quinta-feira, maio 15, 2014

OS GRITOS DA CIDADE



Todos os dias escutamos os gritos de uma cidade que pede socorro: sirenes, buzinas e os freios dos carros. Mas e o barulho que ninguém escuta? Para onde vão os nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos? São os silêncios falantes que mais sufocam. O calar da vontade, do segredo, do amor. Às vezes as palavras escorregam e se perdem pelos cantos. Enquanto por fora elas são apenas silêncio, por dentro são gritos. Os gritos que ninguém escuta.

Nós escondemos as nossas perdas e acho que não há a necessidade de deixarmos à mostra. No entanto, como é que nós vamos conseguir lidar com as perdas que não temos coragem de perder? São tantos segredos que a nossa alma carrega e tantas dores que se perdem em cada músculo, que talvez deixar um pouquinho exposto, aliviaria o peso.

Vivemos pesados, sobrecarregados, cansados. Outro dia escutei “nós não sabemos a hora de parar”, e não sabemos mesmo. Porque não paramos. A vida é uma linha contínua de acontecimentos. Não tem fim. E, em minhas crenças, creio que nem após a morte nós teremos realmente um final. E é por causa dessa continuação irreparável que tudo que precisa ter fim em nossas vidas, tem que ter fim. Porque o que não acaba agora, volta a atormentar lá na frente. Histórias inacabadas, cedo ou tarde, ganham novos parágrafos.

Então toda voz que cala aqui dentro, um dia terá que ser enfrentada. Ai daqueles que tem de enfrentar um grito calado por anos! É como ficar anos sem se olhar no espelho e, de repente, se ver refletido mais velho, com rugas, careca, totalmente diferente da última vez. A voz que cala também cresce, ela aumenta, ela acumula novos dizeres, mais dores, mais sufocos, mais traumas.

Silenciamos por medo, silenciamos a dor, silenciamos a vontade, silenciamos o amor e tudo se torna segredo. Essas feridas nos tiram o sono, nos deixam sentados por horas no sofá pensando em tudo o que deveria ter sido dito e não foi, e agravam a situação. Muitos problemas poderiam ter sido resolvidos com uma conversa. E, mesmo assim, nós nos calamos.

Precisamos trabalhar uma maneira de soltar a voz que trava. Expor o que nos afeta não é fraqueza. É preciso muita coragem para ser franco. A honestidade da franqueza diminui as feridas que não fazem barulho nessa cidade.

É hora de parar de perder a chance de contar à aquelas pessoas o quanto gostamos de estar ao lado delas, como é hora de pedir para que se esforcem um pouco mais e nós possamos permanecer aqui. É hora de colocar para fora o que sentiu quando perdeu aquela oportunidade, de conversar sobre o seu medo, de discutir sobre a sua dúvida. Nós já podemos dispensar o terapeuta. De agora em diante, nós vamos gritar tudinho, ou pelo menos, quase tudo. Hora de encarar o espelho e terminar aquela conversa que ficou pra hoje...