quarta-feira, janeiro 16, 2013

AS MUDANÇAS


 Anota:
 Você costuma parar para pensar como será daqui a dez anos?
É possível largar tudo sem saber como estaremos ao voltar?

Querido amigo,
fico feliz em saber que está tudo bem com a sua família. Adorei receber fotos dos seus lindos filhos. Junto desta carta mando recordações dos laços que também construí. É bonito ter pessoas que nascem do nosso amor, não é mesmo? Creio que seja uma das razões pelas quais a vida ainda vale a pena.
Às vezes eu me faço promessas estranhas. Prometi que não escreveria mais quando estivesse emocionado. Ah! Que tolice! A emoção é o que nos move, não é? Se o coração não bater um pouquinho mais forte parece que não há a vontade necessária para seguir em frente. É que quando abri o envelope e vi suas fotos, resolvi olhar nossas fotografias de quando éramos jovens. Sabe, sinto falta do entusiasmo que correra em minhas veias quando tivera a idade dos nossos. Queria um dia voltar a correr como antes. É mágica a velocidade de nossas pernas quando temos 19 anos. Às vezes, observo as crianças que estamos educando hoje e me pergunto "como elas podem ficar mais de seis horas sentadas, gastando sua energia, com uma máquina que chamam de computador?". Os jovens não se esticam, não leem, não param para refletir. São tolos e egoístas, criam felicidades falsas e nem ao menos sabem o que é ser alegre. Meu neto recentemente foi internado em uma clínica de reabilitação... Bom, não quero tocar neste assunto. Me dói saber que a educação que dei aos seus pais não foi repassada. Enfim, parece que quando nós éramos jovens, a vida era mais simples, mas era mais bonita.
Desde que a minha amada se fora, penso em ir embora. Mas ir embora requer muita coragem. A tecnologia é a grande responsável por meus medos. Imagino deixar esta casa de paredes verdes, com gramado, árvores e janelas marrons, permanecer fora por dez anos e, ao voltar, encontrar pessoas morando em baixo do solo porque os cientistas descobriram que era mais saudável ou fora a última moda. É amedrontador saber que as coisas mudam muito rápido e que nós não percebemos a mudança. O que nós dois estamos fazendo, trocar cartas, é um exemplo de caretice. Sabe o que eles fazem agora? Trocam torpedos pelo celular. Há um mês o namorado de minha caçula terminou o namoro por uma SMS. Incompreensível. Somos medrosos e, agora, nos escondemos e vivemos conforme a tecnologia. Você costuma parar para pensar como será daqui a dez anos? Os carros? Como serão? É possível largar tudo sem saber como estaremos ao voltar? A tecnologia altera os objetos, meu amigo. E, infelizmente, ela altera as pessoas também.
É por isso que cultivar os detalhes pequenos é importante. A compaixão, o nascer do sol, a corrida no final da tarde, o futebol com os amigos, um bom livro, a boa música, uma boa conversa, pessoas que velam a pena... Tudo o que nos fizer entender o porquê de ainda estarmos aqui. E, a fé. Volto à ela, porque acreditar é o que nos resta. É o que nos exemplifica e nos faz esperar com mais calma por aquele dia.
Sabe, eu vejo o maldito dia se aproximar. Catarina costumara dizer que algumas pessoas já sabem que irão embora mais cedo. Eu sempre soube que o Parkinson iria me roubar as coisas que eu mais adorara. Por isto a urgência, as noites em claro, a bebedeira, o cigarro, o desespero que só me tornou mais fraco, mais tolo. Todas as vezes que uma parte do meu corpo começara a tremer e eu perdera o controle, me sentira vulnerável. Escrever durante um ano foi praticamente impossível. Tenho certeza que quando ler este parágrafo saberá que não estou mentindo. Se lembra que eu sempre tremera? Eu, meu amigo, o escritor. Antes mesmo de fazer os exames, eu já soubera. Quando eu e Catarina estávamos a sós eu costumara a dizer: "Estou tremendo". E ela sempre respondera: "Eu também". Eu tentara avisá-la de que eu previra a morte, mas ela já havia entendido muito antes. Como disse, ela costumara dizer que algumas pessoas já sabem que irão embora mais cedo.
Tremer, às vezes, não é tão ruim. Eu não preciso mais me esforçar para escovar os dentes. É só ficar sem tomar o remédio... Quando minha amada ainda era viva, a parte trêmula, também me era útil. Bem, nem sempre por causa dos remédios. Mas a velhice nos toma isto também.
Não há nada demais em envelhecer. Eu preferira estar certo e ter ido antes, mas há uma longa trajetória a ser percorrida. Eu tivera que acompanhar as mudanças. Tivera que estar aqui para escutar o choro de meus netos ao nascer. E tivera que aconselhar meu filho quando ele perdera minha nora. Não foi fácil para Elias entender a morte.
Ah! A morte! Falaremos disso em nossa próxima correspondência. Saudosas vibrações durante o novo ano e um conselho: compartilhe suas alegrias.

Com os olhos de 19 anos,
Chico.