quarta-feira, outubro 23, 2013

SONHEI QUE BRIGUEI COM ANTÔNIO

“Não dá. A verdade é que eu não consigo resolver problemas. Eu fujo deles. Não há justificativa. A dor parece menor quando eu a evito. Às vezes, imagino se enfrentá-la amenizaria o momento. E, no fim, não adianta. Eu deixo corroer os cantos. Minha mesa está perdendo as pernas. E, mesmo que seja contraditório, eu não me assusto ao vê-la despencar. 

Eu deixei de me importar com tudo o que era fundamental. Quem fala que eu pareço uma criança, não sabe o que eu passei quando tinha cinco anos. São dores que levamos para sempre, no silêncio. Não fui mimada. Eu só nunca tive nada que fosse meu. E eu tenho medo de ter. – Eu não estou mais feliz assim, Antônio.

Quando eu tinha dez anos eu brigara para falar no microfone da igreja. Hoje, eu não posso trocar uma palavra com um estranho. Não posso me dar ao luxo de amar e sofrer. Eu não conseguiria. Eu irei embora todas as vezes que forem necessárias, e todas estas vezes, eu irei imaginar se não seria melhor voltar e te abraçar. 

Cansei de pessoas querendo ler as minhas respostas. Eu não me dava bem com a minha mãe, porque não suportara a ideia de que alguém cuidasse de mim. No começo, eu tivera que repetir várias vezes: “eu sou sozinha, eu sou sozinha, eu sou sozinha”. Não era só mais uma leitura de autoajuda. O verbo ser deixou de estar. Eu não estava mais sozinha, eu era uma pessoa sozinha, assim como milhares de pessoas no mundo. Eu cheguei a consciência da minha solidão. 

“Confie em seus pais” é, com certeza, a frase mais sábia do mundo. Mas todas as vezes que estou indo embora da casa de minha mãe, eu sei que eles não estarão ali para sempre. 

Esta é uma fase que tem de passar rápido, no entanto eu tenho que aprender tudo o que eu puder. A faculdade só tem me mostrado uma coisa: esta parte da minha vida eu consegui acertar. Eu não jogarei fora esta oportunidade. 

Dá medo chegar perto de você. Dá medo sentir o que eu sinto. Dá medo sentir qualquer coisa por qualquer pessoa. Eu já amei uma vez, tentei ser a pessoa mais compreensiva possível, e não deu certo. Dá medo não dar certo outra vez. 

Antônio, é só mais um personagem que eu matei. Ele poderia ter qualquer nome. Ele poderia ter o teu nome. Mas eu não posso arriscar tudo. A palavra arriscar está fora do repertório. 

Eu escrevo há anos e, esta, parece só mais uma história que poderia ter dado certo se eu não a tivesse escrito. Só queria poder ter dito que eu aprenderia a gostar de Antônio.”