segunda-feira, fevereiro 23, 2015

23 dias de 02 meses



"Que as dificuldades que eu experimentar ao longo da jornada não me roubem a capacidade de encanto." 

ANA JÁCOMO

A FLOR DE DAVI

"Então, a voz que desaparecera há meses, soou vagarosamente em meus ouvidos: “guarde no seu bolso”. Imediatamente coloquei as mãos no jeans velho que vestiam minhas pernas, nenhum bolso. Apenas o rasgado das linhas e a cor que desbotava. Mas nenhum bolso. Respirei. Fechei os olhos e pensei: Onde eu devo guardar esses segredos? Não são pecados, tampouco me arrependo de tê-los cometidos. Não quero escondê-los e nem aprisioná-los. Quero guardar. São lembranças que abastecem a minha alma e são delas que eu me reinvento todos os dias para levantar e seguir em frente. São esses pequenos segredos que formam o que eu sou. De repente, a voz insistiu: “Tem um bolso, em algum lugar, que guarda amores e saudades. Coisas que nem te lembras mais. Do primeiro passo aos dias de hoje. Um bolso que poderia carregar canetas, mas que carrega memórias.”. – Onde está o meu bolso?, insisti. – Ora, menina! Está em tudo que produz, em tudo o que tocas, nas pessoas que já encontrou. Na arte, no trabalho, numa conversa, num amigo que seguiu o teu conselho, no filho que gerou, em tudo que tu faz, diz e repassa. As coisas que tu produz, como a atitude de pedir desculpas ou agradecer, é o que fica quando nada mais existir."



Aliviada em aceitar as suas perdas, Margarida fez uma trança nos cabelos e resolveu caminhar pela cidade. Avistou as crianças brincando no parque e os jovens ciclistas apostando corrida. Não conseguiu fazer vista grossa ao caos da cidade, ao esgoto a céu aberto e nem ao trânsito que atravessara ruas. Mas, ali, em seus passos curtos, pôde escutar os barulhos silenciosos do desespero. – Ela percebeu, quase sem querer, que todos nós temos horários atrasados, empregos ruins, um resfriado não curado ou uma vontade imensa de sair correndo. E, mesmo que seja segredo, são esses importunos que fazem ser quem somos.

Você não conhece Margarida. Nome de flor, cabelos castanhos, sardas no rosto e olhos doces. Aparentemente uma mulher, aos seus trinta anos, feliz e com sede de vida. Aparentemente. Margarida era esquizofrênica. Escutara vozes, tivera visões e os pensamentos se perdiam em grandes abismos. Foi abandonada pelos pais, amigos, marido e filhos. As pessoas próximas não puderam mais suportar a aflição de vê-la partindo aos poucos e resolveram fugir da dor. Desistiram daquela mulher que perdera a serenidade e vivera aflita. No entanto, Margarida, que já não tivera mais a sã consciência de quem era, parecera não desistir de si própria. Ela confiou nos próprios passos, e, ainda que solitários, continuou andando.

Todas as noites, mesmo com o incomodo das vozes, Margarida se ajoelhara e pedira a Deus para lhe mostrar o caminho. Mesmo com os pés cansados e a fraqueza do corpo, Margarida continuara e crer no impossível. Porque a fé é realmente isso: confiar que aquilo que esperamos irá acontecer, mesmo que em nossa frente nenhuma luz exista. – Então, a mais louca das mulheres, se ajoelhara todas as noites, pedindo o zelo de quem a criou. Certo dia, desapontada com o carteiro que não passara pela rua, ela resolveu escrever cartas e deixar na caixa de correspondências de seus vizinhos. Em realidade, as cartas de Margarida eram bilhetes. Todos com mensagens de esperança. Ao final, ela assinara seus escritos como “Flor” e pedira que, cuidadosamente, alguém pudesse lhe regar.

Alguns vizinhos rasgaram os bilhetes, outros nem sequer abriram, houveram aqueles que leram e não se importaram, mas também houve quem se encheu do anseio de ter esperança. Ao ler a mensagem de fé, contida no bilhete, o jovem Davi resolveu procurar o autor.

Davi era um jovem rapaz de quatorze anos. Não tinha amigos, pois era taxado de “estranho” pelos colegas da escola. Os pais trabalhavam tanto que não conseguiam perceber a tristeza do garoto. Numa quarta-feira, sua mãe voltou do trabalho e encontrou a casa silenciosa, chamou por Davi, que não respondeu e foi direto a cozinha preparar o jantar como fizera todas as noites. Quando o jantar finalmente começara a cheirar bem, sua mãe subiu as escadas, atravessou o corredor e abriu a porta do quarto. Davi estava caído ao chão. Aos quatorze anos o menino se enchera de remédios na tentativa de cessar o vazio.

Após o ocorrido, os pais da Davi não lhe tiravam mais os olhos. Insistiam que o garoto praticasse esportes, fizesse aulas de outros idiomas, frequentasse o grupo de jovens da igreja. Mas, amor, eles não sabiam dar. Há pais e mães que simplesmente não sabem exteriorizar o amor que sentem pelos seus, não sabem dialogar e nem tampouco passar um tempo. Era o caso dos pais de Davi que não sabiam enxergar como o menino só precisara de uma direção.

Antes de odiar os pais de Davi – ou qualquer outra pessoa –  é importante que você o saiba: Antes do ódio é necessário tentar compreender. Compreender os motivos daquelas pessoas, como foram criadas ou como são as suas rotinas. – Não é que os pais do garoto não o amassem, eles o amam. Mas esses pais que levam cinquenta anos de idade em suas marcas, foram criados em épocas distintas, épocas em que o amor existia mas não era demonstrado.

Quando recebeu o bilhete, Davi quis imediatamente ir atrás de quem lhe escreveu. No final de sua esperança havia a vontade enorme de possuir um amigo e, inocentemente, ele acreditou que alguém o observara e gostaria de fazer amizade.  – Para ele, o bilhete era único e premeditado.  – No entanto, o rapaz se conteve. Esperou outro bilhete por dias e mais dias. Até que, durante o culto, o pastor recitou: “dê o primeiro passo”. E ele foi atrás do seu novo amigo.

O bairro era pequeno mas as buscas duraram meses. Fizera uma lista com os nomes de todas as possíveis pessoas, roubara cartas para comparar as letras, chegara a sair batendo de porta em porta para perguntar: “De quem é este bilhete?”.

Já cansado de investigar a vizinhança, Davi sentou na porta de sua casa e pediu com fé para encontrar o seu amigo. De repente, a esquizofrênica Margarida começou a correr pela rua e gritar desesperadamente por ajuda. Davi, sem saber o que fazer, ligou para a polícia. Quando acalmados os nervos de Margarida, Davi se aproximou e ela implorou: “Me dê um pouco de água”. Subitamente o menino se lembrou da flor e de como gostaria de regá-la. De imediato a questionou sobre o bilhete e Margaria apenas lhe sorriu. Aquele sorriso selou uma amizade.

Margarida e Davi se aproximaram. No começo ele tivera um pouco de receio, mas aos pouco aquela senhora de trinta anos foi lhe ganhando o coração. Ele pensara que, ainda que louca, gostaria que sua mãe fosse tão sua amiga quanto Margarida. E, num gesto de bondade, pediu aos seus pais que pagassem o tratamento da mulher.

Davi zelara para que a amiga tomasse os remédios com pontualidade. De pouquinho em pouquinho, a cada novo dia, Margarida se curara dos tormentos. Era um milagre que acontecia aos poucos. Era tão devagar que as pessoas quase não percebiam a beleza daquela cura. O impossível aconteceu por intermédio de duas pessoas – por meio de uma amizade. O que Davi e Margarida precisavam era apenas de um amigo, alguns sorrisos e alguém para lhes escutar.

É claro que os dois frequentaram médicos, mas nenhum conseguiria ir em frente se não fosse a mão estendida do outro. Todos os dias conversavam e, no meio das conversas, pareciam receber recados de Deus. – Eu realmente acredito que Deus está nas pessoas. Em cada gesto, em cada palavra. Ele age por meio delas.

Deus não pode vir diretamente e falar tudo o que precisamos escutar, então aos poucos ele coloca pessoas em nossas vidas que, a cada novo dia, trazem um novo recado d'Ele. Repito: Deus age por meio das pessoas que nos rodeiam. Margarida, já curada e livre das suas costas cansadas, resolveu caminhar pela cidade. Descobriu avistando a impaciência das pessoas que se dirigiam aos seus empregos que, todos nós, temos alguma coisa para contar. Às vezes, nós só precisamos sentar e ouvir.

domingo, fevereiro 08, 2015

08 dias de 02 meses


"O mundo estará cheio do sentimento que você repassar.".

CARTA ANTES DO CASAMENTO

“Quando recebi a proposta, pensei: “tornar o meu livro em um filme?”. Não, não mesmo. Algumas semanas após a renúncia, repensei. Escrever um livro sempre foi um grande sonho, torná-lo um filme foi uma oportunidade. Acredito que a vida seja feita dessas duas coisas: grandes sonhos e oportunidades. E eu seria um idiota se desperdiçasse a segunda.”




"Assisti em filmes, li em livros e escutei em casamentos onde de praxe a noiva ou noivo recita ao parceiro: “Antes de lhe conhecer eu não soubera o que era amor”. Apesar de poético, não posso lhe pronunciar as mesmas palavras. Eu já conhecia o amor quando lhe encontrei. Nós nos deparamos com o amor desde muito cedo: ao nascer, quando as nossas mães nos seguram nos braços, temos o primeiro contato. É certo que não nos recordamos, no entanto naquele dia nós aprendemos a amar.

Sentir é fácil. Centenas de pessoas passaram em minha rua e poucas delas me fizeram sentir. Mas, ah! As que, sem pedir licença ou permissão, por descuido sentaram no banco marrom daquela rua, e, quando as vi, sem qualquer motivo, eu as amei... Por essas pessoas foi fácil sentir. Talvez o acaso nos faça amar ou talvez seja o contato, não sei, sei apenas que é sem causas. De repente, nós sentimos e, descuidando-se, nós amamos.

Saber sobre o amor é fácil. Nós o observamos todos os dias – nas pessoas que sorriem, nas pessoas que praticam boas ações, nas plantas que florescem, nos nossos avós, nos livros e filmes, e entre amigos. Não precisa ser um mestre ou cultuar volumes para saber o que é o amor, e o que nós queremos dele. Também não é necessário dominar línguas, ou estudar o assunto, para termos noção do desamor e das suas consequências e dores.

Perceber o erro é fácil. Os pais que brigam, as famílias que se separam, as plantas que secam, os amigos que passam anos sem encontrar, os enterros silenciosos e solitários. Não é difícil perceber que falta algo. Talvez essas pessoas tenham errado a receita e eu perduro firmemente para conseguir todos os ingredientes e, enfim, nós dois possamos “dar certo”. Fazer o correto torna-se amedrontador quando nós, apesar de sabermos tantas coisas, não podemos prever o futuro. Então, estive pensando... Meu amor, o que é que falta?

Nós sabemos o que é, nós o sentimos, estamos aqui – então, o que é? Estive pensando... pensando... pensando... Por fim, me lembrei do dia em que você me pediu em namoro. Uma súbita alegria me tomou, fui aos céus e voei escutando as suas doces palavras “eu lhe amo, eu lhe amo, eu amo”. E, subitamente, eu estava com os pés no chão, tomada pela realidade da distância. “Namorar à distância é doloroso, complicado, difícil, ruim... Pode não, abre aspas, dar certo, fecha aspas.”. Ao que você respondeu: “Depende de nós.”.

Depende de nós. Nós sabemos o que é, nós o sentimos, estamos aqui e o grande segredo é transformar. O erro daqueles pais que brigam é, apesar de sentir e saber o que é, não transformar. Não praticar. Deixam os dias tortuosos alcançar as suas casas, quando sentam a mesa não há diálogo, transmitem a raiva dos problemas financeiros aos filhos e estão habitualmente colocando a culpa no outro. Não sabem se desculpar e acabou a gentileza. Eles sabem o que é, o sentem, mas não exercitam.

É necessário descobrir o que nós queremos de nossas relações e desvendar o caminho para alcançar. Sabemos o que é, sentimos e precisamos transformar isso. Há caminhos – respeitar, conter a raiva, pedir desculpas por não nos conter, educar os filhos à mesa e demonstrar. Eu quero ter uma família com você, onde os filhos amam os pais e os pais amam os filhos, mas, para isso, não basta saber o que é o amor, ou sentir, é preciso praticar. Para conseguir uma vida feliz ao seu lado eu devo, antes de amar, exercitar o que sei – não apenas do amor – mas de todas as coisas.

Repensei: não depende de nós, depende de mim. Eu sei o que eu quero para nós e vou caminhar até isso, assim, de forma espontânea, você e todas as coisas serão transformadas pelas minhas atitudes. E vice-versa. – As nossas ações serão repassadas, isto é, continuadas. Modificando o que há ao nosso redor. – Eu transformo um pouquinho, você transforma um pouquinho e vai dar certo. Amor – já é desde abril, a partir de hoje será casamento. Então... meu amor... podemos começar de mãos dadas?”

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

02 dias de 02 meses


"(...) Ain't no people on the old dirt road,
No more weather on the old dirt road...

 Keep on keeping on.
Keep on keeping on. 
So long, so long... 
Bye bye."

A VIDA CONTINUA

"Com as mãos cheirando à alho e as maçãs do rosto úmidas pelo rastro das lágrimas, a moça se perguntara incansavelmente: “Para onde irá o amor quando há a separação?”. Ah, menina! Deve haver algum lugar onde o amor é preso. Uma caixinha ou uma gaveta. Algo mágico que o faz desaparecer, sem mapas misteriosos ou dicas em tabuleiros. Aqui, ali e em todos os lugares, há de existir algum lugar para onde vai o amor quando os corpos se separam.".




Vez ou outra, encontramos estampado em um outdoor ou destacado em um livro: “a vida continua”, e, apesar da indicação, às vezes somos pegos de surpresa – a vida não se interrompeu, ela prosseguiu. “Eu sobrevivi!” – é uma frase reconfortante e dela vem a crença de que a partir de agora tudo será bom. Talvez o que ninguém nos explicou é que a vida continua, no entanto o vazio dentro do peito persiste. Ele desaparece, volta, some, ressurge... Ele nos revela: Estamos vivos, mas não tão vivos assim. 

A maioria das pessoas acredita que estar vivo é acordar todas as manhãs, ir para o trabalho, voltar para a casa, cumprir as nossas metas. Nos fizeram acreditar que se nós tentássemos, hora ou outra, nos acostumaríamos e isso seria o mais perto da tão estimada vida perfeita. Então um ponto importante: você vive ou se acostuma? Nós nos sentimos confortáveis com os nossos empregos, a escolhida faculdade e o parceiro inteligente, porém ao encostarmos a cabeça no travesseiro, é impossível fugir do vazio no peito que nós evitamos durante o dia. 

Nós continuamos as nossas vidas evitando discutir as nossas insatisfações. Perdemos um amor e continuamos vivendo, e continuamos amando. Não há um intervalo para deixar de amar ou resolver os nossos problemas. Aquele sonho que não realizamos? O tempo passou, mas o sonho não se desfez, ele agora faz parte das coisas que nós evitamos pensar. – A vida continua e nessa da vida continuar, se não lutarmos pelas nossas paixões, nós nos tornarmos um mar sem ondas. Funciona como um coma – nós continuamos respirando, através de aparelhos, sobretudo, imóveis. 

É possível estarmos cheios de esperança e, ainda assim, parados. Ter paixões escondidas, arrependimentos que nos sufocam, grandes saudades e tristezas, mas não fazermos nada a respeito. Deixar nas mãos do tempo e esperar que a ferida cure é um risco que corremos, às vezes necessário, noutras vezes, irremediável. – Muitas pessoas já nos disseram que nós não podemos ter tudo o que desejamos, mas eu acredito que nós podemos fazer algo por tudo o que desejamos. – Não se trata de conseguir, trata-se de tentar. São as tentativas que fazem nos sentir mais vivos! 

Eu tenho prestado demasiada atenção em pessoas que viveram quarenta, cinquenta, sessenta anos e, em suas faces, carregam a expressão do inacabado, do não vivido. Há um senhor que me confessou nunca ter realizado o tão sonhado “rolê pela Europa”. Entusiasmada com a gíria, eu o questionei: “E por que não o fez?” ao que ele me respondeu: “Eu me acostumei”. Esse senhor cursou mestrado, tem esposa, quatro filhos e completou: “Por sorte eu tive uma trajetória alegre”. – Se tivermos sorte... 

“A vida continua” são três palavras que consolam quando tudo parece se perder. Porquanto há ressalvas: a vida continua, mas temos que tomar o cuidado para que ela seja bonita. Não conte com a sorte para continuar. Viva! Certifique-se de que viver seja pontuado com uma exclamação. – Às vezes um simples “oi” basta. “Oi, vida!”.