quarta-feira, março 12, 2014

A MOÇA QUE NÃO TINHA FÉ

Anota:
Fé é ter esperança.

Que me desculpem as pessoas de muita fé, mas é isso que eu – em minha simplicidade de entender – penso sobre a vida. Não tenho a pretensão de que vocês queiram viver conforme eu determino. Mas, uma coisa é certa: tem muita gente cristã, que crê em Deus, mas que não tem fé.



Era moça alta, de formosura vigiada pelos rapazes, sorriso ameno quase imperceptível, mas olhos chamativos, olhar que devora. Acordara cedo, se vestira, pegara o rumo do trabalho, trabalhara, finzinho da tarde voltara para a casa e começara o segundo empego, estudar. A senhorita da casa 15, esquina com a casa 8, tinha um sonho: ser alguém. Mas não tinha fé. Não acreditara em um criador, nem em destinos, nem sequer nela mesma. A beleza que foi dada a ela era castigada com a sombra de não acreditar.

Não acreditar é um importuno que causa estragos. Todos nós, mesmo os loucos, precisamos acreditar em algo. Algo precisa nos comover. Precisamos crer no hoje, no amanhã, na matéria, no perigo, na dúvida ou na certeza. Algo tem que nos impulsionar, tem que nos movimentar. Porque, senhores, acreditar é inspirar-se. A determinação do homem em ter chego até aqui veio da fé de um louco, que acreditou que poderíamos ser melhores, mais tecnológicos, mais rápidos.

Só que a moça, sabe-se lá o que houve na vida daquela moça!, era cética. Centrada demais, cordial demais, impecável em ser mulher. Eu observara, como quem vigia a hora de a banda passar, os falatórios sobre a afável menina. E me indignara. Sobre a moça? O que eu sei sobre a moça? Sei que não a conheço e que não sei a sua história. Não faço ideia de onde veio, nem posso adivinhar para onde vai. Só sei o que ela, a moça tão serena, me deixa ver.

Vejo que não quer ir muito longe, mas que também não vai ficar por aqui. Que ajuda muitas pessoas e que não se importa em perder algo ou algum compromisso para poder ser solidária. Se sente bem ao perceber que fez alguém sorrir. De alguma maneira, tem medo da morte, mas se arrisca todos os dias quando sai de casa. Não gosta do cabelo muito comprido, por isso cuida sempre do corte. Talvez fale outra língua, mas eu não trabalho com suposições. Sempre encontramos um “obrigada, por favor, me desculpe” em seu falatório. E, por falar em falatório, não parece se importar com o seu redor. Evita fofocas. E, por isso, fofocam sobre ela. Acho que, a moça, embora não viva dentro da igreja, age com muita paz.

Enquanto o mundo corre seu ritmo ininterrupto e difícil de se acompanhar, ela se senta na poltrona e lê um livro como quem lê a própria vida. Se encontra em cada estrofe da música que toca no rádio e pede, por favor, que o locutor não volte com anúncios. No almoço, come feijão e arroz, porém não tem muito apreço por carne. Adora pipoca. Não dispensa um chocolate. Seu filme predileto foi dirigido por Quetin Tarantino. E chora todas as vezes que assiste incansavelmente o clássico Titanic. Creio que, a moça, não seja tão diferente das demais.

'Talvez seja isso mesmo que assuste: a normalidade. E a maneira com quem faz tudo ser tão natural. Como ela consegue? Como ela dá conta de viver tão tranquila se, da vida, parece querer tão pouco? Não sei, não sei. E temo que muito gostaria de saber. Mas a resposta é um tanto quanto lógica. A vida continua. A continuidade e a sequência da nossa existência é a chave para tudo. Porque, na verdade, mesmo que nos falte algo, nós temos que ir em frente. Mesmo que doa, e que a tristeza tome boa parte do dia, o dia segue e vira noite, e dia, e noite, e...

E até para os pecadores a vida vai andando e acontecendo, o passado fica para trás e, quando vê, lembra-se de tão pouco! Não precisamos mais daquilo que era tão importante. Aquele sapato, hoje velho, não era tão bonito assim. E aquela festa não parece mais ter tanta estima.

As coisas mudam, meu amigo. Os gostos mudam. A rotina muda. As pessoas ao nosso redor se alteram e se alternam, novas pessoas aparecerem, e, de repente, a única coisa que sobrou é aquele móvel que só acumula poeira no canto da casa.

Você aí deve estar se perguntando “o que a fé tem a ver com isso?”. Ah! A fé! Talvez ela não altere tanto as coisas. Tem muita gente que vive sem acreditar. No entanto, quem tem fé, tem tudo. Ela completa aquele cantinho que ontem estava vazio. Ela deixa cair, mas levanta.  Com a fé a vida parece mais fácil. E talvez seja. A fé e a esperança alimentam a alma que precisa viver. E são poucas as coisas que despertam a alma: medo, fé, ódio e amor.

Rancor? Rancor não alimenta, só corrói, gasta o que não tem. Mas o ódio e o medo dão oportunidade ao que pode matar. E a fé e o amor nos dão coragem.

E coragem, meus queridos amigos, é tudo o que aquela moça não tem. Mas, mesmo assim, todos os dias ela acorda, vai trabalhar, vai tentando viver...