quarta-feira, abril 23, 2014

23-04-2013

“Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. Os teus me chamarão para fora da toca, como se fossem música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos dourados. Então será maravilhoso quando tiveres me cativado. O trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...” 

O PEQUENO PRÍNCIPE, ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY

VALENTINO

“Todos os dias, nessa cidade, pessoas acordam, vestem suas roupas e seguem até o trabalho. Abandonar o pijama em cima da cama e se preparar para um novo dia é sempre o horário mais difícil. Não é só a roupa de dormir que nós deixamos, são os sonhos, todos os sonhos.”



Acordou atrasado, correu, vestiu-se, pegou o ônibus. Perguntou-se por que a senhora do segundo banco carregara uma espécie de bíblia com um chaveirinho escrito “Graça”. Desceu no ponto. Contou os passos até o trabalho. Perdeu-se em pensamentos. Pegou a chave no bolso. Abriu a porta. Deu o primeiro passo. Disse a si mesmo que seria um bom dia para trabalhar. Mentiu.
A conta de telefone estava atrasada. O senhor Carlitos não levou os documentos que prometera. Em cima da mesa uma pilha de serviço e nenhuma solução. O telefone tocara num intervalo de trinta minutos. O supervisor analisara o tempo que se foi perdido pensando em por onde começar. O mundo parecia estar contra todos os compromissos que ele tivera. O coração era abatido com o estresse do dia-a-dia. Quem é que tem vontade de continuar quando em volta só existe confusão?
Talvez a fé seja aquele pedacinho que sustenta quando o corpo está cansado. O rapaz soubera muito sobre a fé. No entanto, tinha pouco conhecimento sobre rotinas. Não queria prender a mente entre quatro paredes. Trabalhar dentro de um escritório nunca fora sua vocação. Se pudesse largar tudo e varrer as ruas da cidade, talvez fosse mais feliz. – Ele só gostaria de poder andar descalço. – O que era um afronto visto que muitas pessoas desse país sonhavam em ter um par de sapatos. Acho que ele só queria ter os pés livres.
Horário de almoço. Andou até o restaurante de esquina com o desejo de acender um cigarro, mas os colegas de trabalho não apreciariam o cheiro durante a tarde. “Proibido fumantes”, pensou. Chegou no restaurante. Tentou se lembrar da mesa que tivera escolhido da última vez, lembrou, sentou na mesa ao lado. Acenou para o garçom. O garçom fora cordial. Terminou a refeição. Fora até o caixa. A moça do caixa mencionou que sempre o vira, e percebera como ele sempre sentara em uma mesa diferente. Respondeu que sofrera de “medo de costumes”. Saiu. E, quando atravessara a rua, a enxergou. Os mesmos passos. O mesmo sorriso. Carregara flores no cabelo. Ah! Era ela! Outra vez era ela e outra vez ele a evitou. Voltou ao trabalho pensando por onde ela andou desde a última vez... Resolveu deixar pra lá.
O senhor Carlitos o esperara em sua mesa. Os documentos prometidos em suas mãos e todas as reclamações possíveis. Sentou-se. Colocou a mão no queixo. Escutou as lamentações. Mas não lidou com as inúmeras tarefas daquele senhor naquele dia. O rapaz e seu velho hábito de deixar tudo para depois...
Fim de expediente. Contou os passos até o ponto. Pegou o ônibus. Equipou-se de fones de ouvido. Fechou os olhos enquanto escutara Jack White. E, de repente, uma voz. Virou o rosto e a fitou, boquiaberto, com a música ainda em seus ouvidos. Ela havia entrado no mesmo ônibus que ele, sentado ao lado dele, dito seu nome.

“ – Consigo enxergar em seus olhos o medo que tens de me encontrar.”, ela disse. Mas ele só conseguira ficar olhando as flores no cabelo.
“ – Comprei um disco novo. Acho que você vai gostar.”, insistiu. E ele a questionou sobre o artista.

Conversaram até chegar a vez de ele descer. Se despediu. Pensou em quantas vezes mais partiria seu coração se despedindo dela. Lembrou-se das primeiras palavras que ela disse. Sim. Ele tivera medo. Ele tivera medo de encontrá-la, de encará-la, de vê-la feliz com a sua nova vida. Ele gostaria de ter a coragem dela. Afinal, não é qualquer pessoa que usa uma flor no cabelo.
Chegou em sua casa. Vestiu-se, outra vez, de sua roupa de sonhos e deitou-se em sua cama. Fitara o teto enquanto imaginara como os velhos amigos estariam agora... Pensou em ligar para ela. Resistiu. Tentou pensar sobre o trabalho. Não conseguiu. Recordou-se da tristeza de seus pais. Decidiu dormir.
E esse era sempre o seu maior erro: deixar para lá, resistir, não tentar, não lembrar, não pensar. Continuar vivendo a vida que ele não vive. Não perdoar seu passado. Não acreditar em algo. Não correr riscos... Já reparou em quantos “nãos” nós colocamos em nossas vidas? O rapaz rimara versos enormes de negativas, enquanto a vida só espera um “sim”. Como a senhora que carregara um chaveirinho esperando uma graça, a vida carrega pessoas esperando que elas andem com seus próprios pés. O rapaz que lamentara o leite derramado durante o dia é o mesmo que correra descalço em seus sonhos durante a noite. Só faltara uma coisa: coragem.