domingo, fevereiro 08, 2015

CARTA ANTES DO CASAMENTO

“Quando recebi a proposta, pensei: “tornar o meu livro em um filme?”. Não, não mesmo. Algumas semanas após a renúncia, repensei. Escrever um livro sempre foi um grande sonho, torná-lo um filme foi uma oportunidade. Acredito que a vida seja feita dessas duas coisas: grandes sonhos e oportunidades. E eu seria um idiota se desperdiçasse a segunda.”




"Assisti em filmes, li em livros e escutei em casamentos onde de praxe a noiva ou noivo recita ao parceiro: “Antes de lhe conhecer eu não soubera o que era amor”. Apesar de poético, não posso lhe pronunciar as mesmas palavras. Eu já conhecia o amor quando lhe encontrei. Nós nos deparamos com o amor desde muito cedo: ao nascer, quando as nossas mães nos seguram nos braços, temos o primeiro contato. É certo que não nos recordamos, no entanto naquele dia nós aprendemos a amar.

Sentir é fácil. Centenas de pessoas passaram em minha rua e poucas delas me fizeram sentir. Mas, ah! As que, sem pedir licença ou permissão, por descuido sentaram no banco marrom daquela rua, e, quando as vi, sem qualquer motivo, eu as amei... Por essas pessoas foi fácil sentir. Talvez o acaso nos faça amar ou talvez seja o contato, não sei, sei apenas que é sem causas. De repente, nós sentimos e, descuidando-se, nós amamos.

Saber sobre o amor é fácil. Nós o observamos todos os dias – nas pessoas que sorriem, nas pessoas que praticam boas ações, nas plantas que florescem, nos nossos avós, nos livros e filmes, e entre amigos. Não precisa ser um mestre ou cultuar volumes para saber o que é o amor, e o que nós queremos dele. Também não é necessário dominar línguas, ou estudar o assunto, para termos noção do desamor e das suas consequências e dores.

Perceber o erro é fácil. Os pais que brigam, as famílias que se separam, as plantas que secam, os amigos que passam anos sem encontrar, os enterros silenciosos e solitários. Não é difícil perceber que falta algo. Talvez essas pessoas tenham errado a receita e eu perduro firmemente para conseguir todos os ingredientes e, enfim, nós dois possamos “dar certo”. Fazer o correto torna-se amedrontador quando nós, apesar de sabermos tantas coisas, não podemos prever o futuro. Então, estive pensando... Meu amor, o que é que falta?

Nós sabemos o que é, nós o sentimos, estamos aqui – então, o que é? Estive pensando... pensando... pensando... Por fim, me lembrei do dia em que você me pediu em namoro. Uma súbita alegria me tomou, fui aos céus e voei escutando as suas doces palavras “eu lhe amo, eu lhe amo, eu amo”. E, subitamente, eu estava com os pés no chão, tomada pela realidade da distância. “Namorar à distância é doloroso, complicado, difícil, ruim... Pode não, abre aspas, dar certo, fecha aspas.”. Ao que você respondeu: “Depende de nós.”.

Depende de nós. Nós sabemos o que é, nós o sentimos, estamos aqui e o grande segredo é transformar. O erro daqueles pais que brigam é, apesar de sentir e saber o que é, não transformar. Não praticar. Deixam os dias tortuosos alcançar as suas casas, quando sentam a mesa não há diálogo, transmitem a raiva dos problemas financeiros aos filhos e estão habitualmente colocando a culpa no outro. Não sabem se desculpar e acabou a gentileza. Eles sabem o que é, o sentem, mas não exercitam.

É necessário descobrir o que nós queremos de nossas relações e desvendar o caminho para alcançar. Sabemos o que é, sentimos e precisamos transformar isso. Há caminhos – respeitar, conter a raiva, pedir desculpas por não nos conter, educar os filhos à mesa e demonstrar. Eu quero ter uma família com você, onde os filhos amam os pais e os pais amam os filhos, mas, para isso, não basta saber o que é o amor, ou sentir, é preciso praticar. Para conseguir uma vida feliz ao seu lado eu devo, antes de amar, exercitar o que sei – não apenas do amor – mas de todas as coisas.

Repensei: não depende de nós, depende de mim. Eu sei o que eu quero para nós e vou caminhar até isso, assim, de forma espontânea, você e todas as coisas serão transformadas pelas minhas atitudes. E vice-versa. – As nossas ações serão repassadas, isto é, continuadas. Modificando o que há ao nosso redor. – Eu transformo um pouquinho, você transforma um pouquinho e vai dar certo. Amor – já é desde abril, a partir de hoje será casamento. Então... meu amor... podemos começar de mãos dadas?”