domingo, agosto 16, 2015

16 dias de 08 meses

"Have another little piece of my heart now, baby, hey 
You know you got it, child, if it makes you feel good!"

PIECE OF MY HEART, JANIS JOPLIN


LEMBRETE

"Deixar nas mãos do tempo e esperar que a ferida cure é um risco que corremos, às vezes necessário, noutras vezes, irremediável."



Era pós-carnaval e a última banda já havia passado por ali. Nas ruas restou apenas a sujeira dos blocos e o silêncio do final da festa. Mariana provavelmente não se recorda, mas esse foi o dia em que conheceu o seu bem-amado. A moça da cidade grande, acostumada a se interessar por homens de terno e gravata, apaixonou-se pelo sorriso do menino Leandro. Ah! Essa insistência do amor em surgir nos lugares em que menos se espera... 

Era estranhamente bonito a diferença entre os dois. Ela tinha toda a sua vida planejada, ele, no entanto, apreciara permitir que a vida lhe mostrasse os caminhos. Mariana preenchera os dias com as suas palavras, já Leandro se destacara por sua alegria e afeto. Eu costumo dizer que, enquanto a moça era o arroz, o menino era o feijão. 

Aquela foi a primeira vez em que Mariana se apaixonou por alguém que a tratara bem. Os outros não souberam enxergar as coisas boas que a moça trouxera em seu coração. Antes de Leandro, Mariana era o tipo de mulher que se interessara por homens que a destratavam. Tanto que demorou longos meses para perceber o quanto era confortável estar ao lado do menino. Ela se apaixonou gradualmente. E, inexplicavelmente, sentia-se como se fosse o seu primeiro amor. 

Tudo era novidade. A moça nunca havia recebido flores, nem convites para jantares, tampouco cartas. Leandro não se cansara de mimá-la. Pouco a pouco, ela deixou com que o menino entrasse e, aquela casa que antes era vazia, agora era cheia de flores. O menino plantou um jardim dentro de Mariana. 

O amor floresce. O amor não necessita de requisitos. Não importa se ela é magra ou se ele escuta Caetano. Quando o amor nos habita, sobreviveremos aos empecilhos do dia-a-dia, desde que durante a noite possamos abraçar a pessoa amada. Ah! Os abraços! Fortes, quentes e silenciosos... O resto do mundo desaparece quando estamos nos braços de quem amamos.

Mariana não consegue recordar-se do dia em que o conheceu, no entanto, não se esquece do dia em que percebeu que estava apaixonada: nos braços de Leandro, com a cabeça deitada em seu peito, ela percebeu que não desejara estar em outro lugar. Ela queria que aquele momento não terminasse. Ela queria morar dentro daquele abraço. 

segunda-feira, agosto 03, 2015

03 dias de 08 meses

"Você que inventou a tristeza... 
Ora! Tenha a fineza, 
de desinventar." 

 APESAR DE VOCÊ, CHICO BUARQUE


SEM SE DESPEDIR

"Analisou cuidadosamente a minha reação de espanto e perguntou: "Em que ovos você pensou que iria pisar?". "Não eram ovos", respondi. Eu imaginei flores e pontes sobre rios de tristezas. Sonhei em percorrer estradas frias enquanto o meu coração mantivera-se quente. Não queria ser atingida por essa falta de fé que contamina o mundo... O meu desejo era preencher as lacunas de outras pessoas. Nunca pensei em completar os meus próprios espaços. Creio que nunca fui egoísta e, se fui, então fui descuidada. Como eu estava dizendo, eu imaginei flores pelo caminho e quando comecei a caminhar, percebi que a minha missão era plantá-las. Esse é o erro: desejar um jardim sem colocar as mãos na terra."




Perdoe-me a demora, meu amigo. Há tempos que não lhe escrevo. Não por falta de palavras, pois tu bens sabes que elas me sobram. Mas por angustia. Ando demasiadamente rasa. Esperando que algo me preencha e me faça transbordar. Ah! Doce amigo! Eu sinto muito por ter me modificado tanto! E por essas mutações me afastarem de você... 

Tenho pensado muito sobre despedidas. Acredito que, no momento, elas me atormentam porque os velórios voltam a bater em minha porta. – O que é uma despedida? – Um abraço, um adeus, um eu te amo... – Que valor tem um breve momento de se despedir perto de uma vida inteira ao lado de alguém? As despedidas são desconsideráveis, meu amigo. O que importa é tudo o que fazemos enquanto vivemos ao lado das pessoas que nos são importante. 

A tortura se encontra no meu bloqueio de exteriorizar. Essa minha contradição sufocante em desejar algo e me privar por medo de correr na direção contrária, de fechar portas sem ao menos tentar passar por elas... 

Nós mudamos tanto, não é? Admiramos o desamor e todos aqueles que, silenciosamente, alimentam o medo de se entregar. O ego parece mais importante que transmitir bons sentimentos. Nós valorizamos a liberdade irreal de não nos prendermos e, como tolos, estamos sendo covardes. Eu não encontro sentido nas distâncias em que criamos. 

Eu só consigo imaginar uma vida onde você está perto, meu amigo. Nesses adágios, há ocasiões em que não trocamos uma sequer palavra e então compreendemos que o silêncio é capaz de uma comunicação finita. Talvez o nosso grande erro esteja em não calar. A dádiva da palavra é cultivá-la antes de jogá-la para fora. Eu sei que os nossos silêncios não estão cultivando frases, mas paralisando-as. 

Será que tu podes me enxergar? Será que tu sabes como a saudade não me abandona? Ah, meu amigo! Será que imaginas como o teu sorriso pode mudar o meu dia? Eu decidi que não irei me despedir. Embora a minha mente persevere na ideia de ir-me, meu corpo encontra-se imóvel, persistente em seus braços. 

Se tu soubesses todas as coisas que eu lhe desejo... Pena que essa roda vida não vai parar nessa estação. Pena que não é primavera. Pena que tu vais partir de novo... o meu coração. Só lhe peço a delicadeza de evitar as despedidas.

sábado, maio 02, 2015

02 dias de 05 meses



"Tristeza dá profundidade. 
 Felicidade te eleva. 

Tristeza dá raízes. 
 Felicidade dá ramos. 

A felicidade é como uma árvore indo para o céu, 
 e a tristeza é como as raízes indo para dentro do ventre da terra. 

Ambas são necessárias. 

Quanto maior a árvore vai, 
mais fundo vai, 
simultaneamente. 

 Quanto maior a árvore, 
maior serão suas raízes. 

Na verdade, é sempre proporcional. 

Esse é o seu equilíbrio." 

OSHO

A DOR DE NÃO SENTIR DOR

"Nos fizeram acreditar que a solidão é silenciosa, fria, insuportável e que, se seguirmos sozinhos, não chegaremos até o final da trajetória. Mentiram. A solidão abraça o calor do medo. O ser humano é perfeitamente capaz de se adaptar a qualquer situação. É possível concluir a trajetória de forma solitária, embora sem muitos sorrisos. E, dentro da solidão, há alguns sons: o vento encostando nas janelas, os estalos inexplicáveis dos móveis, a bola batendo no chão da rua enquanto as crianças brincam, os gritos de socorro e a respiração. Quase uma música.",




O tempo é incontestável. Ano a ano construímos novas pessoas, cidades, pensamentos e, consequentemente, novas gerações. É incrível a metamorfose do ser humano e de seus costumes. O senhor Shiw Sang, residente no continente situado no outro lado do mundo, pensou em algo, comentou com a senhora Lidjew Saíu, e, em alguns anos, uma massa inteira tomou a opinião daquele senhor e a lapidou, lindamente. As informações se aperfeiçoam, a tecnologia é cada vez mais surpreendente e, aparentemente, tudo é saudável. Então, sentada em minha velha cadeira, eu pergunto: O que esperar de uma geração que evita sofrer?

O consumo é cada vez maior. Existem analgésicos para a dor física na cabeça ou a figurada dor no coração. Remédios, drogas ilícitas, receitas médicas. Nós fazemos qualquer coisa para nos tornarmos mais inteligentes, fortes e felizes. Para onde foi toda a história piegas do homem frágil que se tornou forte, acordando cedo e fazendo a sua própria história? Agora vendem essa biografia no marketing do delicioso fast food, entretanto, é apenas marketing, não é? Tudo se tornou ficção.

Para a atual geração ser especial não é o bastante, é preciso ser mais que o outro. É proibido chorar e devemos rir com cautela. Há a necessidade de se demonstrar integralmente satisfeito com a vida diante às redes sociais. Contagiar amigos virtuais com publicações e conquistar fãs. É preciso ser mais que o outro. Alimentamos o ego e, sem perceber, desidratamos a alma. Então, ao deitar a cabeça no travesseiro, os pensamentos estão acelerados, não possuímos a vida que almejamos e a sociedade é injusta...

Ficção. A vida não é injusta. É a ingratidão que prevalece cada vez mais. Ser amado profundamente por seus pais ou por uma única pessoa parece insuficiente. Nós desejamos ser amplamente amados. Tolice! Ser amado uma vez na vida, mesmo que por um breve momento, é motivo para uma gratidão infinita.

A terceirização é explicita em todos os ramos da atual vida. Terceirizamos os afazeres domésticos, terceirizamos a culpa por chegarmos atrasados, terceirizamos até mesmo a educação das nossas crianças. A geração do “é só esquentar no micro-ondas” tem consciência de onde quer chegar, no entanto, vivem com pressa e não anseiam apreciar o caminho. Porque a felicidade se tornou fácil, não é? Tudo agora tem valor patrimonial. Agora nós vendemos músicas, filmes e compramos pequenas alegrias. “Business, baby. Tudo é business.”.

Sentimentos inconstantes são reflexos de atitudes inconstantes. Não queremos firmar raízes ou construir uma casinha como o João de Barro. A ambição é por um apartamento luxuoso que, de preferência, seja a beira-mar. Porém, não imaginamos este apartamento envelhecendo. E, quando acontece, nós apenas compramos um apartamento maior... Remédios, drogas, terapias e divórcios. Estamos evitando o envelhecer, as reformas e as dificuldades. Afinal, se persistirem os defeitos no produto, nós trocamos.

Há duas canções brasileiras que, em sua simplicidade, ensinam pelo menos vinte anos de experiência. “Maria, Maria” de Milton Nascimento e Fernando Brant e “Disparada” de Geraldo Vandré e Théo de Barros. Ambas descrevem a fortaleza da pessoa humana. Uma diz que é preciso ter força e raça, e, a outra, nos ensina a dizer “não”, a aceitar a morte sem chorar, pois, a morte, o destino e tudo, estão fora do alcance.

Prepare o seu coração, pras coisas que eu vou lhe contar: é preciso consertar o encanamento ao invés de simplesmente trocar a torneira, semelhante é o casamento, a profissão e os filhos. Plante a semente, cuide minuciosamente do seu plantio, colha os frutos e não se esqueça de ser grato e transmitir isso. Há três fases imprescindíveis na vida: ser boi, boiadeiro e rei. O boi obedece, o boiadeiro tenta dominar a boiada e o rei precisará fazer um bom reinado. E pode não lhe agradar...

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

23 dias de 02 meses



"Que as dificuldades que eu experimentar ao longo da jornada não me roubem a capacidade de encanto." 

ANA JÁCOMO

A FLOR DE DAVI

"Então, a voz que desaparecera há meses soou vagarosamente em meus ouvidos: “guarde no seu bolso”. Imediatamente coloquei as mãos no jeans velho que vestiam minhas pernas, nenhum bolso. Apenas o rasgado das linhas e a cor que desbotava. Mas nenhum bolso. Respirei. Fechei os olhos e pensei: Onde eu devo guardar esses segredos? Não são pecados, tampouco me arrependo de tê-los cometidos. Não quero escondê-los e nem aprisioná-los. Quero guardar. São lembranças que abastecem a minha alma e são delas que eu me reinvento todos os dias para levantar e seguir em frente. São esses pequenos segredos que formam o que eu sou. De repente, a voz insistiu: “Tem um bolso, em algum lugar, que guarda amores e saudades. Coisas que nem te lembras mais. Do primeiro passo aos dias de hoje. Um bolso que poderia carregar canetas, mas que carrega memórias.”. – Onde está o meu bolso?, insisti. – Ora, menina! Está em tudo que produz, em tudo o que tocas, nas pessoas que já encontrou. Na arte, no trabalho, numa conversa, num amigo que seguiu o teu conselho, no filho que gerou, em tudo que tu faz, diz e repassa. As coisas que tu produz, como a atitude de pedir desculpas ou agradecer, é o que fica quando nada mais existir."



Aliviada em aceitar as suas perdas, Margarida fez uma trança nos cabelos e resolveu caminhar pela cidade. Avistou as crianças brincando no parque e os jovens ciclistas apostando corrida. Não conseguiu fazer vista grossa ao caos da cidade, ao esgoto a céu aberto e nem ao trânsito que atravessara ruas. Mas, ali, em seus passos curtos, pôde escutar os barulhos silenciosos do desespero. – Ela percebeu, quase sem querer, que todos nós temos horários atrasados, empregos ruins, um resfriado não curado ou uma vontade imensa de sair correndo. E, mesmo que seja segredo, são esses importunos que fazem ser quem somos.

Você não conhece Margarida. Nome de flor, cabelos castanhos, sardas no rosto e olhos doces. Aparentemente uma mulher, aos seus trinta anos, feliz e com sede de vida. Aparentemente. Margarida era esquizofrênica. Escutara vozes, tivera visões e os pensamentos se perdiam em grandes abismos. Foi abandonada pelos pais, amigos, marido e filhos. As pessoas próximas não puderam mais suportar a aflição de vê-la partindo aos poucos e resolveram fugir da dor. Desistiram daquela mulher que perdera a serenidade e vivera aflita. No entanto, Margarida, que já não tivera mais a sã consciência de quem era, parecera não desistir de si própria. Ela confiou nos próprios passos e, ainda que solitários, continuou andando.

Todas as noites, mesmo com o incomodo das vozes, Margarida se ajoelhara e pedira a Deus para lhe mostrar o caminho. Mesmo com os pés cansados e a fraqueza do corpo, Margarida continuara a crer no impossível. Porque a fé é realmente isso: confiar que aquilo que esperamos irá acontecer, mesmo que em nossa frente nenhuma luz exista. – Então, a mais louca das mulheres, se ajoelhara todas as noites, pedindo o zelo de quem a criou.

Certo dia, desapontada com o carteiro que não passara pela rua, ela resolveu escrever cartas e deixar na caixa de correspondências de seus vizinhos. Em realidade, as cartas de Margarida eram bilhetes. Todos com mensagens de esperança. Ao final, ela assinara seus escritos como “Flor” e pedira que, cuidadosamente, alguém pudesse lhe regar.

Alguns vizinhos rasgaram os bilhetes, outros nem sequer abriram, houveram aqueles que leram e não se importaram, mas também houve quem se encheu do anseio de ter esperança. Ao ler a mensagem de fé, contida no bilhete, o jovem Davi resolveu procurar o autor.

Davi era um jovem rapaz de quatorze anos. Não tinha amigos, pois era taxado de “estranho” pelos colegas da escola. Os pais trabalhavam tanto que não conseguiam perceber a tristeza do garoto. Numa quarta-feira, sua mãe voltou do trabalho e encontrou a casa silenciosa, chamou por Davi que não respondeu, e foi direto a cozinha preparar o jantar como fizera todas as noites. Quando o jantar finalmente começara a cheirar bem, sua mãe subiu as escadas, atravessou o corredor e abriu a porta do quarto. Davi estava caído ao chão. Aos quatorze anos o menino se enchera de remédios na tentativa de cessar o vazio.

Após o ocorrido, os pais de Davi não lhe tiravam mais os olhos. Insistiam que o garoto praticasse esportes, fizesse aulas de outros idiomas, frequentasse o grupo de jovens da igreja. Mas, amor, eles não sabiam dar. Há pais e mães que simplesmente não sabem exteriorizar o amor que sentem pelos seus, não sabem dialogar e tampouco passar um tempo. Era o caso dos pais de Davi que não sabiam enxergar como o menino só precisara de uma direção.

Antes de odiar os pais de Davi – ou qualquer outra pessoa –  é importante que você o saiba: Antes do ódio é necessário tentar compreender. Compreender os motivos daquelas pessoas, como foram criadas ou como são as suas rotinas. – Não é que os pais do garoto não o amassem, eles o amam. Mas esses pais que levam cinquenta anos de idade em suas marcas, foram criados em épocas distintas, épocas em que o amor existia mas não era demonstrado.

Quando recebeu o bilhete, Davi quis imediatamente ir atrás de quem lhe escreveu. No final de sua esperança havia a vontade enorme de possuir um amigo e, inocentemente, ele acreditou que alguém o observara e gostaria de fazer amizade.  – Para ele, o bilhete era único e premeditado.  – No entanto, o rapaz se conteve. Esperou outro bilhete por dias e mais dias. Até que, durante o culto, o pastor recitou: “dê o primeiro passo”. E ele foi atrás do seu novo amigo.

O bairro era pequeno mas as buscas duraram meses. Fizera uma lista com os nomes de todas as possíveis pessoas, roubara cartas para comparar as letras, chegara a sair batendo de porta em porta para perguntar: “De quem é este bilhete?”.

Já cansado de investigar a vizinhança, Davi sentou na porta de sua casa e pediu com fé para encontrar o seu amigo. De repente, a esquizofrênica Margarida começou a correr pela rua e gritar desesperadamente por ajuda. Davi, sem saber o que fazer, ligou para a polícia. Quando acalmados os nervos de Margarida, Davi se aproximou e ela implorou: “Me dê um pouco de água”. Subitamente o menino se lembrou da flor e de como gostaria de regá-la. De imediato a questionou sobre o bilhete e Margaria apenas lhe sorriu. Aquele sorriso selou uma amizade.

Margarida e Davi se aproximaram. No começo ele tivera um pouco de receio, mas aos poucos aquela senhora de trinta anos foi lhe ganhando o coração. Ele pensara que, ainda que louca, gostaria que sua mãe fosse tão sua amiga quanto Margarida. E, num gesto de bondade, pediu aos seus pais que pagassem o tratamento da mulher.

Davi zelara para que a amiga tomasse os remédios com pontualidade. De pouquinho em pouquinho, a cada novo dia, Margarida se curara dos tormentos. Era um milagre que acontecia aos poucos. Era tão devagar que as pessoas quase não percebiam a beleza daquela cura. O impossível aconteceu por intermédio de duas pessoas – por meio de uma amizade. 

É claro que os dois frequentaram médicos, mas nenhum conseguiria ir em frente se não fosse a mão estendida do outro. Todos os dias conversavam e, no meio das conversas, pareciam receber recados de Deus. – Eu realmente acredito que Deus está nas pessoas. Em cada gesto, em cada palavra. Ele age por meio delas.

Deus não pode vir diretamente e falar tudo o que precisamos escutar, então aos poucos ele coloca pessoas em nossas vidas que, a cada novo dia, trazem um novo recado d'Ele. Repito: Deus age por meio das pessoas que nos rodeiam. Margarida, já curada e livre das suas costas cansadas, resolveu caminhar pela cidade. Descobriu avistando a impaciência das pessoas que se dirigiam aos seus empregos que, todos nós, temos alguma coisa para contar. Às vezes, nós só precisamos sentar e ouvir.

domingo, fevereiro 08, 2015

08 dias de 02 meses


"O mundo estará cheio do sentimento que você repassar.".

CARTA ANTES DO CASAMENTO

“Quando recebi a proposta, pensei: “tornar o meu livro em um filme?”. Não, não mesmo. Algumas semanas após a renúncia, repensei. Escrever um livro sempre foi um grande sonho, torná-lo um filme foi uma oportunidade. Acredito que a vida seja feita dessas duas coisas: grandes sonhos e oportunidades. E eu seria um idiota se desperdiçasse a segunda.”




"Assisti em filmes, li em livros e escutei em casamentos onde de praxe a noiva ou noivo recita ao parceiro: “Antes de lhe conhecer eu não soubera o que era amor”. Apesar de poético, não posso lhe pronunciar as mesmas palavras. Eu já conhecia o amor quando lhe encontrei. Nós nos deparamos com o amor desde muito cedo: ao nascer, quando as nossas mães nos seguram nos braços, temos o primeiro contato. É certo que não nos recordamos, no entanto naquele dia nós aprendemos a amar.

Sentir é fácil. Centenas de pessoas passaram em minha rua e poucas delas me fizeram sentir. Mas, ah! As que, sem pedir licença ou permissão, por descuido sentaram no banco marrom daquela rua, e, quando as vi, sem qualquer motivo, eu as amei... Por essas pessoas foi fácil sentir. Talvez o acaso nos faça amar ou talvez seja o contato, não sei, sei apenas que é sem causas. De repente, nós sentimos e, descuidando-se, nós amamos.

Saber sobre o amor é fácil. Nós o observamos todos os dias – nas pessoas que sorriem, nas pessoas que praticam boas ações, nas plantas que florescem, nos nossos avós, nos livros e filmes, e entre amigos. Não precisa ser um mestre ou cultuar volumes para saber o que é o amor, e o que nós queremos dele. Também não é necessário dominar línguas, ou estudar o assunto, para termos noção do desamor e das suas consequências e dores.

Perceber o erro é fácil. Os pais que brigam, as famílias que se separam, as plantas que secam, os amigos que passam anos sem encontrar, os enterros silenciosos e solitários. Não é difícil perceber que falta algo. Talvez essas pessoas tenham errado a receita e eu perduro firmemente para conseguir todos os ingredientes e, enfim, nós dois possamos “dar certo”. Fazer o correto torna-se amedrontador quando nós, apesar de sabermos tantas coisas, não podemos prever o futuro. Então, estive pensando... Meu amor, o que é que falta?

Nós sabemos o que é, nós o sentimos, estamos aqui – então, o que é? Estive pensando... pensando... pensando... Por fim, me lembrei do dia em que você me pediu em namoro. Uma súbita alegria me tomou, fui aos céus e voei escutando as suas doces palavras “eu lhe amo, eu lhe amo, eu amo”. E, subitamente, eu estava com os pés no chão, tomada pela realidade da distância. “Namorar à distância é doloroso, complicado, difícil, ruim... Pode não, abre aspas, dar certo, fecha aspas.”. Ao que você respondeu: “Depende de nós.”.

Depende de nós. Nós sabemos o que é, nós o sentimos, estamos aqui e o grande segredo é transformar. O erro daqueles pais que brigam é, apesar de sentir e saber o que é, não transformar. Não praticar. Deixam os dias tortuosos alcançar as suas casas, quando sentam a mesa não há diálogo, transmitem a raiva dos problemas financeiros aos filhos e estão habitualmente colocando a culpa no outro. Não sabem se desculpar e acabou a gentileza. Eles sabem o que é, o sentem, mas não exercitam.

É necessário descobrir o que nós queremos de nossas relações e desvendar o caminho para alcançar. Sabemos o que é, sentimos e precisamos transformar isso. Há caminhos – respeitar, conter a raiva, pedir desculpas por não nos conter, educar os filhos à mesa e demonstrar. Eu quero ter uma família com você, onde os filhos amam os pais e os pais amam os filhos, mas, para isso, não basta saber o que é o amor, ou sentir, é preciso praticar. Para conseguir uma vida feliz ao seu lado eu devo, antes de amar, exercitar o que sei – não apenas do amor – mas de todas as coisas.

Repensei: não depende de nós, depende de mim. Eu sei o que eu quero para nós e vou caminhar até isso, assim, de forma espontânea, você e todas as coisas serão transformadas pelas minhas atitudes. E vice-versa. – As nossas ações serão repassadas, isto é, continuadas. Modificando o que há ao nosso redor. – Eu transformo um pouquinho, você transforma um pouquinho e vai dar certo. Amor – já é desde abril, a partir de hoje será casamento. Então... meu amor... podemos começar de mãos dadas?”

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

02 dias de 02 meses


"(...) Ain't no people on the old dirt road,
No more weather on the old dirt road...

 Keep on keeping on.
Keep on keeping on. 
So long, so long... 
Bye bye."

A VIDA CONTINUA

"Com as mãos cheirando à alho e as maçãs do rosto úmidas pelo rastro das lágrimas, a moça se perguntara incansavelmente: “Para onde irá o amor quando há a separação?”. Ah, menina! Deve haver algum lugar onde o amor é preso. Uma caixinha ou uma gaveta. Algo mágico que o faz desaparecer, sem mapas misteriosos ou dicas em tabuleiros. Aqui, ali e em todos os lugares, há de existir algum lugar para onde vai o amor quando os corpos se separam.".




Vez ou outra, encontramos estampado em um outdoor ou destacado em um livro: “a vida continua”, e, apesar da indicação, às vezes somos pegos de surpresa – a vida não se interrompeu, ela prosseguiu. “Eu sobrevivi!” – é uma frase reconfortante e dela vem a crença de que a partir de agora tudo será bom. Talvez o que ninguém nos explicou é que a vida continua, no entanto o vazio dentro do peito persiste. Ele desaparece, volta, some, ressurge... Ele nos revela: Estamos vivos, mas não tão vivos assim. 

A maioria das pessoas acredita que estar vivo é acordar todas as manhãs, ir para o trabalho, voltar para a casa, cumprir as nossas metas. Nos fizeram acreditar que se nós tentássemos, hora ou outra, nos acostumaríamos e isso seria o mais perto da tão estimada vida perfeita. Então um ponto importante: você vive ou se acostuma? Nós nos sentimos confortáveis com os nossos empregos, a escolhida faculdade e o parceiro inteligente, porém ao encostarmos a cabeça no travesseiro, é impossível fugir do vazio no peito que nós evitamos durante o dia. 

Nós continuamos as nossas vidas evitando discutir as nossas insatisfações. Perdemos um amor e continuamos vivendo, e continuamos amando. Não há um intervalo para deixar de amar ou resolver os nossos problemas. Aquele sonho que não realizamos? O tempo passou, mas o sonho não se desfez, ele agora faz parte das coisas que nós evitamos pensar. – A vida continua e nessa da vida continuar, se não lutarmos pelas nossas paixões, nós nos tornarmos um mar sem ondas. Funciona como um coma – nós continuamos respirando, através de aparelhos, sobretudo, imóveis. 

É possível estarmos cheios de esperança e, ainda assim, parados. Ter paixões escondidas, arrependimentos que nos sufocam, grandes saudades e tristezas, mas não fazermos nada a respeito. Deixar nas mãos do tempo e esperar que a ferida cure é um risco que corremos, às vezes necessário, noutras vezes, irremediável. – Muitas pessoas já nos disseram que nós não podemos ter tudo o que desejamos, mas eu acredito que nós podemos fazer algo por tudo o que desejamos. – Não se trata de conseguir, trata-se de tentar. São as tentativas que fazem nos sentir mais vivos! 

Eu tenho prestado demasiada atenção em pessoas que viveram quarenta, cinquenta, sessenta anos e, em suas faces, carregam a expressão do inacabado, do não vivido. Há um senhor que me confessou nunca ter realizado o tão sonhado “rolê pela Europa”. Entusiasmada com a gíria, eu o questionei: “E por que não o fez?” ao que ele me respondeu: “Eu me acostumei”. Esse senhor cursou mestrado, tem esposa, quatro filhos e completou: “Por sorte eu tive uma trajetória alegre”. – Se tivermos sorte... 

“A vida continua” são três palavras que consolam quando tudo parece se perder. Porquanto há ressalvas: a vida continua, mas temos que tomar o cuidado para que ela seja bonita. Não conte com a sorte para continuar. Viva! Certifique-se de que viver seja pontuado com uma exclamação. – Às vezes um simples “oi” basta. “Oi, vida!”.