domingo, abril 30, 2017

30 dias de 04 meses




"Senão é como amar uma mulher só linda 
 E daí? 
Uma mulher tem que ter 
 Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste 
 Qualquer coisa que chora 
 Qualquer coisa que sente saudade 
 Um molejo de amor machucado 
 Uma beleza que vem da tristeza 
 De se saber mulher 
 Feita apenas para amar 
 Para sofrer pelo seu amor 
 E pra ser só perdão
 [...] 
 Cuidado, companheiro! 
 A vida é pra valer 
 E não se engane não, 
tem uma só 
 Duas mesmo que é bom 
 Ninguém vai me dizer que tem 
 Sem provar muito bem provado 
 Com certidão passada em cartório do céu 
 E assinado embaixo: Deus 
 E com firma reconhecida! 
 A vida não é brincadeira, amigo 
 A vida é arte do encontro 
 Embora haja tanto desencontro pela vida 
 Há sempre uma mulher à sua espera 
 Com os olhos cheios de carinho 
 E as mãos cheias de perdão 
 Ponha um pouco de amor na sua vida."

SAMBA DE BÊNÇÃO 
Vinicius de Moraes e Baden Powell

ATRAVESSE ESSE PARENTÊSE

“As pessoas não são completamente ruins. Há inúmeros eventos entre o bom e o mau”, repetiu Anastácia.



Atravessamos cinco primaveras até esse reencontro e, as pequenas magias que experimentamos ao longo desse período, me fizeram compreender como o caminho que traçamos foi assertivo. Não poderíamos ter atravessado o rio por outra estrada, porque todos os caminhos estavam trancados para nós. Nós. Nós não tínhamos autorização do Senhor dos Destinos para caminharmos juntos, então a única forma de atravessar aquele rio, foi seguir sozinha.

As barreiras invisíveis que criamos desapareceram e aparentemente as estradas, agora destrancadas, estão cobertas de flores esperando os nossos passos calmos. Mas eu não tenho certeza se, após cinco primaveras solitárias, eu ainda desejo segurar a sua mão. Estou aflita, desesperadamente amedrontada de tocar a sua mão outra vez, pois, só de te olhar... Ah! Só de encarar os olhos seus... Um turbilhão de sentimentos escondidos reacenderam aqui dentro.

“Não é amor”, repito incansavelmente. Não pode ser amor depois de tantos nós na garganta. Não pode ser esse sentimento tão bonito depois de tanta decepção experimentada. Esses sentimentos espalhados aqui dentro, remexendo feridas que eu acreditei ter curado, deixaram-me a mercê de uma pessoa que eu pensei não ser mais. Eu não apenas deixei o seu caminho há cinco anos, eu também deixei de ser o que eu era. – Eu mudei, juro que mudei.

Mas nada disso importa, porque você nunca me conheceu. Tanto tempo juntos e tão pouco conhecimento sobre o outro! Às vezes, eu acredito que não foram os seus erros que nos distanciaram, não tinha como dar certo porque eu não sabia nada sobre você e nem você sobre mim. Não deu certo porque não tivemos a chance de participar um da vida do outro. E, ainda, a nossa distância se deu porque você era egoísta.

Eu considerei egoísmo uma série de ações que você cometeu e julguei que, por elas, você não era uma pessoa ruim para todos, mas ruim o bastante para me fazer mal. Ruim para mim. Primeiro, por nunca compartilhar os seus planos e, segundo, pois, enquanto eu almejava uma vida ao seu lado, seu único objetivo era não ficar só.

É egoísta estar com alguém unicamente pelo fato de que essa pessoa lhe faz bem, sem desejar construir uma vida com essa pessoa, sem estar verdadeiramente apaixonado por ela. Nesse tempo em que me prendeu ao seu lado, eu deixei de conhecer outras pessoas, pessoas estas que poderiam me conceder o amor que eu mereço. O amor que você não soube me entregar.

A parte mais dolorosa é me convencer de que esse amor, que eu esperava receber, na verdade nunca existiu. Eu amei sozinha. Eu amei por nós dois enquanto estávamos juntos e amei mais ainda cinco primaveras depois, silenciosamente. Amei até sobrar covardia. De nós dois, o que me restou foi o medo de amar outra vez.

Quando finalmente nos deparamos com a maturidade, depois de tantos passos solitários, esbarramos na covardia. O medo é o preço que as pessoas pagam quando deixam de lidar com as situações da vida. Ah! Os reencontros... Parece que eles irão nos assombrar por muito tempo. Um longo tempo até encerrarmos esse novo parênteses. Abre parênteses: (Quando nós dois teremos coragem?).