sexta-feira, agosto 29, 2014

D'AQUI DE DENTRO

“Se nos jogássemos naquela poça-de-lama e fizéssemos todos os rituais de beleza que o mundo implorara, ainda assim estaríamos sujos de barro. O que quero dizer, é que, apesar das roupas caras e sotaque inglês, no fundo, todos nós estamos sujos. Todos estamos fora daquilo que realmente queremos. Estamos à mercê dos padrões que anseiam e eu não tenho orgulho dessa vida.” 

Foto: instagram.com/elizabethmessina

Vomitou um discurso sobre aquela moça que me deu a sensação de que eu estava sendo agredida. “Ela não passa de uma vagabunda!” e me olhara esperando a minha concordância. Não. Eu não concordara. Eu não aceitara a ideia de que aquelas pessoas sentadas naquela mesa que custara mais de um salário de uma família brasileira, poderiam estar julgando uma pessoa porque ela fizera sexo.

Mergulhei na minha raiva, respirei fundo e soltei meu desabafo sem esperar que eles me entendessem: “Talvez ela possua um coração melhor do que o de vocês.”. Ele me cutucou por debaixo da mesa, e disse: “Querida, não seja tão hostil.”. Hostil provavelmente fosse a palavra que melhor descrevesse aquele momento.

Eu apenas continuei: “Talvez ela apenas não se preocupe com os padrões estabelecidos por uma sociedade bíblica do que é certo ou errado. Talvez, no final de cada dia, ela doe mais amor e solidariedade do que as pessoas que frequentam a igreja devotamente. Talvez seja mais honesta do que o marido, pai de família, que vem ao bordel trair sua esposa e depois aponta o dedo para julgar à mulher que lhe deu prazer. Talvez nós sejamos uma população de hipócritas e ela não queira fazer parte disso. Acho apenas que ela tem uma vida mais real do que a nossa.”. Levantei, peguei meu casaco e deixei o restaurante. Não me recordo se eles comentaram algo ou, talvez, eu não tenha prestado tanta atenção assim. 

Minutos após fechar a porta de minha casa, a campainha tocou. Era José. Atônito, tocara a campainha sem parar. Eu estava repleta e consumida pela raiva. Não poderia crer na ideia de que ele era tão mesquinho. Abri a porta na prontidão de lhe dar uns tabefes, mas, de repente, eu lhe vi. Vi seus olhos de menino que não entendia nada sobre a vida. Me lembrei de que aquela altura eu já estaria apaixonada. Deixei os “nãos” de lado e o abracei. Resolvi que se eu consegui amá-lo, conseguiria mostrar a ele que a vida era muito mais que um prato de lagosta a beira-mar. 

O primeiro ensinamento que pude compartilhar com o meu amado José foi o perdão. Quem se cria na rua, mesmo que tenha família o esperando para o jantar no fim do dia, aprende que o perdão é fundamental. Não só porque estamos sujeitos ao erro e a ter que nos desculpar constantemente, mas também pois perdoar nos causa paz. Tira um peso das costas que não temos a necessidade de carregar. Perdoar José, pelas crenças que obteve em sua família de classe A, foi um dos maiores desafios que eu enfrentei. No entanto, foi tão rápido quanto ferver água. 

Não éramos namorados. Não estávamos noivos, nem eu fora sua amante. José era um jovem de família rica que se formou em medicina e que me conheceu em um balcão de bar, dormimos na primeira noite. Muitas moças daquela época teriam esperado um mês ou dois para conhecer a sua casa, mas eu estava curiosa para saber se ele era ou não o homem da minha vida. Era. E eu soube disso naquela mesma ocasião, enquanto ele dormira no seu travesseiro de penas e eu o observara calmamente. 

Nós nos víamos repetidamente, todos os dias, a nossa rotina era estarmos juntos. Não era bem uma história de amor tradicional. Ele era um rapaz bonzinho que precisara ser sacudido. Eu era uma menina criada na religião do “coma com a boca fechada, agradeça e peça desculpas”, que levara a vida com certa malícia e diversão. Não andávamos de mãos-dadas e nem costumávamos sair juntos, nas raras ocasiões que tentamos trazer um para o mundo do outro, dava sempre tudo muito errado. Não éramos para ser, mas éramos. Então, ele vivera a vida dele, eu a minha e, no fim da noite, a campainha sempre tocara. 

Aos poucos, todas as boas-maneiras de José foram substituídas pela realidade com que eu conduzira meus passos. Ele não visitara mais seus amigos fresquinhos, tinha na cabeceira da cama os livros que eu indicara, sorria e ria, gargalhava, dos meus desajustes e piadas, adorava quando eu aparecia de surpresa no seu consultório e fazíamos da sua mesa cheia de instrumentos, que eu não sei para quê os médicos utilizam, o nosso ninho. Nós não tínhamos regras. E isso era adorável. 

Quando aceitamos que o outro pode nos transformar e mergulhamos de cabeça na piscina de água fria, sem que antes nos preocupemos em medir a temperatura, não é só amor. É um dos mais saudosos milagres que Deus pode nos conceder: estar ali, sem horários agendados ou planos para o futuro, com alguém que nos faz ser melhor

Sem limites invisíveis, não sentiremos vontade de ultrapassá-los. Nós só almejados estar ali. Ali. Ali naquele trabalho, ali naquela mesa escrevendo algo, ali naquele telefone vendendo a mercadoria, ali naquela sala atendendo o cliente, ali ao lado daquela companhia. Nós trabalhamos, aos pouquinhos, as nossas vontades e fazemos delas o nosso aconchego. 

O nosso lar recebe o nosso jeito e, lá fora, os outros jeitos não nos dizem nada. A grande barreira da vida é construir nosso lar sem influências do que os outros querem ver. Às vezes eu não vá utilizar muito aquela escada e uma casa de um só andar seja muito mais confortável. Sem dramas. Sejamos simples. Quero que José entre sem alarmes e acredite que aqui dentro pode ser um lugar mais bonito.