias, mesmo que a carta levasse apenas quatro linhas ou que ele nunca a enviasse. Ele escreveria. E guardaria todas as cartas em envelopes na primeira gaveta da escrivaninha de seu quarto. 
Terminou a carta pensando se a vida poderia ainda colocá-lo de frente a Clarissa para que pudesse entregá-la pessoalmente. Soubera que sim. Histórias inacabadas são ciclos e tornam-se labirintos da vida onde andamos, andamos e chegamos sempre ao mesmo lugar. 
O problema é que nós falamos da dor como se com ela não se possa viver. Ao contrário, com a dor ou sem ela, os dias passam. Só o que pode tornar a vida diferente é o amor. Pois só ele nos dá ânimo de pagar as contas, mudar o caminho, escrever novas histórias e traçar um objetivo confiante. – Tomou banho, deitou, dormiu. Amanhã será um novo dia. E haverá uma nova carta.

terça-feira, julho 10, 2012

LENHA
Composição: Zeca Baleiro e Adriana Calcanhoto

"Eu não sei dizer,
O que quer dizer,
O que vou dizer.
Eu amo você,
Mas não sei o quê,
Isso quer dizer... 

Eu não sei por que, 
Eu teimo em dizer, 
Que amo você. 
Se eu não sei dizer, 
O que quer dizer, 
O que vou dizer... 

Se eu digo: Pare! 
Você não repare, 
No que possa parecer. 
Se eu digo: Siga! 
O que quer que eu diga, 
Você não vai entender. 
Mas se eu digo: Venha! 
Você traz a lenha, 
Pro meu fogo acender... 
Mas se eu digo: Venha! 
Você traz a lenha, 
Pro meu fogo acender..."

I HOPE YOU UNDERSTAND

"É uma moça determinada", disse ele.  Acordara cedo todos os dias, trabalhara, estudara, batalhara para ter suas coisas. Não era justo. Construiu objetivos em sua vida e iria conquistá-los. Não fizera sentido apaixonar-se por um rapaz irresponsável como aquele. Já houvera provado de veneno parecido e não tivera vontade de perecer da mesma morte... Gostara dele, não gostara é da idéia de gostar dele.
Mas coração a gente não manda, não é? Não é isso que as fantásticas histórias de filmes e quadrinhos sempre nos trouxeram? O amor não é, nunca foi, nem será algo calculado. De cálculos vivem os loucos e loucura nada tem a ver com amor.
Ah, mas “amor” ainda era uma palavra forte para a moça. Ela dormira pensando nele, trabalhara pensando nele, tomara água pensando nele. De repente, tudo ele. O rapaz bonito de família rica, galanteador; que acreditara em Deus. E talvez fosse a sua fé que roubara o coração da moça. Ela andara tristonha, cabisbaixa, precisara de esperança e encontrara alguém que conhecera um jeito.
Um jeito de concretizar suas crenças. No fundo, o rapaz mulherengo tinha um bom coração. E a moça soubera disso como nenhuma outra moça poderia saber. – Foram feitos um para o outro, mas ela percorria outro caminho.
A moça, como já dito, tornara-se determinada; não tivera mais tempo para deitar a cabeça no travesseiro e voar longe. Perdera a paciência para pieguisses e pessoas mal-resolvidas. “Não tenho tempo a perder” – repetira sempre. Mulher inteligente, corajosa, perdera o medo do escuro e da solidão, disposta a enfrentar rios e mares para alcançar o que foi desejado, só não tivera forças para derramar lágrimas pela falta de planos.
Não foi planejado. Não precisou de muito tempo, não teve alarmes e ninguém disse que não. Então o que é que a incomoda? Há quem diga que o medo tivera tomado suas forças, mas quem a lê sabe que não. Dentro dela poderiam brotar tempestades que ela ainda estaria de pé. – Mas o que é então? – É você, rapaz. Que apareceu sem prepostos, que deixou fraco o passado, que trouxe paz para ao que era tormento. E, em meio essa paz, mostrou a moça o que era “luta”. E agora ela luta contra saudade que ficou... Vê se volta logo, rapaz. Tem uma moça que lhe desdenha esperando que a compre.

sábado, julho 07, 2012

A.

“Não confunda derrotas com fracasso nem vitórias com sucesso. Na vida de um campeão sempre haverá algumas derrotas, assim como na vida de um perdedor sempre haverá vitórias. A diferença é que, enquanto os campeões crescem nas derrotas, os perdedores se acomodam nas vitórias.” 

 Roberto Shinyashiki

ATÉ O FIM

Lá vem ele. Passos calmos, olhos atentos em suas mãos que envolvem o beck. Vai procurar sua fuga outra vez. O que ninguém entende é do quê ele foge. – Do quê foges, rapaz? – A música não o encontra, as composições não são as mesmas; quer mudar de vida, mas tem medo. O novo é desconhecido. Por mais que a vida seja triste, ele andou muito até aqui. As estradas em noites frias trazem a solidão que só aqueles que já viram o céu sem estrelas podem entender. Sem saudade. Vontade – de sei lá o quê! 
Quer rodar o mundo, acender novas velas, tocar algum instrumento; mas não sai do lugar. Aqui é confortável, não é? A roupa está limpa, o carro está na garagem, o cachorro já não late e a comida está quentinha. Dá pra brincar de vida. Pode tentar se matar. É permitido falar o que acha bonito, só não tem capacidade de falar o que sente. 
Mente. Faz de conta que está tudo errado, chama a “falta de coragem” de “tristeza”. Paga uma de coitado. Diz que vai mudar de vida, todo mundo acredita, mas volta a fazer sempre as mesmas coisas. Dentro dele há uma criança, talvez um sonho perdido, mas por fora só se enxerga um monstro. O monstro que todos dão nome, sabem por onde anda, o que faz, porque o faz, como chegou e a hora de partir. – Ele sabe o que há dentro dele e se envergonha do que as pessoas podem ver por fora. 
Sabe que as lágrimas que caem têm nome. Levam o nome dela, o endereço dela, os olhos dela. Ah! Os velhos olhos negros que ele nunca irá esquecer... Tem consciência do quão triste ele faz a vida, e, por isso, a quer longe. Mas a tristeza também ganha nome. Chama-se “culpa”. Culpa que as costas carregam de todas as estradas que ele já percorreu. Todas as encruzilhadas qual tomou o caminho errado, o desvio, a urgência. Teve sede de vida e sempre permaneceu na morte. Da alucinação à rotina. Do delírio à nostalgia. Dos bons tempos ao “Quando é que fui feliz?”.
As mãos doces do rapaz apontam sempre para o que ele não possui. A felicidade está distante. O céu tornou-se algo normal, que todos podem ver e que ele não enxerga mais. – Rapaz, você está perdido! – Eu posso sentir a confusão aqui de longe quando teus olhos vermelhos permitem gotinhas brancas.
O seu problema é manter-se dividido e nunca inteiro. Tu procuras o sorriso na terceira pessoa, enquanto a vida mostra que o verbo sorrir só pode ser conjugado na primeira. Apenas você – rapaz – você, e mais ninguém, pode comandar seu sorriso. Ninguém é digno de manter em mãos a sua esperança. Pegue-a de volta e segure-a, porque ela é tua. A esperança é tua. A vida, a fé, os dias melhores são teus. Ninguém poderá cuidar disso para você. As escolhas são tuas, os ventos são teus, o mundo nasceu para ver você andar. Não dá pra depender de ninguém, nem da droga, nem da fuga, nem da mulher, muito menos da maçã. Tem que ser feito por você, metas e méritos. Caminhos e vitórias. Batalhas perdidas e desejo de continuar.
You know, you can change that. Não há um destino escrito, sua vida não está predestinada à tristeza; Vai sempre faltar algo e o dever que nos foi dado é tentar fazer que falte menos. – Vai lá, rapaz. Tem uma lista de coisas que você ainda pode fazer, porque sempre haverá tempo. Até o último respirar.