quinta-feira, dezembro 13, 2012

A.

"Então vinha o medo. Não queria aceitar a palavra, empurrava-a para longe do cérebro, mas ela voltava a se impor, e ele estava tão fraco que nem podia lutar. Vinha o medo frio, vinha o medo lento. Primeiro uma carícia brincando nos tornozelos, leve arrepio subindo pelas pernas, arrepiando as coxas. No ventre, solidificava-se feito compressa de carne mole, gelada. No peito, apertava como se quisesse estancar o ritmo do coração, e na garganta implorava para ser transformado em grito. Um grito que quebrasse as paredes, arrebentasse o teto, como um cavalo selvagem. Mas junto vinha também o cansaço recolhido no fundo do corpo, recusando-se a atender o pedido. Enfurecido, o medo escalava o pescoço, fazia estalar a cabeça. Maurício levava as mãos até as orelhas, apertava-as, sentia o liso frio das faces, implorava: não não não. Sem pausa, sem sentido, sem voz, ele implorava como devem implorar os condenados à morte frente ao pelotão de fuzilamento. Sem empenho, porque jamais seria atendido. E, de repente, a dor cessava. Então mergulhava num poço silencioso, esverdeado de musgo, vazio de arestas." 

 Limite Branco, Caio Fernando Abreu