quarta-feira, agosto 22, 2012

F.

"Existem momentos da vida que 
precisamos literalmente fazer uma 
limpeza dos antigos conceitos e abrir 
caminho para novas aquisições. 
Se olhe, 
Refaça,desfarça.. 
Rabisque, critique-se 
Desembrulhe, desconstrua... 
Mergulhe, respireeeee 
Vamos! 
Experimente 
Abra caminho, lance ponte... 
Eis a transformação necessária 
Que deveria ser constante ao ser que 
somos, mutantes."

— Joana Darc Araujo

17ª CARTA

"Tempo de esperas."

Agosto de 2012, Piracicaba/SP 

Querida Clarissa, 
o relógio na parede aponta duas horas e quinze minutos. A noite é silenciosa e solitária. E por minha conta. Eu poderia estar com ela agora, mas estou aqui – deitado na cama e tentando dormir. Me conheces, Clarissa. Sabe sobre minhas confusões. E, novamente, estou aqui preso sobre a decisão da loucura ou do costume. 
Meu erro é o mesmo de sempre: me envolver com as pessoas erradas. Gosto de estar com ela, mas o jeito da outra me encanta. Estou dividido. Com uma é sexo. Sexo mesmo! A coisa mais louca que já vivi com uma mulher. Com a outra é doçura. É gostarmos de coisas em comum, e, discordarmos de outras. O físico de uma me enlouquece, a sinceridade e a sonoridade da voz da outra me acalma. É torturante! Porque são amigas... 
Porque uma tem meu corpo e a outra ganhou meu coração. Porque uma sabe a hora que chego e a outra nem imagina que gostaria de estar ao seu lado. E machuca. Machuca porque estando com ela vivo a vida da outra. E tenho que esconder como chama a minha atenção quando aqueles olhos brilham como as estrelas desta noite. Tenho que disfarçar minha fragilidade, porque as pessoas dessa cidade conhecem apenas a minha força, o meu delírio, a minha imprudência. 
Não sabem que aqui dentro ainda mora o menino que pegava a bicicleta e pedalava até a casa da avó para escutar as histórias mais fantásticas de minha vida. Não sabem que sinto mais do que ajo e que penso mais do que falo. Não sabem dos meus maiores segredos e não poderiam imaginar como é fácil me derrubar. –  Não podem saber da tempestade que cai dentro de mim: sou dela, mas queria ser da outra. 
Por isso não respondi aquela mensagem. Rejeitei a noite prazerosa que sei que teria com aquela mulher e estou aqui imaginando o sorriso da outra... Ah, como é doce! Como é linda! Tem tudo o que eu sempre procurei para ter ao meu lado: é simples e cheia de fé. 
Não entendo. Por que duas amigas? Talvez seja a vida me pregando a velha peça do: “aprenda, não é possível obter tudo”. Seria mais fácil se pudéssemos largar os velhos hábitos, conter o ciúme, não nos confundirmos como propriedades e deixarmos livres as pessoas que nos são belas. Porém, é fato, não é humano aquele que não ferve a veia de ciúme. Não é leal aquele que não está com a mão aberta. E não ama aquele que trai. 
É por isso que me contenho. É por isso que devo me afastar dela e da outra. Não posso ferir aquilo que eu poderia amar. Não posso ser egoísta quando aprendi da pior forma que o amor é prêmio dos merecedores. E para merecer é preciso de algo que, quando entendido o significado, é desafiador conseguir sê-lo. Para merecer o amor é preciso ser gentil. 
A generosidade e o sacrifício andam juntos neste caminho. É preciso ser generoso com quem se ama e é preciso sacrificar-se para ser verdadeiro. Amor exige lealdade, princípios, força e fé. Amor não é aquilo que as revistas e televisões expõem. Amor é o objetivo pelo qual vivemos. E sem ele a vida é triste, insone, cinza. A vida sem amor passa em preto e branco. 
Clarissa, eu lhe perdi pelos meus desatinos. Carregarei esta culpa para sempre. Porém, saiba, não lhe perdi porque desisti de ti, eu lhe perdi porque desisti de mim mesmo. Não posso mais desistir de mim. É tempo de espera. Faz-se tempo de espera por aquilo que é bonito e não por aquilo que é passageiro. – “Me espera.”.

Com amor, 
Danillo.

quarta-feira, agosto 08, 2012

C.

"Sempre fui mulher para encorajar e aceitar as minhas vontades. Se quero, quero. Se não quero, não quero. Posso parecer confusa, às vezes. Mas continuo aquele meio-termo: mulher ou menina? A verdade é que sou à moda antiga. À moda antiga lapidada nos tempos de hoje. Acredito que o homem tem que tomar a frente da relação, porque quando a mulher toma a atitude perde-se a imagem do homem e fica tudo menos encantador. Mas, conforme a urgência dos tempos atuais, não sei dizer não às minhas vontades. É assim: se ele não vem, não vou; se ele vem, eu aceito e aceito sempre, para sempre. - Vou citar Tati Bernardi: "Se o homem realmente gosta, ele vai até o inferno por você. Ele vai sim, e ainda abraça o capeta se for preciso. Sabe por quê? Porque homens são previsíveis, se eles querem eles querem, se não querem, não querem. A raça dos homens não é complexa igual a nós mulheres, que sempre temos dúvidas, que sempre analisamos, pensamos, colocamos mil problemas e tal. Homem é tudo igual. Eu sei é clichê, mas é a mais pura verdade. Quando o cara quer, não tem distância, problemas, família, trabalho, tempo, futebol, estudo, mãe, unha encravada, barba por fazer, celular sem bateria, chuva, temporal, falta de dinheiro que o impeça de estar com você. É simples. É a realidade.". Eu funciono assim, racional. Mas, no fundo, é medo. É romantismo. É uma espera frustante de ser surpreendida. Por isso, rapaz. É fácil: surpreenda-me." 

 — A.M.D.M.

4ª CARTA

Julho de 2012, Piracicaba/SP.

Querida Clarissa, 
entrei no curso como havia lhe escrito na última carta. Precisei escrever sobre isto, porque hoje, após duas semanas de curso, estava conversando com Willian – um colega – e enquanto marcávamos para assistir o jogo da quarta-feira me deu um branco, sabe? Aqueles momentos que a gente para e fica pensando, foge do lugar, voa longe... É que lembrei que estou conhecendo pessoas novas. 
É um processo longo essa coisa de continuar a vida, não é? Acho que estou passando pelos últimos capítulos deste livro, logo chega a hora de começar um novo. Conheci pessoas totalmente diferentes de mim e acho que isso foi a melhor coisa que me aconteceu. Eu sei que é estranho, mas estou empolgado. E empolgação é algo que não combina comigo. 
Troquei de emprego, resolvi ir atrás de fazer o que eu gosto. O curso é ótimo. Continuo com a faculdade, porque não é hora de desistir. “Desistir” é palavra desconhecida de meu dicionário daqui pra frente. Comecei a fumar, confesso. Mas tu me conheces, sabe o quanto sou ansioso, e o quanto preciso de algo para quebrar meus conflitos. O cigarro vem descarregando as energias e não pretendo parar tão cedo.
Ando conversando pouco com a família que deixei na velha cidade. Ainda não é tempo de amarrar os laços novamente. A casinha que aluguei está ficando do meu jeito e, por enquanto, não tenho vizinhos; o que é ótimo, porque posso colocar minhas músicas no meu volume durante a madrugada; e o que é ruim, porque pela primeira vez gostaria de ter vizinhos. Ah, claro, “durante a madrugada” não perdi a insônia. Nem sei se isso é algo que “se perde”, porém não irei continuar com os remédios para o sono. 
Comecei a ler um livro maravilhoso segunda-feira, chama-se “As cinzas que se tornaram fogo”. Tenho certeza que gostaria de ler este livro. Fala sobre um rapaz que teve que re-começar a vida. Re-começar assim mesmo, com hífen separando porque ele na verdade nunca havia começado nada. Sei lá, o livro mudou minha ideia sobre o “começar”. A gente só começa aquilo que termina. Se não termina, não existiu. Pode descartar. 
Bom, no momento não tenho muito a escrever. Peguei o papel com uma felicidade desigual e pensei: “Preciso contar à Clarissa o quanto minha vida está sendo vida.”. Porque, sim. Sim, Clarissa. Você estava certa. Eu não tivera vida antes. Eu brincara com ela. 
E como você mesma me ensinou, a tristeza é o único sentimento que nos faz escrever palavras belas. A magia do amor, a alegria e a paz, não nos trazem a mesma reflexão. Talvez seja isto: Eu ando bem, meu amor. Eu ando tão bem que escrevo tão pouco. 

Com amor, 
Danillo.