domingo, março 02, 2014

Desse cálice eu não beberei, não mais

E só eu sei o quão difícil é amar em silêncio.

Eu sei que anos se passaram. Um, dois, três... eu perdi a conta. Eu nem sei se eu cheguei a contar! Mas eu sei de algumas coisas que eu vou guardando aqui dentro e tentando fingir que elas não existem, e mesmo que, não soem tão poeticamente, e sejam urgentes e confusas como um desabafo, eu preciso, eu muito que preciso, contá-las. Eu preciso pôr pra fora e, pondo-as fora, eu quero que essas coisas sumam de mim. Eu quero ficar leve. E, pra isso, preciso descarregar.
Eu quero te esquecer, mas eu não consigo. Eu paro e penso: “fazem anos!”, e tenho medo de que dure por mais anos. Eu tenho medo não só que dure, mas eu tenho medo de te deixar pra lá. Porque você foi a única inspiração que me fez sentir, meio que torta, que eu poderia ser tudo na vida. Depois que você se foi, eu me perdi. E eu me encontrei. Mas foi um encontrar tão desencaixado, que eu tive que me organizar no meio da minha bagunça. Um organizar tão desorganizado que eu creio que nunca me encontrei. Porque pode parecer estranho, mas, não há um dia sequer que eu não pense em você. E, todos os dias, eu sinto a sua falta. Eu deito a cabeça no travesseiro e me pergunto: “como é que eu cheguei até aqui?”. Eu não sei. Eu juro que eu não me lembro em que parte do caminho eu desviei do trajeto. Eu só sei que eu ainda te amo. E amo do mesmo jeito. Ou até mais. Eu amo muito.
E eu mudei tanto! Eu não sei o que sinto mais: a sua falta, ou a minha. Porque eu queria, e queria muito, ser de novo uma menininha de quinze anos. Que tinha coragem, esperança, fé inabalável e uma vontade imensa de viver. Não me leve a mal. Eu não estou triste. Nem doente. Eu estou com saudade. Porque apesar de agora eu ser forte, eu não tenho propósitos. Apesar de ser cautelosa, eu sofro de dúvidas. Apesar de alegre, do meu jeito, eu não sou feliz. E não me apaixonei por mais ninguém.
Houveram pessoas pelas quais eu me interessei, mas não houveram pessoas especiais, sabe? Pessoas que tocam o coração e fazem nos querer abraçar o mundo ao lado delas... É aí que sinto falta dos meus quinze anos quando me apaixonar era tão fácil! Tão fácil! Um sorriso, um olhar... pronto! Eu estava apaixonada. Hoje não! Hoje eu sou aquilo, aquela palavra, que eu sempre abominei, porque não rima, não é bonita, não faz poesia. Eu sou [seletiva].Urgh!
Sei lá. Parece aquelas mulheres que aparecem com um texto enorme de como elas são fortes, e de como elas querem o homem perfeito. Eu não sou forte. Eu não espero o príncipe. Eu sou sensível, e eu espero você. Me diz qual o sentido de você não sair daqui de dentro? Me diz por que você não se lembra de mim? Por que você me apagou da sua vida, se algum dia, você me disse, que eu era a sua vida... Me diz. Me diz pra te esquecer. Porque eu preciso tanto ter raiva de você! E eu não consigo. Eu não tenho raiva, nem mágoa, não há rancor. Há apenas um arrependimento doloroso de ter aceitado e deixado com que você me esquecesse. Eu meio que, sempre, todas as noites, chego a conclusão de que eu nunca vou me perdoar por isso.
E aqui escrevendo me faltam forças. E me faltam raízes. E minhas veias borbulham uma fraqueza que me consome. Porque eu não toco nesse assunto. Não. Eu fujo de tudo que tem você, que faz lembrar, que me aproxima. Eu não me sinto no direito de me intrometer na sua felicidade. Porque aqui de longe, eu fico olhando a vida que você construiu, e eu tenho uma vontade atordoante de ter ela pra mim. Um cão, um jardim, um emprego novo... E então eu me lembro que não fui eu quem você escolheu pra ter essa vida. E volto a minha vida. E acordo todos os dias, vou trabalhar, estudo, me alimento, vou ao mercado, olho alguns rostos e sorrisos pela rua, e me pergunto se algum, em algum dia e algum lugar, eu vou poder amar como eu sempre te amei.
Porque não posso reconstruir os fatos, nem reviver um passado, não posso sair por aí gritando um amor que nem existe mais. Não posso tentar outra vez. Mas... e tudo o que nós aprendemos juntos? Não calar, não ter medo, não ficar parado, viver o amor, viver a vida, viver como se amar fosse o único propósito. Onde é que vou parar se eu, todos os dias, contrariar tudo o que doeu muito para que eu aprendesse? Acho que eu vou parar aqui mesmo. Nesse vai e vem. Nesse “será”. Nesse “espero que você esteja bem”.
Porque eu sempre desejei uma vida tranqüila pra você. Uma felicidade fácil, uma casinha confortável, um cachorro, um dia nem muito frio nem quente demais, uma letra de música, um bom emprego, que você possa ser saudável e que você tenha fé. Que você possa dizer obrigada. E que, no final desse dia, você chegue em casa e tenha certeza de que teve um dia bom.
Eu sempre desejei qualquer coisa, mas qualquer coisa boa.
Talvez, você leia, e fique com raiva. Mas desse cálice eu não beberei. Não posso mais beber. Não agüento mais beber. Cada gole que eu tomo é uma morte nova que eu vivo. É tão ruim ir contra tudo o que a gente quer que os outros façam! Porque, com palavras, eu dou coragem, mas tenho medo. E digo: “gritem!”, mas vivo calada. E só eu sei o quão difícil é amar em silêncio.
Eu não sei se vai se lembrar, mas tem uma estrela, aqui dentro de mim, que mesmo morta, ainda brilha. Acho que eu estou esperando um cometa bater em mim... Acho que eu queria poder um dia compartilhar a vida nova que eu tenho. Sabe? Contar tudo o que me transformou... Eu nem saberia por onde começar. Então eu vou começar pelo fim: no fim, você pode duvidar, mas tem duas estrelas brilhando.
Não é coerente, nem poético, nem sei se poderia ser. É que faz anos que eu não escrevo pra você. Mas, mesmo que não seja um texto tão bonito quanto qualquer outro, preciso terminar dizendo: “eu ainda te amo, eu amo agora e para sempre. E, se não for pra sempre, não era amor. Mas é que já durou um bocado...”.