domingo, julho 29, 2012

PARA 1ª CARTA

“Ainda criança sonhamos a vida da maneira mais inevitável possível. Quando nos tornamos adultos, temos a certeza de todas as impossibilidades. Mas desistir seria abandonar os olhos de esperança que nos pertenceram há anos atrás. – Continuar andando é a maneira de encontrar um novo caminho.” 

Sexta-feira. Chegou em casa, apontou a mão para acender a lâmpada, click, click, a lâmpada não acendeu. “Acho que queimou”. Percebeu o mal-cheiro que viera da geladeira. “Nada disso. Cortaram a energia, outra vez”. Cansado, não pagara as contas. Trabalhara todos os dias e no final do mês nunca sobrara dinheiro. – É, rapaz, não é fácil começar a vida. – Tornar-se independente não é somente um degrau para se subir, é uma escada inteira. 
Deitou no sofá, pensou nas contáveis coisas que poderia fazer durante o final de semana. Nenhuma boa opção. Pensou em ligar para Pedro, mas soubera que o amigo estaria ocupado com a namorada. Rafael viajara. Madalena trabalhara até tarde e se preparara para o concurso do mês que vem. Todos continuaram suas vidas e ele ainda era o mesmo. 
O fato de estar só não o incomodara, nunca o incomodou. Sempre preferiu a solidão, o lugar tranqüilo, a boa música quando se pode ouvi-la sem ser interrompido. O que o atormentara são os sonhos que ele não conseguiu alcançar. – Mas “não conseguir” era uma expressão forte demais para ele. Não conseguir sugere tentativa e ele nunca sequer saiu do lugar. – A vidinha confortável pode causar costume, como também pode causar espanto. 
A escuridão da casa trouxe-lhe as lembranças do passado. As estradas, os desvios, a placa de ida, a placa de volta, a espera do ônibus amarelo, a faculdade, o carrinho de churros que ficara parado na esquina... As vontades e as vezes em que foi contrariado. Os “nãos” e as portas fechadas. As aflições e os perigos, e, até os perigos que na hora pareciam amigáveis. – A escuridão de uma casa é o buraco negro que pode trazer as revelações mais profundas, sinceras e inesperáveis. 
“Eu nunca tive um sonho”. E era verdade. O que ele tivera eram miseras alucinações, desejo de grávida, sonhos emprestados dos personagens favoritos das séries de televisão. Nunca tivera coragem de arriscar sua própria vontade. Vivera das vontades alheias e isto nunca havia lhe perturbado. Era fácil brincar de vida quando no final da noite tivera o gosto do álcool e da mulher amada em sua boca. 
Mas, agora, antes de dormir ele pensara nas oportunidades que ele nem sequer notou que eram oportunidades. Pensara nas derrotas e nos motivos de cada lágrima. Soubera sua culpa e sua inocência. Poderia justificar cada erro, mas era tarde demais para receber o seu próprio perdão. 
Pegou o celular no bolso e conferiu os contados da agenda. O nome dela permanecera ali. Pensou em ligar para escutar a voz compreensiva dela dizendo: “Eu lhe entendo”. Ela o entendera. E ela não rejeitaria ouvir seus martírios, mas já não era hora de procurá-la. Provavelmente ela seguira a vida dela e o medo de obter a certeza de que ela nunca mais irá fazer parte de sua vida era dispensável para o momento. 
Tirou os sapatos, pegou papel e caneta e resolvera escrever. – Embora ainda não possam descrever exatamente o que sentimos, as palavras tem a capacidade de nos mostrar uma saída. – “Cheguei em casa, descobri que a energia foi cortada...”, não, isso não. Amassou o papel, jogou no lixo, começou outro rascunho. “O que é um sonho? Sonho pode ser aquele de padaria, de criança, pertencente a noite ou...”, não, também não. Outro papel no lixo, mais uma tentativa. “Querida Clarissa, vários acontecimentos marcaram minha vida após a sua partida. Sei que tenho grande culpa por seus passos percorrerem outro caminho neste momento, caminho paralelo ao meu trajeto. Porém, de algo eu sei que não tenho culpa. Não posso sentir-me culpado por ainda lhe amar. Gostaria de dividir minha vida com você novamente e sei que isto seria impossível, então resolvi escrever esta carta...”. 
Era uma saída. Tomou a decisão de escrever à Clarissa todos os dias, mesmo que a carta levasse apenas quatro linhas ou que ele nunca a enviasse. Ele escreveria. E guardaria todas as cartas em envelopes na primeira gaveta da escrivaninha de seu quarto. 
Terminou a carta pensando se a vida poderia ainda colocá-lo de frente a Clarissa para que pudesse entregá-la pessoalmente. Soubera que sim. Histórias inacabadas são ciclos e tornam-se labirintos da vida onde andamos, andamos e chegamos sempre ao mesmo lugar. 
O problema é que nós falamos da dor como se com ela não se possa viver. Ao contrário, com a dor ou sem ela, os dias passam. Só o que pode tornar a vida diferente é o amor. Pois só ele nos dá ânimo de pagar as contas, mudar o caminho, escrever novas histórias e traçar um objetivo confiante. – Tomou banho, deitou, dormiu. Amanhã será um novo dia. E haverá uma nova carta.