quinta-feira, dezembro 11, 2014

OUTRA VEZ É NATAL

"Eu estava perto dos dez anos de idade quando me deparei pela primeira vez com a injustiça. Diego, treze anos, forte e filho de papai rico, derrubou o lanche de Luan, oito anos, negro, filho do funcionário de pai de Diego, pisou em cima do sanduiche que a mãe de Luan preparara com todo o amor materno que se espera de uma mãe e, disse, “tempero especial pro nêguinho”. Me calei. Retornei da escola para a casa num total e misterioso silêncio. Mamãe insistia em saber o que acontecera comigo, e eu lhe repetia: “nada, nada”. No outro dia, sem hesitar, coloquei pimenta, muita pimenta, no sanduiche de Diego. Enquanto chorava ao lavar a boca que ardia, eu lhe disse: “tempero especial para o branco”. Na volta, meu sorriso era estonteante. Cheguei correndo para contar para o papai o meu ato de coragem e justiça, mas, de repente, a surpresa. Papai deu um tapa em minha mão e avisou: “Tome cuidado para não combater crueldade com crueldade.”."



Mas outra vez as pessoas se preparam para o Natal. E, cá estou eu, meu amigo, em mais um dezembro de reflexões. Ah! Meu mês do ano favorito! Seja pela união das famílias ou seja pelo tempo que encontro para retornar a casa nove, deitar no colo de minha mãe, pedir desculpas e conselhos. Eu venho a trilhar um caminho sem cores e me apetece demasiadamente enfeitar essa trajetória. Encontrei supina dificuldade para cultivar flores nessa estrada, mas o mar nos pede outra vez: paciência, paciência e paciência, o meu presente chegará. 

Conheci um rapaz. Ele é como você, meu amigo. Mesmos traços e mesmos defeitos: solidão. Olhar para ele é como enfrentar um espelho que reflete o meu passado e, me surpreender, eu perdi o controle. Eu finalmente entendi o que acontecera todas as vezes que você me ferira, não era falta de amor, era excesso de solidão. Você saía dos trilhos, dava-lhe as costas e, mesmo com o barulho do apito, não queria lhe dar a sua confissão. – Não se preocupe, não cometerei os seus erros. – Eu irei me confessar. 

O poeta nos disse que é impossível ser feliz sozinho. A felicidade só nos é completa quando podemos compartilhá-la com as pessoas que amamos. Mas para nós, que nos perdemos, só o que nos resta são estas cartas não endereçadas que se comunicam em segredos e dividem experiência, no entanto não suprem a falta de um abraço. Eu espero que tu estejas feliz e que, no seu caminho, não exista mais espaço para a solidão. 

O rapaz que eu conheci é cheio de discursos. Enquanto eu o escuto em seus discursos, não tão ensaiados, sobre política, me questiono onde fica a sua generosidade. Ele ainda não compreendeu que criticar os que estão lá em cima, não faz diferença quando não somos bons com os que nos rodeiam aqui em baixo... Afinal, nós bem sabemos, os pequenos atos que mudam o mundo começam por nós.

Ele também desvia a atenção dos dias mornos com analgésicos e músicas sem letras. Não sei se foge da própria solidão ou se, por algum motivo, tem fé de que sozinho haverá paz. Às vezes percebo que ele também está perdido e que, da vida, ele quer poucas coisas. Eu sei que você espera que eu conte, nesta carta, as palavras que eu doei ao rapaz sobre esperança, amor e futuro. Mas eu não o fiz. É que, preciso dar-lhe a minha confissão, eu me perdi. 

Já se passaram três anos e a vida é mais leve. Eu trilhei o meu caminho sem a sua presença, meu amigo. Eu escolhi ser só. Por mais que a minha alma suplique sair voando por aí, eu já me desacostumei com a companhia das outras pessoas. Elas chegam aqui, sentam no sofá, nós deixamos de lado os tabus sobre sexo e drogas, mas de amor – ah! De amor nós não falamos nada... 

A humanidade caminha para um futuro preto e branco. Todos os dias, quando acordamos, o telejornal nos traz as novas diretrizes: assaltos, crueldade e a depressão, o mal do século. Os jovens se encontram solitários todas as sextas-feiras em noitadas e são restritos em suas frases prontas do não-amor: “não quero namorar, amar é sofrer, ser solteiro é mais divertido”. Contudo, retornam às casas de número nove, sozinhos e com a sensação de tristeza. É por isso que eu ainda me encanto com as pessoas que fogem dos discursos prontos e têm a coragem de gritar aos quatro cantos o que elas desejam. Por isso que me desperta encanto estar ao lado de quem não usa máscaras.

É árduo se colocar em frente ao outro de alma limpa quando não se tem mais quinze anos e, por não ter mais quinze anos, somos assombrados com o medo de nos tornarmos ridículos, ao mesmo tempo que, quebramos todos os tabus do que antes era insegurança. Nós sabemos como são as pessoas e o preço que iremos pagar ao nos entregarmos a elas, mas já perdemos a noção da hora, pedimos outra bebida e a noite termina como todas as outras: sexo sem muita conversa, dividir corpos sem que aconteça algum encanto e, no outro dia, nem oi, nem ligações. 

Nós nos fechamos para o amor. E, meu amigo, que sentido há na vida se não tivermos alguém para amar? Nós cometemos todos os dias os mesmos erros, com as mesmas pessoas e aqui dentro só nos resta o mesmo vazio aberto há mais de vinte anos quando deixamos a barriga de nossas mães. – Deixei de ser dois, eu e minha mãe, e passei a ser um. O destino de todos nós...

Esse um que, apesar dos tropeços da vida, tenta semear as boas coisas que já aprendeu. Eu me perdi e já me confessei, meu amigo. Mas eu quero retornar aos trilhos, porque eu ainda acredito em tudo aquilo que eu lhe fiz acreditar. É preciso muito mais que dias monótonos e vidas secas, é preciso que, ao fim de nossas vidas, tenhamos fôlego para contar sobre os fôlegos perdidos com um amor – aquele amor – que desafia ao mesmo passo que nos fornece paz.

Eu preciso arrastar os móveis do lugar e preciso me divertir no sol. Eu necessito resgatar a criança que combatia a crueldade, que olhava as pessoas com o brilho nos olhos e que de amor... Ah! De amor falava pelos cotovelos! Porque é o amor que nos move. Tu te lembras? "Se eu não te amasse tanto assim, talvez não visse flores por onde eu vim e, vivesse só, na solidão...". Eu me recordo e cultivo flores. Eu preparei o meu coração para voar.