quarta-feira, agosto 08, 2012

4ª CARTA

Julho de 2012, Piracicaba/SP.

Querida Clarissa, 
entrei no curso como havia lhe escrito na última carta. Precisei escrever sobre isto, porque hoje, após duas semanas de curso, estava conversando com Willian – um colega – e enquanto marcávamos para assistir o jogo da quarta-feira me deu um branco, sabe? Aqueles momentos que a gente para e fica pensando, foge do lugar, voa longe... É que lembrei que estou conhecendo pessoas novas. 
É um processo longo essa coisa de continuar a vida, não é? Acho que estou passando pelos últimos capítulos deste livro, logo chega a hora de começar um novo. Conheci pessoas totalmente diferentes de mim e acho que isso foi a melhor coisa que me aconteceu. Eu sei que é estranho, mas estou empolgado. E empolgação é algo que não combina comigo. 
Troquei de emprego, resolvi ir atrás de fazer o que eu gosto. O curso é ótimo. Continuo com a faculdade, porque não é hora de desistir. “Desistir” é palavra desconhecida de meu dicionário daqui pra frente. Comecei a fumar, confesso. Mas tu me conheces, sabe o quanto sou ansioso, e o quanto preciso de algo para quebrar meus conflitos. O cigarro vem descarregando as energias e não pretendo parar tão cedo.
Ando conversando pouco com a família que deixei na velha cidade. Ainda não é tempo de amarrar os laços novamente. A casinha que aluguei está ficando do meu jeito e, por enquanto, não tenho vizinhos; o que é ótimo, porque posso colocar minhas músicas no meu volume durante a madrugada; e o que é ruim, porque pela primeira vez gostaria de ter vizinhos. Ah, claro, “durante a madrugada” não perdi a insônia. Nem sei se isso é algo que “se perde”, porém não irei continuar com os remédios para o sono. 
Comecei a ler um livro maravilhoso segunda-feira, chama-se “As cinzas que se tornaram fogo”. Tenho certeza que gostaria de ler este livro. Fala sobre um rapaz que teve que re-começar a vida. Re-começar assim mesmo, com hífen separando porque ele na verdade nunca havia começado nada. Sei lá, o livro mudou minha ideia sobre o “começar”. A gente só começa aquilo que termina. Se não termina, não existiu. Pode descartar. 
Bom, no momento não tenho muito a escrever. Peguei o papel com uma felicidade desigual e pensei: “Preciso contar à Clarissa o quanto minha vida está sendo vida.”. Porque, sim. Sim, Clarissa. Você estava certa. Eu não tivera vida antes. Eu brincara com ela. 
E como você mesma me ensinou, a tristeza é o único sentimento que nos faz escrever palavras belas. A magia do amor, a alegria e a paz, não nos trazem a mesma reflexão. Talvez seja isto: Eu ando bem, meu amor. Eu ando tão bem que escrevo tão pouco. 

Com amor, 
Danillo.