sábado, julho 07, 2012

ATÉ O FIM

Lá vem ele. Passos calmos, olhos atentos em suas mãos que envolvem o beck. Vai procurar sua fuga outra vez. O que ninguém entende é do quê ele foge. – Do quê foges, rapaz? – A música não o encontra, as composições não são as mesmas; quer mudar de vida, mas tem medo. O novo é desconhecido. Por mais que a vida seja triste, ele andou muito até aqui. As estradas em noites frias trazem a solidão que só aqueles que já viram o céu sem estrelas podem entender. Sem saudade. Vontade – de sei lá o quê! 
Quer rodar o mundo, acender novas velas, tocar algum instrumento; mas não sai do lugar. Aqui é confortável, não é? A roupa está limpa, o carro está na garagem, o cachorro já não late e a comida está quentinha. Dá pra brincar de vida. Pode tentar se matar. É permitido falar o que acha bonito, só não tem capacidade de falar o que sente. 
Mente. Faz de conta que está tudo errado, chama a “falta de coragem” de “tristeza”. Paga uma de coitado. Diz que vai mudar de vida, todo mundo acredita, mas volta a fazer sempre as mesmas coisas. Dentro dele há uma criança, talvez um sonho perdido, mas por fora só se enxerga um monstro. O monstro que todos dão nome, sabem por onde anda, o que faz, porque o faz, como chegou e a hora de partir. – Ele sabe o que há dentro dele e se envergonha do que as pessoas podem ver por fora. 
Sabe que as lágrimas que caem têm nome. Levam o nome dela, o endereço dela, os olhos dela. Ah! Os velhos olhos negros que ele nunca irá esquecer... Tem consciência do quão triste ele faz a vida, e, por isso, a quer longe. Mas a tristeza também ganha nome. Chama-se “culpa”. Culpa que as costas carregam de todas as estradas que ele já percorreu. Todas as encruzilhadas qual tomou o caminho errado, o desvio, a urgência. Teve sede de vida e sempre permaneceu na morte. Da alucinação à rotina. Do delírio à nostalgia. Dos bons tempos ao “Quando é que fui feliz?”.
As mãos doces do rapaz apontam sempre para o que ele não possui. A felicidade está distante. O céu tornou-se algo normal, que todos podem ver e que ele não enxerga mais. – Rapaz, você está perdido! – Eu posso sentir a confusão aqui de longe quando teus olhos vermelhos permitem gotinhas brancas.
O seu problema é manter-se dividido e nunca inteiro. Tu procuras o sorriso na terceira pessoa, enquanto a vida mostra que o verbo sorrir só pode ser conjugado na primeira. Apenas você – rapaz – você, e mais ninguém, pode comandar seu sorriso. Ninguém é digno de manter em mãos a sua esperança. Pegue-a de volta e segure-a, porque ela é tua. A esperança é tua. A vida, a fé, os dias melhores são teus. Ninguém poderá cuidar disso para você. As escolhas são tuas, os ventos são teus, o mundo nasceu para ver você andar. Não dá pra depender de ninguém, nem da droga, nem da fuga, nem da mulher, muito menos da maçã. Tem que ser feito por você, metas e méritos. Caminhos e vitórias. Batalhas perdidas e desejo de continuar.
You know, you can change that. Não há um destino escrito, sua vida não está predestinada à tristeza; Vai sempre faltar algo e o dever que nos foi dado é tentar fazer que falte menos. – Vai lá, rapaz. Tem uma lista de coisas que você ainda pode fazer, porque sempre haverá tempo. Até o último respirar.