segunda-feira, setembro 22, 2014

EU NASCI ASSIM

“Mesmo que não fosse dona de vários pares de sapatos, era grata por ter um par para calçar os pés. E, mais, era grata por ter pés para andar descalça.” 



Não terminou os estudos e nem falara mais de um idioma. A mãe só tivera dinheiro para as prestações do carro, casa e supermercado. O pai falecera há doze anos. Filha única, metida a revolucionária. Sentara no bar e criticara a política do país. Não vestira saias, não usara maquiagem, não cruzara as pernas para se sentar. Pouco lhe importara agradar ou não aos demais. Irreverente, cabeça dura, não soubera cozinhar e as gírias das suas orações me confundiam. O que eu vira naquela mulher? 

Temia ter que dar satisfações, pegara o carro e andara sozinha pela madrugada, parecia não ter medo de nada, mas tivera. Tivera medo de se envolver, de não ser amada como a mãe não foi, de ser “assim” para sempre. Tivera sede de mudanças, queria renovar-se a todo instante, não permanecia com as mesmas opiniões por muito tempo. Nunca vi em seus olhos a vontade de ser melhor do que as outras pessoas, apenas a vontade de ser melhor do que ela mesma. Talvez fosse isso – a voz cansada, o brilho nos olhos, o mistério de ser quem era. 

Ao mesmo tempo que era debochada, envergonhava-se em me fitar na multidão. Quando os olhos se encontravam, ficara vermelha, atrapalhava-se, perdia-se no acanho de demonstrar seus instintos. Não conheci ainda alguém que a tenha desvendado melhor do que eu, e, muitas vezes, ela não se revelou. O que queria aquela mulher? 

Parecia não se importar com o resto do mundo. Ali, sentada em seu silêncio, observara a festa e as pessoas como alguém que não compreendia. Mas o que me deixara intrigado, era que ela não tivera vontade em compreender. Era como se no mundo dela não houvesse lugar para muitas pessoas, não existiam endereços e aposto em poucas lembranças. Quem tentara entrar, perdera pedaços no caminho; quem não tentara, ficara a desejar suas esquisitices. 

Quem era aquela mulher inconstante, desapaixonada, que os olhos mantinham-se avermelhados e o sorriso era tão divertido? Ah! Zézim! Ela era tão bonita! Não porque pesara 53 kg, cabelos longos e pele limpa. Não. Era bonita porque era. Porque não tinha a forma das outras, porque não queria ser igual, porque rejeitara meus afetos e se parecia tanto comigo! (Suspiros). Porque o abraço apertado era tão confortável! Tão imenso! Tão doce! E eu o queria... Eu queria aquele abraço só para mim...

Por tantas vezes tive a ilusão de que ela também o queria, mas não, Zézim. Ela não tivera donos, meu amigo. Era do mundo, do mundo dela. Do jeito dela. Com aquelas esquisitices e ideias mirabolantes, ela era a mulher que me roubou encantos e foi embora sem se despedir. Num ateliê de sonhos e com duas passagens em mãos, ela me deixou por momentos de alegria. 

Então, eu me pergunto, quem é que troca um amor por momentos? Como alguém pode ser tão cruel e largar tudo para viajar, sem deixar notícias? Sem cartões-postais? Sem nem ao menos uma mensagem na caixa postal... 

Zézim, eu já sei. Vais me dizer: “acorda, rapaz bobo! Ela não te amara”. As pessoas simplesmente não se interessam tanto às vezes, não é? Elas não têm a intenção de nos conquistar, não almejam casar-se e ter filhos, querem, sei lá, viver uma vida sem esperas. Elas não calculam o mal que nos causam. Não foi intencional, certo? Foi sem querer que ela me machucou. Fui eu, na realidade, que me deixei levar. Que acreditei em palavras que não eram promessas, que criei realidades, que sonhei tão alto... 

Mas, Zézim, quando é que vai chegar a pessoa que vai tirá-la daqui de dentro? Preciso esquecê-la, preciso deixá-la para lá e percorrer novos trajetos. Quero viver, amigo. Quero ser livre desses sentimentos ruins e manter-me leve. Quero ser ela. Quero ser aquela mulher que todos desejam, sem conhecê-la e que, nem eu, que convivi por vinte anos, a conheci. 

Quero voltar a ter quinze anos, Zézim. Quero rejeitar essa cobrança com espelhos e quero deixar meu amor ir, sem lágrimas. Quero ser forte como falam que aquela mulher é. – Zézim, eu quero sê-la. – E quero que, ao completar meu desejo, ela tenha orgulho de mim. Eu sei, Zézim... Eu sei... Sou menino bobo. Quem se importa com quem partiu o seu coração? É que, não sei, meu amigo. Eu acredito que um dia, cara-a-cara, ela resolva ficar. Por descuido ou poesia, ela talvez permaneça.